É preciso acordar! Por Carlos Weinman.

Imagem:: Pixabay.

Por Carlos Weinman, para Desacato. info.

Inaiê e Roni viajavam com um fusca amarelo, fabricado no ano de 1977, nele depositavam anseios por descobertas por um conhecimento de um mundo não necessariamente novo, já que os espaços em volta da rodovia apresentavam narrativas, embora muitas fossem veladas, contadas e não ouvidas, em alguns momentos as marcas deixadas nos espaços do percurso dos viajantes pareciam querer desvelar o que por vezes foi sufocado e até mesmo marginalizado. Por esse motivo, em vários momentos, os dois olhavam para fora do veículo e se perguntavam, mesmo não socializando, o que os lugares tinham para revelar.

Enquanto conversavam Roni colocou uma fita cassete, já que, embora os tempos já fossem marcados por tecnologias mais avançadas, o fusca não tinha um rádio moderno capaz de usar outros dispositivos. Esse fato não incomodava os viajantes, o que realmente interessava era ouvir a música, descontrair em um momento da viagem que parecia muito difícil, dado o fato que havia começado a escurecer e Inaiê acabara de sair da BR 282 e entrado na SC 154, sem contar que não conhecia muito bem o percurso.

Quando começou rodar a fita cassete os viajantes ficaram surpresos pelo fato em que as músicas haviam sido selecionadas pelo pai de Roni, não havia a descrição do conteúdo, mas a primeira música, diante das circunstâncias, parecia curiosamente traduzir as aflições do momento, pelo motivo de Inaiê estar cansada e com sono; a música era I Need To Wake Up da artista Melissa Etheridge. Quando a música começou a tocar Roni sorriu e disse para Inaiê:

Essa música é para você, já que a tradução é “eu preciso acordar”, no caso você precisa ficar atenta e não dormir.

Inaiê – Engraçadinho, mas você vai ter que ajudar! Além disso, a música tem uma história, um objetivo. Ela traz a necessidade de despertar, prestar atenção para as coisas que estão a nossa volta, em relação ao que estamos fazendo com a natureza, com os nossos semelhantes, com as pessoas. Para mim, ela traz todo sentido para essa viagem, gosto dessa parte da música: Take me where I am supposed to be (Leve-me para onde era para eu estar); To comprehend the things that I can’t see (Para compreender as coisas que não posso ver).  Estamos indo para a cidade de Irani, vejo que tem um lugar que preciso estar, encontrar, tem muitas histórias que ainda não posso ver ou entender, há muita coisa relacionada a minha mãe que eu não tenho conhecimento.  Por esse motivo, a nossa viagem não é apenas mais um percurso a ser feito, existe o desafio em desvelar a nebulosa teia da realidade, de um pedaço da minha história, o que significa um encontro com a minha identidade, presente na imagem da minha mãe, fui despertada por essa necessidade por Ulisses, quando ele mencionou que existem evidências que os parentes dela tenham vivido nas proximidades do município de Irani. Sei que a autora da música não necessariamente escreveu para esse propósito, mas é interessante ver como a música ganha nas almas das pessoas uma percepção estética, de sensibilidade e interpretação que foge muitas vezes das primeiras intencionalidades do autor, do cantor.

Roni – Então, a sua busca é uma forma de encontrar mais elementos e memórias de sua mãe e, portanto, da minha avó, já que você não teve o privilégio da convivência, tem um sentimento de não ter encontrado as suas raízes, não ter lembranças, o que gera muita tristeza, na medida que alguém sem memória é o mesmo que um vivente destituído do seu eu, do seu ser, apenas com a consciência de estar no mundo. Embora seus irmãos, meus tios possam trazer alguns fatos, não são suficientes, é como se visualizasse a narrativa de sua vida e da sua existência sobre a perspectiva de outros. O seu ser clama pela investigação, pela busca das raízes. Vejo que compartilho dessa necessidade, não sei muito sobre os meus avós, até pouco tempo nem sequer conhecia vocês, mas sempre tive presente os meus pais.

Inaiê – Você é muito esperto, talvez se prestarmos atenção para as coisas que estão a nossa volta possamos acordar, temos a necessidade em despertar, para não deixar a nossa história sucumbir, a violência do esquecimento tomar conta, infelizmente, muitas vezes, as narrativas são sufocadas, muitos ficam sem voz e sua história se encerra juntamente com a sua existência. É preciso acordar para desvelar, para não deixar a violência vencer.

Roni- Eu concordo contigo, mas vejo que a existência das pessoas deixam marcas nos lugares, muitas vezes parece que alguns espaços tem gritos, tem sorrisos, lágrimas, possuem marcas, mas é preciso parar para ouvir, sentir, especular, investigar.

Os sentimentos de Inaiê e sua necessidade de desvelar o que estava no passado contagiavam o jovem Roni, que passava cada vez mais admirar a sua tia, pois ela não se contentava com o que estava dado, o que ia em direção contrária ao imaginário daqueles que eram incapazes de perceber as contradições nas narrativas apresentadas como reais, sobre as explicações da terra, da sociedade, das vidas que se perdiam não pela imposição da mãe natureza, mas por necessidades duvidosas, por exercícios de poderes que se firmavam como muros no interior dos cérebros das pessoas, impossibilitando a capacidade de refletir, de ir além do que fora dado, já que  o aparente tomava forma e se transformavam em opiniões que com o passar do tempo ganhavam status de verdade, em conceitos a serem seguidos e não questionados.  Ao pensar sobre isso, Roni disse para Inaiê:

Vejo que isso tem muita coisa relacionada com a filosofia de Platão. Esse filósofo dizia que deveríamos desconfiar das experiências, dos sentidos, dos sentimentos, das paixões, que essas eram formas que poderiam levar a ilusão, ao erro e não ao conhecimento. Isso não queria dizer que ele não valorizasse a experiência, que poderia ser o primeiro contato do humano interessado no conhecimento. No entanto, as pessoas deveriam trazer a desconfiança, o questionamento reflexivo, racional, dado que a razão seria a fonte das ideias, dos conceitos universais ou mais gerais. Para alcançar tais conhecimentos era preciso dialogar, o que envolve a capacidade de ouvir as razões das pessoas e apresentar as suas razões. Platão estabelecia uma diferença entre dóxa (opinião) e episteme (ciência, conhecimento).

Inaiê – Exatamente, vejo que você aprendeu muito com Ulisses e Roberto. Platão dizia que o nosso mundo, que está a nossa volta nos leva a ter opiniões, que poderíamos dizer como conceitos empíricos, que podem ser interessantes como hipóteses para investigação. O problema está no fato que temos a tendência de tomar tais opiniões como verdades e a partir delas fazer juízos, dado que a capacidade de julgar é algo que acompanha o ser humano. O problema é que muitas vezes temos algumas impressões e de fato ignoramos muita coisa o que nos leva a cometer injustiças, a não agir da melhor forma possível. Por esse motivo, deveríamos ser capazes de usar a dialética, o diálogo para ir além do aparente.

Roni – Na atualidade Platão poderia dizer que a experiência pode nos enganar, muitas vezes entramos na rede social e ficamos presos a uma tela, tal como no mito da caverna, ficamos o dia todo ligados nesse universo, olhando para imagens do que seja real, mas vivemos sobre as aparências, julgamos, condenamos, temos a impressão de ter conhecimento, tiranos passam ser vistos como senhores bondosos e pessoas com bom senso podem ser condenadas com injustas. Por outro lado, o desejo por posses, dinheiro pode ser visto com a única necessidade, que o prazer momentâneo é tudo, mas tudo isso é pautado em conceitos oriundos das nossas impressões, de opiniões. Se Platão vivesse hoje talvez diria para investigar, buscar na ciência um melhor discernimento para julgar e agir.

Inaiê – Interessante! Em geral os tiranos, que não estão apenas em cargos eletivos, costumam perseguir, buscam xingar, mandam os outros que não concordam com eles ficarem quietos, não gostam de argumentos, muito menos de investigação. Sobre a questão do conhecimento, Platão costumava dizer que a alma humana antes de habitar o corpo teria passado por um rio, o rio do esquecimento, por isso era necessário buscar, dialogar para encontrar o conhecimento racional. Nesse sentido, algumas pessoas em relação as noções do certo, do errado, do justo e do injusto teriam maior conhecimento por lembrarem mais. Porém, aquelas pessoas que se dedicam ao poder tinham a tendência de ter bebido muito das águas do rio Lethé (esquecimento) e por isso tenderiam a ser injustas, por não terem o conhecimento sobre a justiça.

Roni – Isso é muito interessante, agora fico me perguntando sobre a democracia, quando autoridades ocupadas com o poder e permanecem nele esquecem do justo, preferem satisfazer a opinião (dóxa) e não basear suas decisões na ciência para promover o melhor para o seu povo.

Inaiê – A democracia se for pensada como mero consenso, costuma não formar cidadãos, apenas seres que podem ser convencidos e suas opiniões passam como vontade da maioria. Porém, na luta pela sobrevivência, nas disputas por poder, pode aparecer o medo, a fome e a miséria. A ameaça dessas pode levar a julgamentos equivocados, pois não foi concedido o direito e as oportunidades, possiblidades para pensar, investigar e refletir.

Roni- Quando isso acontece em um país, constantemente marcado pelo fato das necessidades básicas não serem supridas, pode chegar o momento em que a tirania possa ser bem vinda pelos olhos da opinião pública, já que essa pode ter uma imagem da justiça, mas não a conhece.

Assim que Roni terminou de falar Inaiê perdeu o controle do fusca, acabaram capotando várias vezes, quando Roni acordou não encontrou Inaiê, gritou, chamou por ela, quando de repente a viu, estava deitada alguns metros de distância do fusca, foi socorrê-la, quando a pegou pelos braços desapareceu, foi nesse momento que ouviu a música I Need To Wake Up (Eu preciso acordar), ouviu um socorrista chamando por ele, foi quando percebeu que tinha tido uma ilusão, nesse momento gritou:

Onde está você Inaiê?

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Carlos WeinmanPossui graduação em Filosofia pela Universidade do Oeste de Santa Catarina (2000) com direito ao magistério em sociologia e mestrado em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (2003), pós-graduado Lato Sensu em Gestão da Comunicação pela universidade do Oeste de Santa Catarina. Atualmente é professor da Rede Pública do Estado de Santa Catarina. Tem experiência na área de Filosofia e Sociologia com ênfase em Ética, atuando principalmente nos seguintes temas: estado, política, cidadania, ética, moralidade, religião e direito, moralidade e liberdade.

 

 

 

 

 

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