Donald Trump venceu. Os mexicanos se perguntam: e agora?

Foto: Reuters.
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Por Ana Rosa Moreno, Puebla, México, para Desacato.info.

Tradução: Elissandro dos Santos Santana, para Desacato.

Quando se pensava que já tínhamos um lindo presidente com quem se preocupar, aparece mais um problema: a vitória nas eleições presidenciais do magnata empresário cor laranja, Donald Trump. E todas essas notícias caem como chuva sobre possíveis e certas deportações de imigrantes, a construção de um muro pago pelos mexicanos e dentro de nossas fronteiras, comemorações de grupos radicais racistas como o Ku Klux Klan. Vemos uma população mundial com raiva. Dizem por aí que venceram a ignorância, o ódio, o racismo e a violência, porém, se Hillary tivesse sido eleita teria sido exatamente igual, porém, não de forma escancarada. A ideia aqui é não mostrar o México como vítima, já que tem como se defender se souber usar suas cartas. Outro ponto muito importante é mostrar que também há efeitos negativos para os Estados Unidos.

Começo citando o ex-primeiro ministro canadense Pierre-Elliot Trudeau quando comparou que compartilhar a fronteira com os Estados Unidos é como “compartilhar a cama com um elefante”. É que cada presidente eleito, ou possível candidato à presidência, gera incerteza para o Canadá e para o México, dado que não sabemos em que momento vai virar o elefante e nos esmagar. O maior temor é para o México, o país mais fraco pertencente à América do Norte.

O México deverá não somente suportar a intervenção permanente em assuntos de governo, mas deve lidar com uma fronteira que é pauta de Agenda de Segurança Nacional por conta do narcotráfico, da entrada de imigrantes ilegais e das loucas ideias estadunidenses de que os terroristas poderiam cruzar por algum ponto da fronteira para atentar contra a segurança do país; a independência econômica; um espirro na economia dos EUA é uma tempestade para a economia mexicana; a questão dos migrantes ilegais mexicanos que trabalham e estudam (dreamers) e a questão do comércio. O México possui uma vasta riqueza de recursos naturais e só se preocupa com um cliente.

A vitória de Trump gera incerteza pelas propostas e pelos comentários racistas que direcionou ao povo mexicano e, em geral, às demais minorias raciais que vivem na qualidade de residentes ou imigrantes ilegais. Suas promessas, possivelmente se converterão em ações que terão repercussões para ambas as nações e Trump, caso seja um empresário inteligente, saberá que não é um bom negócio.

Comecemos com o tema das deportações. De acordo com o Centro de Pesquisa Pew, são 55,2 milhões de latinos nos Estados Unidos, que representam 17% da população total do referido país. Dessa primeira quantidade, 35 milhões de pessoas são de origem mexicana, isto é, 63% da quantidade total de latinos.

Agora, tão somente em 2013, os imigrantes residentes como os ilegais contribuíram para a economia estadunidense com 8 % do PIB dessa nação, afirma Juan Luis Ordaz, economista sênior da BBVA Research. Com relação ao pagamento de impostos, a população mexicana chega a contribuir com 50 bilhões de dólares ao tesouro.

Ademais, representam a mão de obra barata para as empresas estadunidenses, pois os salários dos mexicanos são menores do que o de todos os grupos raciais dos EUA. Um estudo realizado pelo BBVA e Conapo (Conselho Nacional da População) revela uma assimetria nos salários entre migrantes profissionais ou com estudos de pós-graduação “já que enquanto os mexicanos ganham em torno de 36 mil dólares, os africanos recebem 27% a mais da dita monta; os sul-americanos, 31% a mais; os asiáticos, 53% adicional; os chineses, 49%; e os canadenses, 85% a mais”[1]. Os salários dos imigrantes ilegais são bem pequenos, já que variam de 6 a 14 dólares por hora e não possuem quaisquer benefícios trabalhistas.

A tentativa de deportar todos os imigrantes ilegais e, em especial, os mexicanos para conseguir seu “Faça a América Grande Novamente” custará milhões em logística (invasões e transporte de migrantes para a fronteira). Uma pesquisa do grupo conservador Fórum de Ação Americana estima que deportar  em 2016 “11 milhões de ilegais custaria entre US$400.000 e US$600.000 milhões e levaria uns 20 anos”, ademais, significaria grandes perdas para as empresas norte-americanas já que a mão de obra barata dos mexicanos equivale a custos de produção baixos e maiores lucros para eles. Além de perdas de arrecadação tributária porque até os ilegais devem fazer suas declarações de impostos, também ocorrerão perdas na economia, pois os mexicanos são excelentes consumidores. Trump falou, ainda, de eliminar a nacionalização por nascimento e cortar a ajuda ao México.

Para o México significa o caos total, porque perderia um dos insumos que alimenta a economia mexicana: as remessas. Segundo o Banco do México (Banxico) entre janeiro e setembro do ano em curso, os trabalhadores nos Estados Unidos enviaram 20,046 milhões de dólares para suas famílias no México. Em caso de deportação, se perderia a maior parte dessa quantidade. Além disso, o país não tem capacidade para absorver no mercado de trabalho tantos milhões de deportados. Se algo precisamos é de trabalho bem remunerado.

Sobre a construção de um muro para proteger a fronteira Estados Unidos-México, sobre território mexicano, com pagamento pelo próprio México, é uma loucura total. As condições geográficas seriam um primeiro obstáculo; segundo, o financiamento para construir dito muro significa milhões de dólares e, segundo Trump, o país mexicano deve pagar porque somos a origem de seus problemas (drogas e delinquência). No caso de não querer pagar a respectiva construção, o presidente eleito assegurou em campanha que confiscaria as remessas, aumentaria o custo dos vistos temporários para estudantes, trabalhadores, empresários, etc. e cortaria a ajuda externa.

Porém, se pensa deportar todos os imigrantes mexicanos ilegais de golpe, então, não poderá confiscar o dinheiro das remessas e, honestamente, não acredito que o Congresso aprove gastar uma exorbitante quantidade do orçamento nacional para construir este muro. No máximo, eles vão aprovar um montante para reforçar a fronteira, mais funcionários, mais patrulhas, mais tecnologia e ainda seria uma despesa enorme.

Foto: Reuters/Tomás Bravo
Foto: Tomás Bravo/Reuters

Sobre a saída do TLC, a renúncia dos Estados Unidos à Zona de Livre Comércio entre os países do Norte conduziria a uma perda imediata de postos de trabalho e à falência de empresas. Trump, ademais, propôs a aplicação de um imposto de 35% para produtos mexicanos que entram nos Estados Unidos. Má ideia; os Estados Unidos dependem dos recursos naturais e da matéria-prima barata dos mexicanos. Também afeta aos norte-americanos que têm empresas no México e exportam aos EUA. Estamos falando de perdas milionárias.

Para a construção do muro e a saída do TLCAN faz-se necessária a aprovação do Congresso porque o presidente não é todo poderoso. Se na verdade houvesse um sistema real de “Verificação e Saldo” seria possível frear suas propostas descabidas, mas se não existe, então, há que se entrar em pânico.

Trump já venceu e grupos radicais racistas comemoram a vitória. Ocorreram ataques de ódio contra os migrantes e o presidente de cor laranja já assegurou que é um fato a deportação de três milhões de imigrantes (em especial, aqueles que possuam antecedentes criminais) e a construção de cercas em certas zonas dentro dos 3 mil quilômetros da fronteira entre os dois países.

Para os que acreditam que com Hillary estaríamos melhores, não acredito. Durante as duas administrações de Bill Clinton, esposo de Hillary, construiu-se o muro que delimita a fronteira Estados Unidos – México, que começou a construção em 1994, pela Califórnia, um ano antes da chegada de Bill Clinton à Casa Branca. Atualmente, o muro mede 20 quilômetros do caminho para o Oceano Pacífico, tem uma porta de ferro que se abriu somente três vezes para que poucas famílias mexicanas pudessem se ver e se abraçarem por um período de três minutos.

Lembrem que a democrata, igual a Barack Obama, em campanha, prometera levar adiante a reforma migratória e, em troca, a administração de Obama deportou em somente cinco anos de sua administração dois milhões de imigrantes ilegais, independentemente deles terem antecedentes criminais ou se tinham cometido delitos menores. Apenas 2% dessas pessoas estavam envolvidas em crimes graves. Ademais, com Obama as deportações foram expedidas sem a oportunidade de procura por assistência legal para solicitar asilo ou regularizar-se. Em 2003, a administração de Obama apresentou acusações contra 90% de imigrantes para que fossem presos no caso de voltarem ilegalmente e serem detidos.

O que o México deve fazer? Olhar até o outro lado, não depender política e economicamente dos Estados Unidos, diversificar seu mercado para o exterior, fortalecer seu mercado interno, investir em Ciência e Tecnologia, dignificar o campo e recuperar seus recursos naturais. De fato, aos Estados Unidos não lhes convêm perder a mão de obra e os recursos baratos do México. No que diz respeito à presença dos EUA na América Latina, o país mexicano é sua ponte de entrada. Lembram-se do milagre mexicano? O México por trinta anos (1940-1970) foi um país independente, soberano e com crescimento econômico.

 

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