Diretor da Rádio Habana Cuba adverte: “Meios de comunicação têm que ser propriedade social”.

Publicado em: 16/05/2017 às 09:59
Diretor da Rádio Habana Cuba adverte: “Meios de comunicação têm que ser propriedade social”.

Por Raquel Wandelli.

Além do sonho de ouvir música caribenha ao pôr do sol no Malecón, nossa viagem a Cuba no início deste ano foi motivada especialmente pelo desejo de conhecer de perto a imprensa em uma país não-capitalista. Por indicação do professor Nildo Ouriques, do Instituto de Estudos Latino-americanos (Iela-UFSC), eu e o jornalista Moacir Loth chegamos ao diretor efetivo da rádio Habana Cuba, Pedro Martinez Pírez. Prêmio José Martí pela obra e pela vida, diplomata, professor da Universidade de Havana e várias vezes deputado da Assembleia Nacional de Cuba, o jornalista falou sobre o papel da rádio que dirige no fortalecimento da cultura e da educação no país. Profissional experiente e erudito de rádio, televisão e imprensa, Pirez presentifica uma espécie de monumento humilde à seriedade e ao profissionalismo dedicados a uma política revolucionária de comunicação. Abordou com clareza e transparência o polêmico tema da liberdade de imprensa e falou sobre as Jornadas Bolivarianas, da qual participa pela terceira vez, nesta edição com a conferência Conferência “A Reforma de Córdoba nas raízes da educação cubana”, no dia 16 de maio, às 9 horas, no auditório da reitoria da UFSC.

Em seu escritório no prédio azul da Rádio Havana, precioso relicário de livros e documentos históricos das revoluções latino-americanas, disparei a questão clássica que angustia grande parte dos jornalistas sobre uma suposta contradição entre liberdade de imprensa e socialismo. – No Brasil, faz-se uma crítica generalizada à Cuba, alegando-se que o socialismo custou a liberdade de imprensa. O que você diria sobre essa objeção à revolução cubana?

Calmamente, sem alterar o tom de voz e sem deixar de fazer críticas pontuais à falta de criatividade e de investimento em reportagens mais densas em muitos veículos cubanos, o jornalista respondeu-me indiretamente à pergunta. Do alto de seus 80 anos, completados em fevereiro último, com a segurança de quem já atuou como jornalista no governo de Allende, no Chile, na antiga União Soviética e nas missões cubanas pela libertação de Angola e Luanda, Pirez deu uma aula sobre o tema, da qual extraio apenas um trecho:

– Acusam nosso país de não promover a liberdade de imprensa. Eu perguntaria, em que país a imprensa é livre? É possível haver uma imprensa livre quando ela está nas mãos de poucos grupos privados e a serviço dos interesses das grandes corporações? Em Cuba, a imprensa está a serviço da revolução, da defesa da soberania do país e dos ideais de cultura e educação que são massivamente reafirmados e legitimados nas ruas pela nossa gente, pelo nosso povo. Eu acredito que praticamos a liberdade de imprensa quando estamos expostos ao controle social, não subordinados ao controle econômico.

A resposta mostra que a ideia de liberdade de imprensa nunca estará livre do entendimento de jornalismo como um discurso político, resistente a toda forma de poder que não seja o público, exercido em nome dos diferentes coletivos políticos e sociais.

– Em Cuba, todos os meios são propriedade social e no capitalismo, todos são propriedade privada. E não pode haver autêntica liberdade de imprensa se os meios têm dono, a não ser que seja o povo. Mas em Cuba, como em qualquer país do mundo, só há liberdade porque os jovens, as mulheres, os trabalhadores, as minorias étnicas estão à frente dos principais meios de comunicação, como revistas, rádio, televisão. E sua mensagem é bem clara em defesa da identidade e da verdade e de nenhuma maneira submeter-se à pseudo-cultura disseminada pelos grandes países imperialistas, que mantêm cadeias tremendas para provocar golpes parlamentares, derrubar governo de países.

O radialista abordou ainda a questão do golpe midiático-parlamentar sofrido pelo Brasil. Mostrou confiança na superação do período de autoritarismo, mas apontou para a necessidade de formação de líderes jovens como saída para a afirmação de um espírito de resistência e de combate ao conservadorismo.

A programação das Jornadas Bolivarianas pode ser conferida no site: http://www.iela.ufsc.br/jornadas-boli…

Fonte: Raquel Wandelli. 

 

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