Da mística ao mito

Imagem: Pixabay.

Por Dinovaldo Gilioli, escritor e poeta, para Desacato. info.

Nunca na história do Brasil um presidente foi eleito usando em demasia a mística religiosa, utilizando até a exaustão um discurso moralista que proclamava os “homens de bem deste país”. Esse engodo, aliado à demonização da esquerda, ao exorcismo do PT; entre outras questões, com o apoio da direita, da grande mídia, da classe dominante incrustada em todos os poderes da nossa frágil República, ajudou elevar um dos políticos mais medíocres à principal mandatário do Brasil.

E, agora José? O que fazer com esse rabo de foguete? Se parte da esquerda, abatida pela derrota eleitoral, ainda tateia, imagine a direita conservadora que viu em Jair Messias Bolsonaro a possibilidade de voltar ao poder e continuar comendo bem e pelas beiradas. E, agora José? De um lado os civis mais retrógrados; de outro, os militares mais reacionários. Quem levará esta?

Sim, porque parte do povo, embora cansado, desanimado, não desistiu de caminhar. Não é pouca coisa, ainda que insuficiente, ver milhares nas ruas, ouvir o grito – ainda que tímido, de uma nação que não tolera mais os algozes de ontem e de hoje. Sim, porque àqueles que apoiaram explicitamente ou por debaixo dos panos a ascensão da intolerância, do atraso, agora torcem o nariz e fazem de conta que também estão preocupados com os rumos do país.

Que nada, interesses intraburgueses não estão sendo atendidos por Bolsonaro. Daí parte da rica elite tenta fazer coro com o povo, como se estivesse do mesmo lado. Lembram do fora Collor? A história parece se repetir. Não nos iludamos, o povo só conta com o povo! O que quero dizer com isto, que a luta não vale a pena? Que voltar às ruas não vai adiantar?

Mil vezes é preciso repetir o que disse o poeta Fernando Pessoa: “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Ou seja, se estamos verdadeiramente imbuídos de um sentimento de solidariedade, de senso crítico, de um amor transformador não há o que temer. Mas, alerto, dar as mãos uns aos outros não será suficiente, é necessário estarmos irmanados numa perspectiva visionária: a de que é possível, de fato, mudar os rumos do Brasil em benefício de seu povo!

Não sei se é chegada a hora, se vamos conseguir. A única certeza é que as reais mudanças que o Brasil precisa não acontecerão por um suposto mito. Rumo a greve geral, caminhemos. Mesmo que, ainda, não vislumbremos a triunfal chegada!

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