De conservadora evangélica a feminista, o desabafo de Patrícia Lélis

Jovem que denunciou o pastor Marco Feliciano por abuso sexual publica desabafo: "Até o ano passado eu defendia a direita, frequentava igreja evangélica e condenava o feminismo. Você deve estar se perguntando o que me levou a ser contra algo que só luta por igualdade. Vamos lá, vou te explicar [...]"

De conservadora evangélica a feminista, o desabafo de Patrícia Lélis

Por Patrícia Lélis.

Acredito que boa parte das pessoas “me conhecem” pelo que a mídia falou ao meu respeito, e não existe ninguém melhor do que eu para dizer quem eu sou, e afirmo: Não sou nada do que uma mídia machista diz que eu sou.

Então permita-me me apresentar: Prazer, meu nome é Patrícia Lélis, sou uma mulher, nasci em Brasília, sou aquariana, cresci em uma família de classe média alta, evangélica. Até o mês de agosto de 2016 eu era uma mulher que defendia a direita-política, frequentava igreja evangélica, e sim, eu era totalmente contra o feminismo. Você deve estar se perguntando o motivo que me levou a ser contra algo que só luta por igualdade e nada mais, então vamos lá, eu vou te explicar:

Várias mulheres que nasceram em um ambiente cristão-evangélico, como eu, cresceram escutando que a “mulher deve ser submissa ao seu marido”. Tudo bem que eu nunca fui casada, mas tal passagem bíblica que é usada de forma tão distorcida dentro das igrejas também se aplica a mulheres solteiras. Ou seja: mesmo se a mulher é solteira, ela deveria ser submissa a algum homem, seja ele o pai, irmão, namorado ou até mesmo o pastor da sua igreja.

Como boa aquariana eu sempre fui “da pá virada” em palavras bonitas, sempre fui muito questionadora. Lembro-me com muita clareza a primeira vez que fui apresentada a palavra “feminismo”. Foi em uma aula de história, na terceira série, quando eu estudava no colégio Adventista de Brasília. Me lembro de chegar em casa e perguntar a minha mãe o que era feminismo, e minha mãe não fazia a menor ideia do que seria isso. Eu era uma criança, esqueci da tal palavra sem o menor significado até então, e continuei a minha vida.

Os anos se passaram, e eu e minha família frequentávamos a Igreja Batista Ebenezer, que por sua vez é uma grande igreja aqui em Brasília. Mal sabia eu que aquele lugar que era para ser um local de paz, amor e comunhão, seria um show de pensamentos retrógrados que hoje eu tenho a percepção do quanto minimizam a mulher. Dentro dessa igreja, por diversas vezes, já mocinha, escutei, e aprendi que a mulher tem um papel diferente do homem na sociedade, e que papel seria esse? O de ser submissa a tudo que lhe é imposto. E que feminismo não é coisa de Deus, infelizmente o feminismo chega a ser tratado como pecado em diversas igrejas.

Eu mentiria se falasse que era a adolescente quietinha e comportada da igreja, muito pelo contrário, sempre fui chamada de “rebelde” por várias “tias” da salinha, mas duas dessas mulheres marcaram a minha vida: Carla e Leila. Para essas duas eu sempre estava errada em tudo. Minhas roupas mostravam muito meu corpo, meu cabelo era grande demais, se cortava era curto demais, se eu pintava meus cabelos, não podia, pois, era muito nova para isso, se eu fazia parte do grupo de dança, pediam a minha mãe que me retirasse, pois segundo elas eu era “sensual demais”, lembrando que eu era apenas uma criança na época. Se eu andasse com o meu amigo, era motivo de chamar meus pais para uma conversa, pois meninas comportadas não andavam com meninos homens, isso era sinal de vulgaridade. Tudo era motivo para uma conversa com minha mãe, e em tudo eu sempre estava errada, mesmo sem a menor intenção de causar ou provocar algo.

Perco as contas das inúmeras vezes que eu chorei por não ser aceita como eu era, então comecei a me moldar, passei a ser como “uma mulher da igreja deveria ser”, e admito que deu certo. Em pouco tempo tudo foi se virando ao meu favor. Mudei minha forma de falar, de andar, as roupas que usava e que favoreciam meu corpo foram trocadas por modelos mais soltinhos que não marcavam tanto, a cor do meu batom e esmalte não era mais em tons fortes, e vejam só, de uma menina “rebelde”, fui crescendo como uma linda mulher segundo a visão da igreja. Aos poucos quem convivia comigo dentro da igreja, amava minha simpatia, minha boa forma de fala, e a maneira (opressiva) como eu gravava vídeos defendo a igreja e as escrituras bíblicas. Aos poucos percebi que eu era o modelo perfeito de mulher, segundo os homens da igreja, e principalmente os filhos de pastores, que em sua maioria prezam tanto por aparências.

Você deve estar se perguntando se eu era feliz dessa forma, e a verdade é que eu queria tanto que as pessoas da igreja pareassem de me julgar e de me apontar como uma mulher rebelde, que troquei a minha felicidade, e a minha personalidade forte, por uma apagadinha, apenas para não ser julgada por pessoas que hoje eu entendo que em sua maioria julgam tanto, por serem alienadas religiosas e principalmente por não conseguirem conviver com as diferenças não tinham nada a ver com a minha vida. A verdade é que quando paro para pensar que eu vivi 22 anos da minha vida acreditando que feminismo, segundo a igreja, é algo pecaminoso e sempre é relacionado a “coisa de mulher vulgar”, é de profunda tristeza.

Eu vivi por 22 anos acreditando que feminismo era coisa de bruxa, de mulher vulgar, pois mal sabia eu, que mesmo sem saber já era feminista. Hoje acredito que nasci feminista, só não podia aceitar isso. Eu acredito que sempre fui feminista quando começo a pensar que nenhum relacionamento meu com homem religioso deu certo, porque quando ele me mandava “ficar calada” já era motivo para que eu começasse um discursão, pois eu nunca aceitei que ninguém tirasse meu direito a fala. Ou se não quando um namorado que se achava meu dono me mandava trocar uma roupa por estar muito justa ou tirar um batom por estar muito forte, e eu acabava cedendo as ordens dele, mas sempre questionando e de cara fechada.

Paro para pensar nas inúmeras vezes que escutei que já estava na hora de casar, pois eu estava ficando velha, e tinha que parar com essa mania de querer estudar e me preocupar com quem eu iria formar uma família, afinal homem não gosta de mulher velha, e muito menos de mulher metida a inteligente. Me falavam isso, logo para a mulher que é formada em jornalismo e cursa sua segunda graduação e sonha em chegar em um doutorado.

Posso afirmar que o feminismo é uma descoberta diária, é todos os dias viver a Alegoria da Caverna, escrita por Platão. Feminismo para mim tem sido todos os dias sair de uma caverna escura, e descobrir um mundo reluzente, mas que ainda estar vivendo uma guerra diária contra o ódio à mulher. Feminismo para mim tem sido entender que eu posso, e devo denunciar um famoso pastor por abuso e agressão. Queria eu saber e entender tudo isso muito antes, só eu sei o que foi passar dois meses da minha preciosa vida dentro de casa, com medo e vergonha, acreditando que eu fosse a culpada por um abuso e agressão que foram cometidos contra mim, onde eu fui a vítima.

Feminismo está longe de ser coisa de mulher vulgar, baixa, ou coisa de bruxa. Eu concordo que não sou a pessoa mais experiente quando o assunto é feminismo pois ainda sou iniciante, mas se tem uma coisa dentre as quais eu tenho certeza sobre o feminismo é que a luta é contra a desigualdade, o patriarcado, contra a opressividade que é imposto a mulher. E o que mais me impressiona é o quanto a sociedade machista tem a necessidade de ver uma mulher que sofreu qualquer tipo de abuso se diminuir. Ai da mulher que foi abusada conseguir dá a volta por cima, vão dizer que tudo que ela viveu é mentira, ela não tem o direito de estar bem.

O feminismo não quer superioridade, apenas igualdade. Minha maior preocupação e luta se tornou sobre as mulheres que ainda vivem em um meio tão machista quanto o religioso, e sofrem abusos caladas, pois “não se pode tocar em um ungido de Deus”. Eu lembro com muita tristeza no coração, quando um pastor que sabia de tudo que eu sofri, me disse para jamais denunciar pois isso iria escandalizar a igreja. Até quando vão preferir o sofrimento de uma mulher?

Nós mulheres não podemos odiar o feminismo, pois quando tomamos tal atitude, além de estarmos abrindo mão dos nossos próprios direitos, deixamos um espaço aberto para que o machismo tome conta do espaço, e com isso somos diminuídas. Quando as próprias mulheres começarem a entender que toda mulher por mais que odeie o feminismo é feminista, e que nós precisamos sim do feminismo em meio a uma sociedade machista, estaremos mostrando ao mundo, que sim, merecemos direitos iguais e respeito.

Espero muito que as mulheres um dia parem de se tratar como inimigas e entendam que juntas somos mais fortes. E que principalmente as mulheres religiosas comecem a se questionar se são realmente felizes com a forma que vive, com um homem impondo a elas quem elas devem ser. Acredito eu que Deus não é um cara religioso, e vou mais além: Deus com certeza é feminista e ama as mulheres.

Fonte: Pragmatismo Político

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