Depois do caos. Por Guigo Ribeiro.

Foto: Claudia Weinman.

Por Guigo Ribeiro. para Desacato. info.

Depois do caos, abra bem as janelas. Puxe o ar e solte como respira bebê incomodado com a luz da sala de parto. Respira com gosto e direito porque você e eu e nós respiramos mal. Você tem plantas? Consiga algumas. Flores são ótimas. De tantas, mais uma vez foi explicitada nossa insignificância. O fragmento que somos diante de um mundo em mutação. O que surgiu lá do outro lado chegou aqui. Fechou escolas, interrompeu o espetáculo, cobriu a arte. Trouxe incertezas, tirou comida das mesas. E ficamos assim, sem chão e oração. Assim, de um jeito que qualquer oi poderia ser fatal. Falamos sem proximidade, sem toque. É… depois do caos, vamos tentar pensar melhor o mundo porque nem a imparável máquina do capital teve força suficiente para impedir as pessoas de uma estadia forçada em seus lares e canais liberados. Nem a voraz máquina do capital teve força para esconder o perigo.

O mundo lá fora explode no silêncio de um vírus em um beijo. O mundo estilhaça em um abraço. Ficamos entre o riso e o desespero diante de uma ameaça que não vemos. Ficamos sob as orientações de lideres que orientam como “fazer”. Ficamos com a perplexidade de um “presidente” com suspeita de contagio apertando mãos, talvez propagando a doença em um toque que vai muito além do desespero para mentir um tudo bem. Um toque que atesta mais uma vez (quantas mais serão necessárias?) seu profundo desprezo por quem deveria zelar. Não sei qual vírus apresenta maior letalidade. Se o que nos prende em casa ou o que nos prende à ignorância.

Para depois do caos, quem sabemos não nos convidemos para um almoço franco com nós mesmos sobre nossos próprios caminhos. Quem sabe não colocamos um chá para nós mesmos e algo bom para comer. Vai saber se essa conversa não significa um “pare um pouco”. Quem sabe não pensemos mais sobre a fragilidade de nossa própria rota e façamos novas escolhas. Quem sabe as pessoas não deixam de acreditar em Messias.

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Guigo Ribeiro é ator, músico e escritor, autor do livro “O Dia e o Dia Que o Mundo Acabou”, disponível em Edfross.

 

 

A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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