Da confusão, à desorientação, ao delírio, à letargia, ao torpor e ao coma: o retrato do Brasil ensandecido

O bom em meio a tudo o que estamos vivendo, se é que é possível tirar algo de bom disso, é que, diferente dos que estão do outro lado, nós não entramos em coma, pois ainda sentimos a nossa própria dor e, mais importante do que isso, a dor do outro, e aí está o remédio para que saiamos desse estado de imobilidade no qual estamos afundados, a capacidade de sofrermos por nós e pelos outros.

 

Foto: Pixabay

Por Elissandro Santana, para Desacato.info.

Na era do vazio, da estupidez e da decepção, diante da impossibilidade de arrancarmos alegria ou esperança no futuro, dependendo de quem sejamos ou de como encaramos a vida, em muitas ocasiões, só conseguimos enxergar dois caminhos, o do enfrentamento às adversidades ou, vencidos, ou quase, o da entrega ao torpor, podendo atingir o coma.

Para aqueles/as que ainda não conhecem o que vem a ser Torpor, que, aqui, apresentarei em uma perspectiva biológico-político-mental, não tem problema. Explico. É um vocábulo classificado como substantivo masculino que significa sentimento de mal-estar, um quadro caracterizado pelo decréscimo da sensibilidade e da capacidade de movimento que, por isso, induz ao entorpecimento, ao estupor e à insensibilidade. Metaforicamente, pode significar indiferença ou, dito de outro modo, apatia moral, uma situação que desencadeia um retrato latente de indolência e nos conduz à prostração, impedindo-nos de agir, de encontrarmos soluções, alternativas e saídas.

Para alargar o conceito e aprofundar noções sobre o Torpor, direciono-me para além de Metáforas ou de Denotações no campo da linguagem, valendo-me da Biologia e da Ecologia, a partir de ideias como a do cientista Eduardo Bessa e de outros teóricos, de que quando o ambiente/natureza/espaço impõe condições exacerbadas e difíceis à vida, uma opção para muitos animais (e, também, para as plantas) é a de abrir mão da vida, não no sentido de se deixar, ou de se fazer morrer, mas de abdicar dos processos vitais, temporariamente, enquanto a sobrevivência for complicada, impossível em plenitude, desta forma, reduzindo drasticamente seus metabolismos, o consumo de nutrientes, oxigênio e água, paralisando o crescimento e o investimento reprodutivo, ficando ali esperando as coisas melhorarem para retomarem tudo depois, após a dormência.

Saindo da biologia e entrando no campo da sociedade (humana), indultem-me a redundância necessária, mesmo sem ser psicólogo, terapeuta ou psiquiatra, a partir de tudo o que já li e aprendi, percebo que o quadro de torpor é só um dos estágios ou etapas em que a consciência, em nosso caso, coletivo-política, encontra-se alterada. Anterior ao torpor, temos a confusão da consciência e esta se configura como aquela etapa em que há a ausência de pensamentos lógico-sensatos que dificultam nossa tomada de decisões, de ações, de atitudes; em seguida, surge a desorientação mental e é nesta fase em que se origina a incapacidade do sujeito para compreender como se relacionar com tudo o que o cerca e limita. Daí em diante, tudo pode descambar em perda ou confusão de memória, com a desorganização da cognição; adiante, surge o delírio, etapa na qual a pessoa perde o contato com a realidade por meio da alteração da percepção que começa a sofrer; depois, surge uma letargia, período em que já não respondemos a estímulos e não conseguimos ir à luta, pelo menos, não à luta justa e necessária, aquela que toda a nação, sem cisão, deveria travar; só após todas estas etapas vem o torpor, estádio em que o único sentimento que prevalece é a dor. Por último, temos o coma, quadro em que já não respondemos, absolutamente, a nenhum estímulo, e desse estado é quase impossível acordar, sair. Nesta etapa, algo é muito importante, o tempo de duração do quadro, pois se o indivíduo permanecer por muito tempo desligado, mergulhará em um estado vegetativo do qual, provavelmente, jamais sairá ou acordará.

Metáforas à parte, assim se encontra a sociedade brasileira atual, tanto do lado de lá, dos sequazes que sustentam supostos milicianos no poder (em especial, o ser desconexo e dadá discursivo que ocupa a maior cadeira do executivo), como do lado de cá, dos que não toleram injustiças e lutam por um país melhor para todos/as.

Do lado de lá, muitos já se encontram na fase de coma, estado do qual, poucos conseguirão sair, já que esta etapa demanda o exercício total da inteligibilidade e, consequentemente, da razoabilidade, exercício quase impossível para estas alminhas lotadas de ódio e de repúdio à pluralidade da existência. Os paneleiros de verde-amarelo, repetidores e propagadores de fake news, começaram desorientados, sem entender, ou não querendo entender, as consequências da pandemia pela covid-19 e, por dificuldade mental, seguem vociferando o ódio pelas vielas de dor e de morte neste país sem esperança sustentando o mito dadá incapaz de produzir um discurso coeso-coerente, mesmo que seja em defesa do próprio projeto que, sabemos, é de morte. Em delírio, alteraram as percepções e, por isso, não enxergam que as estatísticas podem virar rostos conhecidos, familiares. Em letargia, não respondem à razão e aos sentimentos; não percebem que estão cavando a própria cova ou a destruição total do país, tudo por conta dos dogmas reacionários e vontade de destruição das minorias que os acompanham. Em torpor, já não entendem a dor do outro, não respondem a nenhum estímulo, a não ser à economia, e nem sei se responderão, mesmo quando o Covid-19 bater à porta e perderem alguém da família.

Do lado de cá, muitos daqueles que defendem a justiça social e ambiental, que sonham com um país melhor para todos, devido ao quadro ativado pela confusão, pela desorientação, pelo delírio e pela letargia em decorrência da maldade dos apoiadores de milicianos no poder, sem visualizarem saídas, escapatórias ou se sentindo vencidos pelos senhores apoiadores da opressão, também entraram em um estado de torpor e muitos assistem sem acreditar, beliscando-se a cada fleche de insensatez dos verde-amarelos que dão suporte à política de morte.

O bom em meio a tudo o que estamos vivendo, se é que é possível tirar algo de bom disso, é que, diferente dos que estão do outro lado, nós não entramos em coma, pois ainda sentimos a nossa própria dor e, mais importante do que isso, a dor do outro, e aí está o remédio para que saiamos desse estado de imobilidade no qual estamos afundados, a capacidade de sofrermos por nós e pelos outros. Diante disso, não restam dúvidas de que seremos salvos pela dor, ou, melhor dizendo, pela capacidade de sentirmos a dor nos olhos do outro que, neste momento, chora pela morte de algum ente querido, pela fome que bateu à porta pela perda de emprego devido ao egoísmo de muitos empresários que, mesmo com a garantia de que as empresas teriam ajuda governamental, demitiram em massa, pelo desespero daqueles que já não possuíam uma vida financeira equilibrada e pioraram ainda mais a situação após a pandemia, pelos indígenas que correm o perigo de extermínio a partir do contato com os latifundiários colonialistas sedentos pela conquista da última fronteira agrícola com a destruição da floresta, por aqueles que foram contaminados pela ignorância a partir da maldade travestida de populismo barato nas atitudes do mito incoerente que foi às ruas incentivando-os a descumprirem as medidas de isolamento e, também, pelas lágrimas mesmo daqueles que causam a nossa dor e nos trouxeram a este poço profundo quando estes começarem a perder seus avós, seus pais, suas mães, seus filhos ou seus amigos em meio ao balaio louco que eles construíram ou ajudaram a consolidar.

Enfim, a capacidade de sentirmos a nossa própria dor e, principalmente, a dor do outro, nos ajudará a vencer a indiferença, a ignorância, a maldade, a apatia moral e tudo aquilo que deu origem à indolência e nos levou à prostração!

Observação: para as fases da confusão, à desorganização, ao delírio, à letargia, ao torpor, ao coma, parti das discussões feitas no texto “O que é Consciência alterada” no site https://www.minhavida.com.br/saude/temas/consciencia-alterada.

Elissandro Santana é professor, membro do Grupo de Estudos da Teoria da Dependência – GETD, coordenado pela Professora Doutora Luisa Maria Nunes de Moura e Silva, revisor da Revista Latinoamérica, membro do Conselho Editorial da Revista Letrando, colunista da área socioambiental, latino-americanicista e tradutor do Portal Desacato. Doutorando em Projeto, linha de pesquisa em meio ambiente pela Universidade Internacional Iberoamericana – México.

A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

 

 

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