Diretor de ‘A Batalha do Chile’ associa momento atual do país à era Pinochet

Entrevista com Patricio Guzmán por Leandro Melito e João Peres.

São Paulo – Responsável por uma trilogia ímpar sobre os dias que precederam o golpe contra Salvador Allende no Chile, em 1973, o documentarista Patricio Guzmán entende que a classe política “preguiçosa” de seu país está conduzindo uma transição “malfeita” à democracia desde o fim do governo do ditador Augusto Pinochet, em 1990.

Vivendo desde o exílio na Europa, para onde partiu semanas após o golpe de 11 de setembro de 1973, ele lamenta o ato organizado em junho por apoiadores do ditador, responsável pela morte de ao menos 3.000 pessoas. Como contraponto, Guzmán escolheu para exibir em um festival de Santiago um filme que mostra os crimes cometidos durante o regime. “O que agradou muito às pessoas, os jovens, sobretudo, porque puderam comparar aquele país pinochetista e o de hoje. E não se diferencia muito.”

Na primeira parte da entrevista concedida à Rede Brasil Atual e ao Coletivo Cine Escadão, Guzmán relata a vida no exílio e a volta ao Chile para filmar Memória obstinada, que registra as reações de estudantes à exibição de A Batalha do Chile.

De que maneira a vida no exílio lhe ajudou a finalizar A Batalha do Chile?

Saí ao exílio no final de 1973 no Chile e fui a Cuba para terminar o filme que estava produzindo. Estava filmando A Batalha do Chile e fui a Cuba porque me ofereceram os meios técnicos para terminar o filme. Uma sala de montagem. E eu levei meu montador do Chile, Pedro Chaskel, e com ele terminamos o filme em quatro ou cinco anos de trabalho.

O exílio é uma situação com a qual você tem de se acostumar. A princípio, sente-se muito desorientado, não sabe o que fazer, mas pouco a pouco vai encontrando um lugar, sobretudo quando trabalha. Quando trabalhei no filme me senti muito bem, muito feliz, sobretudo porque estava fazendo um filme sobre o Chile, sobre o que havia ocorrido. Isso funcionou bem.

O problema é que quando terminei o filme acabei sem nenhum propósito, sem nenhum objeto. Isso me custou muito para encontrar o próximo filme. Estive oito anos esperando. Esse período foi mais difícil. Por outra parte, o exílio te dá uma boa distância para trabalhar seu país porque, ao estar fora, é mais fácil olhar para dentro. Essa é a parte positiva.

Pessoalmente, não sou nostálgico. Não gosto de empanadas, não gosto da comida cotidiana do Chile. Do vinho, sim, gosto, mas à parte isso não sinto saudades de estar em Viña del Mar, Santiago ou Valparaíso. São cidades bastante normais. A idiossincrasia chilena não é muito forte. De modo que se pode viver em qualquer parte.

Quando você voltou do exílio pela primeira vez?

Voltei pela primeira vez em 1987, em plena ditadura. Utilizei como guarda-chuvas a Igreja Católica. Inventei rodar um filme sobre o trabalho que a igreja estava fazendo a favor dos presos políticos. A igreja chilena, ao contrário de tantas outras da América Latina, colocou-se contra Pinochet, e criou escritórios com sociólogos, médicos e psicólogos que ajudavam as vítimas. Estive quatro meses em Santiago fechado em um apartamento, não saía a nenhuma parte. Ficava o tempo todo aí para que não fosse levado preso. Assim estive até que prenderam meu ajudante de direção e meu sonoplasta. Quando isso ocorreu, fui embora. Era uma produção para a televisão espanhola. Tem 24 minutos e se chama Em nome de Deus.

A burguesia chilena segue insurreta?

A transição chilena foi muito malfeita. Não houve julgamento contra os militares responsáveis, os torturadores estão livres. Há alguns presos entre os quadros significativos, mas os quadros médios estão em suas casas. Portanto, é um país onde reina a impunidade, onde o sistema judicial é muito lento e onde as famílias se cansaram de reclamar justiça. A primeira pessoa que recebeu as mulheres, depois de 30 anos de reclamações, foi Baltazar Garzón em Madri. Antes nenhum juiz chileno as recebeu. Negavam-se a recebê-las, ou seja, é uma justiça às ordens da ditadura. É uma justiça anêmica, que deixa que as coisas passem batidas. Há dois ou três juízes muito bons, mas um corpo judicial são dezenas de juízes.

“Memória obstinada” provocou um debate na população chilena sobre a ditadura.

A mim ocorreu esta sequência em um colégio. Projetei a segunda parte de A Batalha do Chile em uma sala. Quando o filme terminou, ninguém aplaudiu, ninguém acendeu a luz e a televisão ficou ali fazendo chiado. E eu pensei: ‘Me equivoquei de filme, deve ser uma escola de burgueses’. Não sabia o que fazer. Fui ao fundo da sala e acendi a luz, voltei a meu lugar, sentei-me e os olhei pela primeira vez. E quando olhei, vi que estavam chorando. Fiquei completamente desconcertado. Choraram uns três minutos, não podiam falar. Depois que se recompuseram, começaram a fazer perguntas do que havia ocorrido e me disseram que nem os pais, nem os professores, nem os amigos tinham lhes contado o que havia ocorrido. Eles se sentiam órfãos de informação.

Então, tomei esta ideia para fazer o filme. Pedi permissão a 40 colégios, mas só me autorizaram em seis. Diziam que não queriam que o filme passasse ali porque olhavam para o futuro, não queriam cutucar questões dolorosas, que o filme trazia um passado que não serviu para nada, que deveria ser esquecido. Isso disseram quase todos. Outros diziam que tinham de pedir permissão aos pais e responsáveis. Mas se já tinham mais de 18 anos, por que precisavam pedir permissão? Estive a ponto de abandonar a ideia porque ninguém dizia que sim.

Como o senhor viu o ato recente em homenagem a Pinochet?

Um desastre. Não apenas homenagearam a Pinochet como a Krassnoff Marchenko, um famoso torturador. É ridículo porque fizeram um pequeno ato em um teatro, que não estava cheio, e para um filme que é ruim. Na verdade não é um filme, são pedaços de vários filmes que eles reuniram. E inventaram um prêmio em Miami, que é mentira, não existe este festival.

O governo deveria havê-lo proibido ou ao menos dizer que era contrário. Mas não, optou por dizer que é partidário da liberdade de expressão, o que é um pretexto para não fazer nada. Foi lamentável. Para contrapor-se a este evento, na inauguração de nosso festival de cinema em Santiago exibimos um filme contra Pinochet, o que agradou muito às pessoas, os jovens, sobretudo, porque puderam comparar aquele país pinochetista e o de hoje. E não se diferencia muito. A mesma polícia, a mesma Constituição que divide o país entre amigos e inimigos, que fomenta o ódio. O país não mudou tanto quanto deveria ter mudado. É uma classe política preguiçosa.

E os estudantes, andaram conhecendo bem esta Constituição?

Os estudantes são a grande alegria que podemos ter. É um grupo que não tem medo, é a quarta geração, está disposta a tudo, a lutar até o final. E não lutam apenas por educação, mas por melhor saúde, melhor habitação, melhor vida. É um movimento amplo. E são muito inteligentes. Os quatro líderes deram a volta ao mundo e têm melhores relações públicas que o governo.

Fonte: http://www.redebrasilatual.com.br/

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