Deméter tinha um vinil de Abbey Road. Crônica na Retrospectiva Semanal

Foto: Claudia Weinman.

Música: um remédio para alma?

Por Carlos Weinman, para Desacato. info.

O grande dia da cirurgia de Perséfone se aproximava, a casa de Deméter estava alegre, para o espanto de Inaiê, Roberto e Ulisses haviam achado no meio das coisas antigas de Deméter um vinil dos Beatles, era o álbum Abbey Road, naquele momento estavam ouvindo a música “Here Comes The Sun”(O sol está chegando), a menina, que havia sido liberada um dia antes, para voltar para casa e retornar posteriormente para a cirurgia, estava maravilhada com a música, com o ambiente alegre que havia surgido. Enquanto ouviam a música, Roberto estava preparando o jantar, que parecia ser muito delicioso, foi quanto Inaiê não se conteve e perguntou para Ulisses:

– O que vocês estão fazendo? Amanhã será um dia muito delicado e precisamos nos preparar para isso!

Ulisses – Quem disse que não estamos cientes da gravidade da situação e que não estamos nos preparando? Não podemos nos afogar na angústia da espera do resultado, temos que criar o melhor ambiente para nós e para Perséfone. É bom lembrar que não será mergulhando na tristeza e na angústia que vamos ajudar na recuperação da nossa sobrinha. Há necessidade de não apenas cuidar do corpo, mas também da alma. Você não acha?

Inaiê – Pensando dessa forma, você tem razão! Lembrei que o filósofo Aristóteles mencionou, em suas obras, que muitas vezes o espírito angustiado, triste, psicologicamente perturbado, pode ter consequências onerosas para a vida humana e a música pode melhorar, fazendo as pessoas se sentirem mais felizes ao ouvirem, mas isso dependendo da letra, do ritmo e da melodia. Dessa forma, poderíamos dizer que a música pode se constituir em um remédio para a alma, estabelecendo um importante equilíbrio entre o espírito e o corpo.

Ulisses – Exatamente! Aristóteles fez várias reflexões sobre o papel da música, principalmente no que corresponde a educação. No seu livro intitulado “A política”, o filósofo não percebe a música como uma necessidade biológica ou técnica para a produção, mas considerava como uma das coisas humanas mais agradáveis e não deveria estar ausente da vida dos jovens, das pessoas em geral. Ele chegou a discutir sobre como ela poderia ser percebida, isto é, como divertimento, lazer, um meio de educação ou até mesmo um jogo. Segundo o filósofo, a música deve divertir, ter beleza e produzir prazer. Contudo, o que mais deve ser considerado é o seu efeito sobre a alma, sobre os costumes, sua contribuição para a formação do caráter, pois é uma imitação das emoções e das paixões, tem o potencial de ser uma forma de ocupar horas nobres de prazer. Aristóteles chegou afirmar que as músicas podem versar sobre a constituição do éthos, da ética, despertar o entusiasmo, inspirar e ainda, exercer uma função de purificação.

Inaiê – Nossa!!! Não sei como, mas Aristóteles continua trazendo tanta coisa interessante para os nossos tempos, para nossas vidas!!! No contexto que estamos vivendo precisamos mais do que nunca despertar o entusiasmo para enfrentar o que virá, mas acredito que tudo irá ocorrer bem. A música que vocês colocaram é muito pertinente, observei que a letra traz desde o início a ideia  que o sol está chegando, no sentido que um novo dia está surgindo, depois do inverno, do frio, das dificuldades e que tudo irá brilhar novamente, que bom meu irmão que vocês pensaram nisso! Eu estava recriminando, enquanto estavam apenas trazendo o sol, o brilho, a inspiração para viver, ou como diria Espinosa, fortalecer o conatus, a vontade de querer viver para nossa sobrinha e a vontade de lutar para todos nós!!!

Ulisses – Além da letra é muito interessante considerar a combinação, a melodia, o ritmo, o que leva a uma questão filosófica, o que é uma boa música? Ou ainda, quais músicas você ouve? Quais são seus critérios na escolha?

Roberto – Vou me intrometer na conversa de vocês! Não resisti e ouvi as discussões. Diante dessas suas questões Ulisses, será que a música não virou apenas uma mercadoria? Talvez, tenhamos deixado de pensar sobre o seu papel para formação dos nossos filhos, das crianças, dos jovens e de nossas vidas. Além disso, quem sabe ouvimos pelo motivo dos outros estarem ouvindo. No entanto, considerando um aspecto, que talvez seja questionável, poderíamos dizer que, uma parte, sobre quem somos está ligado com o que ouvimos e como ouvimos?

Deméter – Caramba essas questões podem servir para uma tese! Roberto, se considerarmos o que está dizendo, temos uma boa discussão, com vários pensadores, lembro de alguns da escola de Frankfurt, onde a música passa ser uma mercadoria para venda. No entanto, trago a questão: é possível constituir uma forma de arte que não se reduz ao mercado? Ou então, existe a possibilidade de fazer da música uma forma de representação de nossa gente, do mundo social que estamos inseridos?

Inaiê- Mas de alguma forma ela não representa o mundo social em que vivemos?

Deméter – Sim, mas quero dizer não apenas atrelada ao universo das relações de troca, com conteúdo mais significativo.

Inaiê – Acredito que é possível, para tanto temos que pensar nas discussões que o Aristóteles dizia sobre a letra, o ritmo e a melodia. Além disso, teríamos que trazer a musicalidade para nosso contexto, para nossas raízes.

Ulisses- Porém, temos um problema! Visto que quem se dedica a arte, a música deve ser valorizado, se estamos em uma relação de mercado, a forma de pagamento ocorre pelo dinheiro, do contrário o artista deixa de existir e por tabela a sua música tem um preço!

Roberto – Discordo nesse ponto! Podemos estar em uma economia de mercado e buscar deixar de reduzir tudo a uma mera mercadoria. Contudo, precisamos considerar a arte, a música como uma forma de expressão nossa, cujo valor supere as relações comerciais e, por consequência, o artista passaria ser valorizado.

Ulisses – Agora, se você considerar isso, dado o fato que grande parte das pessoas apenas sobrevivem, trabalham sem realização, esquecem da sua memória, da sua história, como poderão experimentar a arte se for no contexto da simplificação do mercado?

Inaiê – Lembrei que Aristóteles dizia que somente depois de satisfeitas as necessidades básicas, para sobrevivência é que seria possível filosofar, as pessoas com fome ou com necessidade não pensam. Poderíamos dizer que o mesmo princípio vale para música e para arte em geral!

Deméter – Sim, mas se aprendermos apenas experimentar as coisas que são dadas nas relações de mercado, mesmo tendo todas as necessidades supridas, não teríamos a tendência, de continuar a ouvir e consumir as coisas de acordo com essa lógica?

Roberto – Faz sentido! Então, como fazer da música algo mais que uma mera mercadoria?

Ulisses- Resolver essa questão é difícil! Vou buscar ensaiar uma resposta, pois me incomoda esse reducionismo! Acredito que aqui é interessante trazer  alguma coisa de Aristóteles, podemos pensar a música e a arte em geral como uma forma que deva estar presente na educação, na vida das pessoas, para educar o éthos, purificar e animar alma, isto é, a música se constitui em uma forma que pode educar ou inspirar para algo melhor do que simplesmente está posto. Para tanto, não podemos simplesmente deixar a música e arte fora da educação de nossas crianças, do contrário serão as relações externas e meramente de mercado que determinaram a percepção estética, transformando nossos jovens  em reprodutores de uma lógica perversa, onde a música, não é sentida através do ritmo, da letra, da melodia, apenas sobre o princípio da venda, da mera reprodução.

Logo após a fala de Ulisses, todos começaram a cantar a música “Here Comes The Sun”, depois que terminaram riram bastante até que Deméter falou para todos:

– Amanhã é um grande dia, juntos superamos muitas dificuldades, todos ajudaram a superar o frio do inverno, a escuridão, as adversidades, vocês nos ajudaram, amanhã o sol estará chegando, um novo dia de muitos que Perséfone experimentará comigo e com todos vocês, mas agora é a hora de descansar nossos espíritos.

O brilho do olhar de Perséfone lembrava a beleza estética da arte da vida e da música entrelaçada com a esperança do de vir, já não tinha mais medo do futuro, sua alma estava tranquila, cheia de vida e vigor, a música e a conversa descontraída com seus familiares havia purificado seu espírito, a preocupação dera espaço para os sentimentos próprios da infância.

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Carlos Weinman é graduado em Filosofia pela Universidade do Oeste de Santa Catarina (2000) com direito ao magistério em sociologia e mestrado em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (2003), pós-graduado Lato Sensu em Gestão da Comunicação pela universidade do Oeste de Santa Catarina. Atualmente é professor da Universidade do Oeste de Santa Catarina. Tem experiência na área de Filosofia e Sociologia com ênfase em Ética, atuando principalmente nos seguintes temas: Estado, política, cidadania, ética, moralidade, religião e direito, moralidade e liberdade.

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