É a frustração masculina que decide os rumos políticos do Brasil hoje

Ilustração: Cassio Tisseo/Vice

Por Letícia Quatel.

No calendário das efemérides brasileiras, 28 de outubro será o Dia Nacional em que a extrema-direita saiu do armário. A eleição de Jair Bolsonaro (PSL) – e suas declarações misóginas, violentas e racistas – abriu caminho para um tipo muito característico: o homem branco e rico.

Racismo tão notável, aliás, que até reconhecimento do ex-líder da Klu Klux Klan, movimento de supremacia branca, Bolsonaro ganhou. Estudos e levantamentos apontam que, muitas vezes, homens de extrema-direita culpam as mulheres por seus problemas emocionais e sociais.Para o norte-americano Will Carless, jornalista especializado em cobertura de crimes de ódio e extremismo nos EUA do Reveal, The Center for Investigative Reporting, não é pra menos. “O que o Duke [ex-líder KKK] disse é que Bolsonaro se parece com ele por ser um racista que acredita na superioridade dos homens brancos. Isso diz muito sobre coisas que o Bolsonaro fala e faz”, afirmou em entrevista à VICE.

“Seja na Europa, nos Estados Unidos, ou no Brasil, a extrema-direita racista, autoritária, ou fascista, é predominantemente masculina” – Michael Löwy, sociólogo brasileiro

Provavelmente também diz muito sobre quem o apoia, já que o presidente eleito venceu em 85% dos municípios de maioria branca, foi o mais votado em 94% dos municípios mais ricos e tinha 55% da preferência masculina a três dias das eleições, segundo o Datafolha.

Estudos e levantamentos apontam que, muitas vezes, homens de extrema-direita culpam as mulheres por seus problemas emocionais e sociais.

Nada que surpreenda a quem estuda os movimentos extremistas à direita. Trata-se de um território predominante masculino, como confirma à VICE o sociólogo brasileiro e diretor do Centre National de la Recherche da França, Michael Löwy. “Em todos os países, seja na Europa, nos Estados Unidos, ou no Brasil, a extrema-direita racista, autoritária, ou fascista, é predominantemente masculina”, diz. Ou de um território da frustração masculina, como diz Carless, que hoje vive no Rio de Janeiro. “Muitos estudos complexos que investigam o neonazista identificam um problema grave entre ele e a figura da mulher. Essa conexão com a misoginia é muito sintomática neste ponto.”

Essa extrema-direita também aceitou o convite para encarar as minorias e movimentos opositores como inimigos que devem ser eliminados. Nas palavras do próprio Bolsonaro, em mais de uma ocasião, a mais recente em entrevista à TV Cidade Verde, no Piauí: “Tudo é coitadismo. Coitado do negro, coitado (sic) da mulher, coitado do gay, coitado do nordestino coitado do piauiense. Vamos acabar com isso.” Quase um convite à caça. Para Löwy, brasileiro radicado na França, trata-se de um discurso demagógico e fascista. “Sua demagogia fascista se dirigia sobretudo contra os movimentos sociais, a esquerda, o PT por um lado, e as minoriais sexuais por outro lado.”

“Muitos estudos complexos que investigam o neonazista identificam um problema grave entre ele e a figura da mulher” – Will Carless, jornalista especializado em crimes de ódio

Essa lógica de que aquele que não faz parte do meu grupo deve ser combatido, comum do neonazismo, se lê de forma concretizada no assassinato do mestre de capoeira Moa do Katendê, esfaqueado 12 vezes por um eleitor do Bolsonaro após uma discussão política, em Salvador, Bahia. E no assassinato de Charlione Lessa Albuquerque, morto a tiros em Pacajus, na Grande Fortaleza, também por um eleitor do Bolsonaro, durante uma carreata pró Fernando Haddad, candidato do PT, principal rival do candidato PSL nas eleições. Isso para se ater a apenas dois exemplos de ataques ocorridos no período eleitoral.

“Essa supremacia será mantida com os homens brancos e ricos no poder. É só olhar pro gabinete dele [Bolsonaro] que você tem a prova” – Will Carless

Se não é possível, por um lado, prever se essa onda da extrema-direita dará vida a grupos extremistas que defendem a supremacia branca e o nacionalismo branco como o caso da Ku Klux Klan nos Estados Unidos, para Carless, no entanto, essa supremacia branca será instituicionalizada por Bolsonaro. “Essa supremacia será mantida com os homens brancos e ricos no poder. É só olhar pro gabinete dele que você tem a prova”, disse à VICE em alusão ao gabinete de transição do presidente eleito que conta com 27 nomes, todos homens. E por outro lado, Michael Löwy relembra a perseguição aos comunistas na América Latina, inclusive no Brasil, como o Comando de Caça aos Comunistas, uma organização da extrema-direita que atuou na década de 60 no regime militar. “Não se pode excluir o aparecimento de bandos armados, milicianos, para-militares, ou fascistas, se dedicando à ‘caça aos comunistas’. Isto se deu em vários países da America Latina como Argentina, El Salvador, Colombia.”

Mas essa extrema-direita que mata, agride e flerta com a tendência autoritária em nome da honra, da família, da segurança e do combate à corrupção não é recente na história do Brasil. “Tendências autoritárias, de extrema-direita, intolerantes, sempre existiram na sociedade brasileira”, menciona Löwy. E já era observada nos anos 80 pelo sociólogo Antônio Flávio Pierucci, professor titular e chefe do Departamento de Sociologia da USP até seu falecimento em 2012. Para ele, o medo é um fio condutor daquilo que ele chamou de “a nova direita“ já em 1987 em um texto publicado na revista Novos Estudos. O temor ao qual ele se refere é dos migrantes, especialmente dos nordestinos, das mulheres liberadas, dos homossexuais, dos mendigos em cada esquina da metrópole e de tantos outros grupos sociais que transgridem o padrão no qual essa direita acredita. Para o sociólogo falecido “seu tique mais evidente é sentirem-se ameaçados pelos outros”. E como qualquer animal que se sente ameaçado, no estereótipo do macho alfa, se vê desestabilizado e se prepara para o ataque, mantendo ao seu lado somente aqueles iguais a ele, neste caso, o branco e rico.

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