Das culturas da corrupção: bonificações e patrimonialismo

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Por Fátima Oliveira.

Certa noite, pensando sobre a cultura de levar vantagem pecuniária, seja em empresa privada ou no serviço público (patrimonialismo), para acumular patrimônio pessoal, veio a minha memória a primeira vez em que ouvi pausadamente: “Se pensas em ficar rica de consultinha em consultinha, podes tirar o cavalinho da chuva”.

Nunca disse a ninguém que aspirava à riqueza, muito menos ao meu marido, a quem respondi: “Em nossa casa, a única pessoa que sei que quer enriquecer és tu. Só quero ter uma vida decente e confortável, resultante do meu trabalho”. Ele não enriqueceu, morreu antes, de uma queda de cavalo!

Era 1979. Naquele dia, recebi a quarta visita de cortesia e boas-vindas de dono de laboratório de análises clínicas. As visitas objetivaram apresentar o negócio; doar blocos de solicitação de exames com a grife do laboratório; e dizer que eu teria “direito” a 10% mensais de todos os exames solicitados realizados no laboratório! Foram abordagens imorais. Se os três primeiros contaram com o fator surpresa e ouviram um “não” educado, o último pagou por todos: “levou um sabão”, mas ouvi: “Dinheiro no bolso é bom, viu, doutora?”. Eu estava indo contra uma norma estabelecida no mercado.

Houve casos de tentativas de suborno da indústria farmacêutica e de extorsão dos chefões do Inamps aboletados em São Luís – que exigiam altíssimo pedágio para manter o credenciamento ou adotavam a prática de auditoria na empresa como rotina, quando fui diretora do Hospital São Raimundo, do qual fui sócia, à época o maior hospital do interior do Maranhão, em Imperatriz, com 120 leitos credenciados pelo antigo INPS. O Funrural também atendia a população indígena; com o INPS, era tido como a “lepra” da atenção à saúde, pois ambos pagavam com uma verba fixa mensal. O Inamps pagava por Autorização de Internação Hospitalar (AIH), um cheque em branco no qual cabia tudo, cujo único limite era os dias de internação, definidos segundo a doença!

Duvido que algum hospital no Maranhão tenha sido mais “auditado” do que o São Raimundo! Era tudo tão naturalizado que, às vezes, me pego pensando em como é difícil para quem tem caráter passar por tantas travessias e não cair nas pinguelas da corrupção. Gosto muito de mim por ser tão nova à época – fui diretora do São Raimundo aos 28 anos, lá fiquei uns cinco anos – e ter tido coragem de dizer “não” ao dinheiro que não era fruto do meu trabalho.

Do fornecedor de gêneros alimentícios aos dos remédios, perguntavam quem receberia os 10% ou 15% do total da compra, que davam em cheque, na hora! A indústria farmacêutica chamava a indecência de “bonificação”. Eu respondia igualmente: “A Aquino & Noleto (nome legal do Hospital São Raimundo), passe-me o cheque nominal à empresa”. Era um espanto que silenciava o interlocutor, pois era uma recusa a muito dinheiro.

Mas o ser humano é criativo, para o bem e para o mal. Acabei descobrindo que o administrador do hospital “ganhava o dele” para garantir a minha fidelização nas compras! Foi demitido sumariamente, mesmo sendo marido de uma de minhas sócias.

Avalio que, sem combate às culturas de bonificações e patrimonialismo, a corrupção levará vantagem sempre.

Fonte: Geledés

 

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