Documentário relata busca por justiça contra crimes cometidos durante a ditadura de Franco, na Espanha

Nos cinemas a partir de quinta (28), é um filme necessário a um Brasil que teima em apagar sua história.

Maria e as flores para a mãe morta pela ditadura de Franco: uma vida em busca dos restos mortais. Foto: Divulgação

Por Cláudia Motta.

São Paulo – Documentar o esquecimento. É essa a proposta de O Silêncio dos Outros, cumprida com êxito pela direção de Almudena Carracedo e Robert Bahar, graças à ajuda daqueles que dedicam a vida a jamais esquecer.

A ditadura de Francisco Franco, na Espanha, durou 40 anos e fez mais de 100 mil vítimas. Em 1977, dois anos após a morte do ditador, a vitória dos que clamavam pela anistia aos presos políticos é transformada pelo parlamento em anistia geral. Um pacto pelo esquecimento, pelo qual os espanhóis decidiram deixar para trás, “sem reviver rancores”, os crimes cometidos por militares, juízes, médicos e torturadores contra os que lutaram em defesa da democracia.

Maria Martín era criança quando a mãe foi levada em um vilarejo no interior da Espanha. Rasparam-lhe os cabelos e a expuseram pelas ruas. As crianças seguiam, jogavam pedras, lembra. A família foi proscrita. “Ela não havia feito nada. Eles diziam que era vermelha.”

Na mesma noite, a mãe de Maria apareceu morta. Ela, mais duas mulheres e 27 homens. Os corpos foram encontrados onde hoje, décadas depois, passa uma estrada. Esta é a primeira cena do documentário: Maria caminhando com sacrifício sob o peso da idade para colocar flores no local onde morreu jovem sua mãe. Ela é um dos que jamais esquece e vive para cumprir a promessa feita ao pai: enterrar com ele a companheira, cujo corpo nunca foi entregue à família.

Maria e os espanhóis que se recusaram ao pacto do esquecimento são a razão de existir de O Silêncio dos Outros. São suas histórias, a cumplicidade com a luta das suas vidas por justiça, e não vingança, como gostam de frisar, que permitem documentar o que o país teima em esquecer.

Os jovens, nas praças, desconhecem a lei do esquecimento. Pouco sabem sobre a ditadura sob a qual tantos padeceram. As escolas, protegidas pela lógica dessa legislação, não ensinam sobre a anistia. “Ninguém conta. E porque ninguém conta, ninguém sabe.”

Impossível não fazer uma analogia com o Brasil de hoje, no qual torturadores são homenageados e o governo nomeia um general que se refere às Comissões da Verdade – responsáveis por investigar os crimes contra a humanidade durante a ditadura militar – como “comissões de calúnia”.

Na Espanha do esquecimento, muitos saúdam, na atualidade, a luta contra o comunismo dos tempos de Franco, quando o país, com o apoio de outras nações europeias e dos Estados Unidos, viveu um milagre econômico que provoca saudade num continente pressionado pela crise econômica.

O documentário, que tem produção de Pedro Almodóvar, levou seis anos de produção e chega na quinta-feira (28) às salas de cinema do Brasil. Ganhou o Prêmio do Público e o Prêmio Cinema pela Paz, no Festival de Berlim, e o Goya, algo como o Oscar espanhol, de Melhor Documentário.

Crimes que não podem ser anistiados

Com o tempo, os personagens, que aceitam expor às câmeras a intimidade das suas dores em nome da justiça que nunca deixaram de buscar, envelhecem. Idosos que procuram os restos de pais, irmãos, filhos, mortos jovens. Querem o direito de sepultar os seus, antes que eles mesmos morram.

Contam para isso com a ajuda de advogados de direitos humanos. Carlos Slepoy é um deles. Conhecido internacionalmente pela sua atuação, ao lado do juiz Baltasar Garzón, no processo que resultou na prisão do ditador chileno Augusto Pinochet, em 1998, Slepoy ingressa em 2010, na Argentina, com uma ação para punir os crimes contra os direitos humanos cometidos pela ditadura franquista. Crimes contra a humanidade não prescrevem, tampouco podem ser anistiados.

Aos poucos, os que lutam por lembrar o que jamais deve ser esquecido conquistam pequenas vitórias. As mães que veem ser denunciado o médico que lhes roubava os bebês para entregar às famílias de militares. O torturado que sorri com prazer ao ver seu torturador pela primeira vez exposto na TV pelos crimes que cometeu. Em 2017, as ruas e praças de Madri deixaram de ter nomes de ditadores e torturadores.

“A vida é injusta, os humanos são injustos”, afirma Maria Martín. Durante 40 anos, a vala comum do cemitério onde foram jogados centenas de corpos vitimados pela ditadura franquista, permaneceu fechada. Os familiares tinham de jogar flores por cima do muro onde choravam seus mortos. Em 2000, cerca de 8 mil homens e mulheres tiveram seus restos reconhecidos e entregues aos familiares para o sepultamento tão esperado.

Mais de 100 mil ainda não foram encontrados. Por toda a Espanha há valas com dezenas de corpos em campos, estradas. Ainda hoje, o país impede a extradição dos torturadores, para que sejam julgados pela Justiça argentina, onde corre o processo iniciado por Slepoy em 2010.

O advogado morreu em abril de 2017, antes de poder assistir ao filme. É a ele, e aos que não se entregam ao silêncio acreditando que um dia haverá justiça, que Almudena Carracedo e Robert Bahar dedicam sua obra.

 

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