Dia dos pais

Por Fernando Evangelista.

Prepare-se: domingo é dia dos pais. Durante toda esta semana você será bombardeado com propagandas de cuecas, canetas, camionetes, furadeiras e espetos de churrasco.

Não importa se você tem ou não tem pai, se você é o próprio, se você não gosta de datas comemorativas, não há saída porque esses anúncios não faltam.

Não faltam também propagandas de bebidas alcoólicas, com mensagens estranhas e enigmáticas. Uma delas, em tom solene, adverte: “Este vinho é exclusivo para heróis, heróis como o seu pai”.

Não sei se isso funciona, não entendo de vinho e menos ainda de publicidade, mas considero arriscada a estratégia de venda. Além de excludente, ela abre polêmicas familiares perigosas. Afinal, o que é ser herói?

Quase todo filho nutre admiração pelo pai, apesar dos defeitos, dos silêncios recíprocos, dos diálogos interrompidos, do tempo não dispensado. Quase todo pai é o melhor do mundo, apesar de não o ser.

Isso não responde se você pode – obviamente supondo que seu velho ainda esteja neste mundo – comprar aquele vinho, exclusivo para heróis. Não sei de você, mas, para mim, herói é aquele que faz coisas incomuns, coisas boas que a grande maioria das pessoas não sabe ou não está disposta a fazer.

Nos dias de hoje, portanto, herói é ser sincero e generoso com os outros e consigo mesmo. É saber ouvir e ouvir sem julgar, respeitando as diferenças. É escolher o caminho que considera justo, mesmo que seja o mais longo e o mais espinhoso. É reconhecer quando se erra e rir dos próprios erros.

Ser herói é não perder o equilíbrio, apesar do chão escorregadio, das pressões e do barulho ao redor. É perceber que numa música pode estar escondido todo o mistério, por saber que o mistério se revela em qualquer lugar. É cultivar a simplicidade, apesar de algumas glórias e conquistas, por saber que glórias e conquistas são passageiras.

Ser herói é dividir tudo o que se tem e, muitas vezes, o que falta. É ter a porta da casa aberta para quem precisa e para quem não precisa, para os amigos e até para os desafetos. É não guardar ódios e saber conviver com as tristezas. É fazer o que se diz e dizer sem gritar porque todos o escutam e o respeitam.

Ser herói é permanecer menino, com o olhar curioso, encantado com a vida que sabe ser imprevisível, por isso fascinante. Ser herói é manter intacta a ternura, apesar dos pesares.

Sob esse aspecto, preciso confessar, meu pai – Francisco Xavier Medeiros Vieira – é um herói. Um herói de carne e osso, com alguns defeitos e sem poderes mágicos, mas um herói de verdade. Desapegado das coisas materiais e desses elogios virtuais, ele vai achar graça da crônica, mas vai aceitar o vinho.

Fernando Evangelista é jornalista.

Imagem: Francisco Xavier Medeiros Vieira, fotografado pelo autor.

 

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