Documentário sobre Yzalú retrata intersecções da mulher negra na sociedade

Yzalú. Foto: Divulgação

Por Paloma Vasconcelos.

Cerca de 70 pessoas lotavam a sala de exibição no lançamento do documentário ‘Yzalú: Rap, feminismo e negritude’ na noite fria da primeira sexta-feira (15/6) de Copa do Mundo. Contando a trajetória musical e pessoal de Luiza Yara Lopes Silva, 35 anos, conhecida como Yzalú, o documentário retrata como as intersecções entre o racismo, machismo e classismo transformaram e, em muitos momentos, limitaram a sua vida.

A história é narrada em primeira pessoa, na voz da cantora, para respeitar o seu lugar de fala. Com trechos de shows e bastidores, o documentário traz também momentos descontraídos da artista em sua casa durante as entrevistas. Ela se autodenomina como mina preta da periferia, com limitação física e fazendo rap no violão. O curta independente foi dirigido e produzido por Inara Chayamiti e Mayra Maldjian e estreou no In-Edit Brasil 2018, décima edição do Festival Internacional do Documentário Musical. A exibição ocorreu na Matilha Cultural, em São Paulo, e foi seguida de um pocket show da cantora Yzalú.Em entrevista à Ponte, Yzalú conta que foi inesperado receber o convite para protagonizar o documentário. “No primeiro momento em que elas encostaram lá na minha quebrada, em São Bernardo, eu já gostei dessa ideia. Ainda mais por serem duas mulheres, porque rolou uma cumplicidade. Por mais que tenham recortes, existe essa cumplicidade por sermos mulheres. Existiu muita sensibilidade da parte delas por entender o meu universo e o respeito para ouvir”.

Motivadas pela ‘Primavera Feminista’, como ficou conhecido o ano de 2015 em que movimentos de mulheres tomaram as ruas e as redes sociais com uma série de reivindicações, Inara e Mayra decidiram contar uma história de uma mulher forte no primeiro documentário juntas.

“Depois da Primavera Feminista ninguém conseguiu ficar quieta com as coisas todas que atrapalham as mulheres todos os dias. E aí, cada vez mais, a gente foi entendendo que tinha essas diferenças, esses feminismos. Aí conversando com a Mayra, ela falou ‘meu, conheço uma mina incrível pra gente contar a história dela’”, conta a filmmaker e videojornalista Inara Chayamiti, que também assina direção de fotografia, montagem e finalização do documentário.

A ideia era que, além de contar uma história, ela pudesse ser contada da maneira mais didática possível, pois, para as diretoras, a sociedade ainda tem muitas dificuldades de entender como é a vivência de uma mulher negra. “A gente decidiu fazer de uma forma que a própria Yza contasse a história dela, pois ela tem um jeito muito didático, muito visual de contar. Ela contando a própria história, você faz um filminho na cabeça. Então a gente achou importante isso, contar as coisas da melhor forma possível e deixar que ela contasse a própria história”, explica a jornalista Mayra Maldjian, 33, que também é deejay.
Yzalú acredita que o objetivo do documentário é causar impacto. “Ele possibilita quebrar paradigmas, mostrar como é a realidade do deficiente físico, questionar o que é a beleza padrão. Até mesmo para aquele que não entende, que acha que é tudo mimimi, é mostrar que pessoas passam isso todos os dias. O meu desejo é que ele ganhe as ruas, ganhe as escolas, ganhe os presídios, se possível. Porque as minas que tão lá precisam ver isso. Esse documentário deixa essa mensagem de possibilidade: se foi possível comigo, também pode ser para outras pessoas. O céu é o limite”.

‘Eu fui criada para ser forte’

Em diversas cenas do documentário e durante o evento de lançamento, Yzalú faz questão de relembrar o quanto a sua mãe teve impacto na sua carreira. Para a Ponte, a rapper conta que os primeiros passos na música só foram possíveis por causa da matriarca.
“Minha mãe é tudo na minha carreira. Nos primeiros acordes do violão ela tava lá, ouvindo. Os vinis que eu ouvia quando criança era porque ela tinha comprado. Quando ela ia trampar nos três empregos, depois que ela separou do meu pai, eu ficava em casa ouvindo os vinis. Se não fosse ela eu não ia estar me alimentando de música”, conta.

A cantora brinca ao lembrar que a mãe não gosta de vê-la cabisbaixa nem chorando, pois ‘eu fui criada para ser forte’. “Pode parecer radical, mas foi o jeito dela, o jeito que ela enxergou o mundo sabendo que eu preciso ser forte. Eu queria não ter que ser forte, mas eu preciso. Se um dia eu acordo mal a minha mãe já estranha, ela não está acostumada de fato. Ela não gosta literalmente de me ver chorar, quando ela me via chorar ela gritava ‘o que que foi, o que você tem?’. Então é um lance de proteção. Ela me deu as estruturas para que eu enfrentasse o mundo e foi isso que me formou, foi o jeito que ela encontrou de me dar vida”, conta Yzalú.

O machismo e o racismo no dia a dia

Um fator determinante em comum percebido por Inara, Mayra e Yzalú é o machismo. Mas ele age de diferentes formas, como Yzalú reforça em uma das cenas do curta. “Na quebrada, as mina são feministas sem saber que são. Tem a pirâmide em que a mulher negra está na base e ela tem que ser quatro vezes melhor”, diz a rapper, durante o documentário.

Yzalú acredita que, apesar de ser um obstáculo imenso, o machismo surge como um desafio para a resiliência. Para a cantora, quanto mais o machismo se projeta, mais forte ela precisa ser. No começo da sua carreira, por exemplo, ela precisou se reafirmar por ter tido como primeiro sucesso uma música composta por um homem: o single ‘Mulheres negras’ foi escrito pelo rapper Eduardo Taddeo.

“Muito mano fala que cheguei onde cheguei por causa do Eduardo, desmerecendo a minha interpretação. Eu pedi para ele escrever uma letra que retratasse a mina na periferia, o antes e o agora, e ele atendeu. Ele foi a primeira pessoa no rap que me viu como eu sou. Eu não tinha falado da minha limitação física para ninguém, porque não queria que me dessem uma oportunidade por conta disso. Isso foi uma quebra de paradigma, sem contar que eu era uma interprete no rap que tocava violão. Quando eu chegava na minha quebrada em 2004 pra tocar rap com o meu violão ninguém entendia nada. Por isso, quando o ‘Minha bossa é treta’ surge, surge com essa necessidade de subir ao palco como eu sou, estar ali como eu vim ao mundo, como eu sou, com a minha prótese a mostra, sendo mulher preta com o violão e com composições próprias”, explica Yzalú.

Mayra reforça que, independentemente da profissão, a mulher precisa ser melhor. “A gente tem que ser duas vezes melhor e a mulher negra tem que ser quatro vezes melhor. Sempre. Eu vivi muito isso com a Inara, se um cara está lá fazendo a mesma coisa que a gente ele pode tudo, já a gente precisa de autorização para tudo. Isso é muito esgotante. Não só porque ficou carregando câmera e equipamento, você sai esgotada porque teve que ficar se explicando e falando o que você é o tempo todo, mesmo você estando com câmera ou com crachá”.

Para Inara, ocupar os lugares pode ser a solução contra o machismo estrutural. “É um espaço que não é nosso, tem que ficar o tempo todo falando ‘é meu’. Mesmo dirigindo um documentário, sim gente, tem que ter mais diretoras, temos que ocupar os espaços. E eu ainda faço câmera, que é um lugar muito dominado por homens. Vira e mexe eu escuto ‘qual é a especificação técnica da sua câmera’, eles usam isso para te desqualificar. Já com um homem teria uma troca. Com eles tem isso da amizade. Agora, nós mulheres temos a sororidade, que vem crescendo, a gente precisa disso, não é fácil ser mina e ser mina sozinha é pior ainda. Esse documentário mostra essa união”.

Audiovisual como ferramenta de transformação

Tanto o documentário quanto a música são ferramentas de mudança, como conta Inara à Ponte. “No fim, a gente queria que outras pessoas, que não só mulheres negras, pudessem ver isso. A partir do momento que a gente consegue atingir e se conectar outros públicos, porque se esse é um problema estrutural, a gente tem que mudar inclusive a cabeça de quem pensa diferente da gente. A história da Yzalú é uma história que consegue ajudar muito nisso”, reforça.

‘Yzalú: Rap, feminismo e negritude’ tem um efeito transformador. “Quando eu escolhi fazer jornalismo, queria contar histórias que transformassem a vida das pessoas. Então eu vi que o documentário tem o poder de mudar a realidade, principalmente essas coisas estruturais. O feminismo interseccional fala muito disso, se tem uma mana que passa mais dificuldade que você e se ela tem outra realidade, então você tem que olhar para ela e tem que tentar transformar aqui, puxar quem está mais embaixo do que você em vez de ficar pensando só na sua demanda. A gente era uma Inara e uma Mayra no começo e hoje somos outras. Ela é outra Inara e eu outra Mayra”, explica.

Como próximos passos para o documentário estão a distribuição fora dos cinemas, principalmente em escolas, periferias e presídios femininos. “Vai chegar na internet, mas antes a gente quer impactar as pessoas que precisam e aquelas que às vezes nem sabem que precisam”, ressalta Inara.

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