De pegada em pegada, o canibal de garfo e faca devora a própria Mãe Natureza

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Por Elissandro dos Santos Santana, Porto Seguro, para Desacato.info.

As pegadas ecológicas oriundas dos modelos de produção humana sobre a Terra extrapolaram todos os limites possíveis de recuperação biológica no planeta. Para manter o hodierno padrão de consumo, o ser humano, através de seus sistemas de produzir,modelos alicerçados no capitalismo que a tudo destrói, em nome do lucro, levou Pachamama a viver a crédito. No ritmo atual, com o esgotamento da poupança biológica geradora do capital natural, esfacelou-se a resiliência dos ecossistemas e,com tais interferências, o homo economicus inaugurou o antropoceno.

Ambientalistas ecologistas, alguns cientistas ambientais e estudiosos em geral que discutem as questões ecológicas já afirmam que, diante da cultura do consumo e dos parâmetros equivocados de “desenvolvimento” que adotamos, são e serão necessários bem mais que um planeta para suprir os sonhos de consumo dos canibais com garfo e faca em um mundo de recursos finitos.

Essa cultura do consumo é antiga, mas foi a partir da produção em série de bens e serviços proporcionada pela Primeira Revolução Industrial até chegar à Revolução Tecnológica na qual nos encontramos que as sociedades ocidentais e até alguns países do mundo orientalcolocaram em prática ações que ultrapassam o campo do viver bem e alcançam o desejo do viver melhor. O problema é que no viver melhor reside algo egoísta, pois viver melhor implicaem que alguém não viverá tão bem quanto você e isso se configura, em latência, como tacanho, no mais profundo grau.

Esse egoísmo possui muitas explicações e, dentre elas, a principal está o sentimento de consumo como mecanismo de posse para se chegar ao poder. No mundo hodierno, poder aquisitivo transformou-se na mola do “progresso” e, por isso, em países essencialmente dominados por governos neoliberais, o poder de compra revela a casta à qual pertence o indivíduo social.

Para seguir a discussão, é importante pontuar que no reino do consumo, vende-se tudo, desde a promessa do paraíso nos templos de adoração ao divino que ofertam a promessa do paraíso na fartura, das bênçãos financeiras, do imaginário calvinista de que quanto mais se tem, mais próximo se está do “divino”, colocam no mercado o “amor”, as amizades, enfim, vende-se da vida à morte. Para os que ainda estão sob a égide da inocência de que não se lucra com a morte, basta observar as empresas funerárias que se proliferam por todas as cidades do Brasil e do mundo para se compreender que no mundo capital vive-se de morte e morre-se de vida[1].

Nesse vive-se de morte e morre-se de vida estão as sociedadesda decepção e do vazio e, em meio a tudo isso, as projeções fantasmagóricas daquilo que se conhece como sonho se resumem à posse como realização pessoal e mecanismo de afugentar os fantasmas da consciência de que a vida é curta e, por isso, é preciso torná-la prazerosa até o limite do impossível, por meio do comprar, do acumular, do bel-prazer do consumo. Nessa parafernália do consumir, o ser humano se autodestrói, pois, na destruição do Planeta, depreda o próprio oikos (lar). Dois livros importantes que trazem luz à problemática do consumo, da decepção e do vazio são “A sociedade da decepção” e “A era do vazio”, de Gilles Lipovetsky (minhas sugestões de leitura para quem se interessa por este tema).

Para quem ainda não compreendeu a diferença entre viver bem e viver melhor, sugiro que coloque a curiosidade em ação e comece a se informar para além da mídia comercial e tradicional alienadora da vida no Brasil e no mundo. Uma dica de leitura que forneço para a intelecção destes conceitos, que, semântico-semiótico-semiologicamente, até parecem sinônimos, mas que, em uma análise mais aprofundada, se revelam bastante diferentes, é o “VivirBien”, documento elaborado pelo Ministério das Relações Exteriores da Bolívia do Governo de Evo Morales.

Para começar a discussão acerca dos dois vocábulos, não apresentarei conceitos, pois deixarei a cargo do leitor a ampliação de sentidos por meio da referência que sugeri, mas, de imediato, externo, para fins de algum entendimento sobre a questão, que a perspectiva do viver melhor é uma vertente discursivo-prático-axiológica presente nos imaginários do capitalismo que naturaliza a noção de que a partir do liberalismo ou, em correntes mais atuais, como o neoliberalismo, o ser humano pode sempre ter mais e, portanto, sempre poderá acumular mais, sobrepujando o outro. A lavagem cerebral funciona de forma tão eficiente que quem está sob o domínio do capital o deseja profundamente e renega o socialismo, demonizando-o de forma absoluta. Essa demonização se materializa, no Brasil, de diversas formas, mas a mais evidente aparece no discurso dos cooptados pelo capitalismo em gritos como “Vai pra Cuba”, “O Brasil não vai se tornar uma Venezuela” e em outras construções, pois nesses aportes estão marcas da possibilidade de um viver bem, de uma visão de partilha, filosofia incompatível com o sonho do viver melhor que o outro.

No sistema capitalista, os discursos passam por lavagens para se tornarem éticos e, com isso, os acumuladores ou senhores do capital tentam vender a ideia de que conseguiram a fortuna com honestidade. Implantam a discursiva da meritocracia e, assim, cristalizam os sentidos e status quo dos seres privilegiados. Claro que esse discurso só é comprado por aqueles que têm sede de poder, pois quem é honesto intelectualmente sabe que ao longo de todo processo de enriquecimento, ainda que a exploração do outro não seja visível, ela ocorre, pois, por trás de toda acumulação de poder e de riqueza, há sempre explorados. Toda a noção de capitalismo ético, na verdade, não passa de um greenwashing para marketing, propulsão e manutenção do modelo.

 No viver bem, experiência bastante difundida no governo socialista ecológico de Evo Morales e em outras poucas experiências políticas no mundo, como em Cuba e em Butão, está o respeito à mãe terra, pois as sociedades do viver bem adotam a concepção de que a felicidade, a alegria, o afeto, o alimento de cada dia, uma casa habitável e as condições necessárias à vida são o suficiente para seguir em frente. Essa filosofia é negada em muitas partes do globo, pois desponta como contra-capitalismo.

Mas, retomando a questão específica das pegadas ecológicas originadas pelo design insustentável de relação das sociedades capitalistas com a Terra, menciono que pagaremos o preço pela hipoteca ambiental do planeta. Como todo viver a crédito implica juros, vale dizer que elesserão cobrados logo, logo. Com relação às pegadas, estas só tendem a aumentar, dado que as estimativas de crescimento da população já demonstram que, dentro de duas ou três décadas,ou seja, até o ano 2050, atingiremos a marca dos 9 bilhões de pessoas.

Com mais pessoas, mais consumo e, consequentemente, mais demandas por recursos naturais. Com nosso capital biológico esgotado, retornaremos, sem dúvida, à barbárie. O triste nisso tudo é que todos nós temos consciência disso, mesmo aqueles que estão mergulhados em arcabouçosalienatórios, mas, mesmo cônscios, nada fazemos e sempre que aparece alguém que ousa dizer verdades dolorosas sobre o neoliberalismo privatizador da existência, logo é taxado de comunista, louco ou, pior, por outros adjetivos bem mais depreciativos.Os que enfrentam o modelo são silenciados, pois quem sai da padronização capital se mostra uma afronta ao paradigma de sustentação das benesses dos sonhos de poder do capitalismo para poucos, ou seja, para aqueles que explorarão as massas, massas essas que, também, não estão imunes aos sonhos ególatras de um dia ocuparem posições de comando e domínio, já que essa é uma marca do ser humano desde as primeiras civilizações e o capitalismo oferece, pelo menos, no discurso, essa possibilidade.

Escatológica a minha reflexão? Divagações de um eco chato? O tempo, senhor dos destinos, nos dirá.

[1] O “vive-se de morte e morre-se de vida” que aparece em negrito no corpus do texto é um termo que usei a partir de um livro de Edgar Morin, para fins de ampliar a discussão.

Imagem: Linkedin.

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