Depoimento de Gabriel Rosa, preso no ato contra a reforma do ensino médio

Foto: Priscilla Britto

Por Gabriel Rosa.

Primeiramente apresento-me: sou o fotógrafo preso no ato de ontem. Muita gente que me conhece sabe que uma de minhas maneiras de militar é utilizando minha arte com fotografia e poesia. E na noite de ontem, a qual achei que terminaria como todas as outras, onde eu chegaria em casa e postaria minhas fotos no evento do ato, eis o que aconteceu:

Eu estava na frente da faixa fotografando quando o ato começou a correr em direção às pontes. Para que pudesse capturar bons registros, obviamente também corri e consegui ficar entre a polícia e o ato, juntamente com outros fotógrafos. Em uma fração de segundos a polícia começou a jogar bombas de efeito moral e gás lacrimogênio em todos, atirando sem olhar para onde, pois várias caíram muito próximas dos carros parados. Depois de conseguir fazer algumas fotografias da polícia, comecei a andar em direção ao ato quando uma rajada de vento carregada de gás veio na direção do meu rosto. Comecei a tossir muito enquanto meus olhos e garganta começavam a arder. Para tentar aliviar um pouco, coloquei minha câmera no chão, peguei um lenço na mochila e comecei a amarrá-lo no rosto. Péssima escolha, pois com truculência senti a mão do policial me puxando pelo ombro, dizendo: “Leva esse aqui!”. Obviamente foram em vão minhas tentativas de argumentar, mostrando minha câmera e explicando que eu estava apenas fotografando. O que eu tinha a dizer não interessava. E a partir desse momento iniciou-se uma longa noite de medo, dúvidas, injustiças, mentiras e uma estranha sensação de estar em 1964. Depois de mostrar todos meus pertences, inclusive meu equipamento fotográfico, fui algemado na cadeira para que não fugisse. Confesso que nesta hora tudo passou pela minha cabeça, principalmente o fato de realmente não saber o que eu havia feito. Enquanto permaneci sozinho e tonto na delegacia, inúmeros policiais iam e vinham, mas vale ressaltar que apenas um deles – o único sem farda – tratou-me de maneira respeitosa e humana. O que deveria ser uma atitude de toda uma corporação, pareceu-me ser opção de um único indivíduo.

Algemado à cadeira, ali permaneci durante um bom tempo, alternando entre pequenas cochiladas que duravam segundos, pensamentos e medo. Eis que trouxeram a primeira menina detida para juntar-se a mim. Entre empurrões e xingamentos como “Seu lixo!”, sua mochila fora jogada ao chão e, assim como eu, ela começou a responder inúmeras perguntas. Perguntas que, obviamente, não importavam as respostas. Minutos depois trouxeram a segunda menina, esta bem mirrada, sendo carregada com truculência por policiais masculinos que deviam ter o dobro de seu tamanho. Enfim, para deleite fascista, ali encontravam-se três “lixos”.

Após sermos algemados com as mãos para trás, fomos encaminhados à delegacia da polícia civil. “As duas femininas na frente e o masculino na caixa.” E lá segui no camburão, sem saber qual “crime” havia cometido. Ao chegarmos, lá nos esperavam as advogadas Daniela Felix e Luzia Cabreira, pelas quais abro um parêntese para agradecer imensamente o que fizeram, de coração. Agradeço também a um terceiro advogado presente, um jornalista que cobria o ocorrido e ao vereador Lino Peres, que ali ficou durante algum tempo e nos trouxe comida. Durante um belo chá de cadeira, os policiais chegavam com pedras – uma lajota gigante, inclusive – e cones, que de acordo com eles, eram “provas” contra nós. Provas recolhidas a esmo, assim como nossas prisões; três pessoas presas aleatoriamente para representar tudo que seria cômodo às autoridades referente ao ato para justificar bombas, gás e repressão. Ali éramos bodes expiatórios. E provas concretas como videos e/ou fotos jamais chegaram.

Depois de uma longa noite vieram as acusações. As das meninas não consigo recordar direito, pois ainda estou meio tonto e de ressaca de tudo isso, mas eu fui acusado de lesão corporal e resistência à prisão, pois de acordo com as palavras da polícia, joguei uma pedra em um policial. Gostaria apenas de saber como eu estava jogando uma pedra, segurando uma faixa, amarrando um lenço e fotografando ao mesmo tempo. Talvez eu seja ninja e nem saiba. Mas de que vale coerência contra a “fé pública” das palavras da polícia? É “fé pública” versus verdade. E verdade nada vale em tempos de golpe.

Por fim, depois de depormos, veio a notícia de que eu seria liberado mediante pagamento de fiança mas as duas meninas ficariam presas. E ali fiquei dividido entre a tranquilidade de estar voltando para casa e uma total empatia com as duas, pois sabia que assim como eu, elas também não estavam entendendo que acusações eram aquelas. E isso deixou-me realmente triste, por elas e por isto estar acontecendo. Antes de ir dei um abraço em cada uma, torci para que ficasse tudo bem e senti que não estamos sozinhos nessa luta. Nunca vou esquecer do olhar delas para mim. Um olhar de medo, desesperança. Um olhar de tempos de golpe. Mas para alívio, acabo de saber que elas foram liberadas. Horas antes do ato fiquei sabendo que uma professora leu meu poema (são tempos de golpe) em sala de aula e o usou para inspirar os alunos à consciência política, os quais até mesmo o apaludiram. E é por retornos como este que minha luta não para, seja dando meu olhar artístico para registrar nossos atos, seja com uma poesia, seja inspirando alguém. Por mim, pela minha filha, por nós todos e por cada parcela de gente que ainda acredita em algo. Assim, cada um do seu jeito, escrevemos um pouco sobre estes tempos e fazemos história. São tempos de golpe e repressão. Mas também são tempos de luta. E a luta nunca para. Hoje, no trabalho, ainda sou obrigado a ouvir: “Quer ser comuna? Dá nisso.” Desculpem se nós, comunas, estamos tentando consertar o que vocês com sua cegueira batedora de panela e ignorância ideológica fizeram. Uma baita cagada, pois criaram um monstro. Um monstro nascido de um golpe. E amanhã vai ser maior. Fora Temer!

Fonte: Gabriel Rosa

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