Coronavírus: o desejo pela pandemia

O mundo reage com recursos e especialistas para conter novo surto, que chegou a 14 países. Mas atenção básica mundial está despreparada, e por isso pena para enfrentar outras graves epidemias — como o sarampo, que matou 6 mil no Congo

Imagem: Pixabay.

Por Andreas Wulf.

A notícia da epidemia do coronavírus chega à imprensa antes da eliminação gradual do carvão na Alemanha e do processo de impeachment contra o presidente dos EUA. A Organização Mundial de Saúde está discutindo declaração de uma emergência sanitária mundial, para não ser acusada de ter agido de forma hesitante e tardia — como no caso do surto de Ebola na África Ocidental em 2014. As autoridades sanitárias chinesas querem mostrar que têm tudo sob controle e, sobretudo, que trabalham de forma transparente e cooperativa, em contraste com o surto do vírus da SARS em 2003. Os virologistas dão longas entrevistas sobre as semelhanças e diferenças entre os vírus, cheios de formulações com “poderia”, “se” e “deve ser”. Testemunham, acima de tudo, sua própria importância, uma vez que não podem prever o curso dos acontecimentos mais do que o Instituto [de pesquisa responsável pelo controle e prevenção de doenças] Robert Koch, cuja tarefa neste momento é tranquilizar o público alemão. Afinal, tudo isto ainda está restrito ao “Extremo Oriente”. Mas graças à globalização, as distâncias parecem ter diminuído, bem como o tempo decorrido entre um evento e sua apresentação na mídia.

Parece que o mundo todo está de olho nessa nova doença infecciosa, já anunciada como “pandemia”, para não ter de falar sobre a catástrofe climática, a crise na Líbia e o Brexit. E todos os atores têm os seus próprios interesses em mente. Uma nova epidemia promete novos fundos de investigação, novos recursos para vacinas e medicamentos, novas atividades de prevenção, novos empregos e novos grupos de especialistas, e uma mudança bem-vinda nas rotinas muitas vezes entediantes e enfadonhas do trabalho cotidiano de um sistema de saúde funcional. O que realmente deveria ser feito: reforçar o trabalho diário para que todos os necessitados possam ser atendidos.

Se é necessário que a emergência tenha que ser declarada todas as vezes, para que o monitoramento contínuo de riscos à saúde seja iniciado, em algum momento ninguém vai acreditar que deveria ser uma tarefa rotineira (e que não pode ser delegada a uma “força de reação rápida”) ter um sistema de saúde preparado para tais situações. E se o alarme só soa quando “novos” vírus surgem, escândalos de vítimas evitáveis de doenças assassinas, como o sarampo ou a tuberculose, tornam-se cada vez menores — compare, por exemplo, as 6 mil mortes confirmadas do surto de sarampo no Congo desde 2019 com as 81 mortes [número estimado em 27/1] causadas pelo novo coronavírus na metrópole de 11 milhões de habitantes de Wuhan.

A OMS se queixa da “fadiga de doadores” aguda na luta contra o sarampo no Congo, e vê o sistema fraco de saúde, dificuldades de logística e desnutrição da população como fatores da epidemia. Aí reside o problema da “política de saúde do desastre”, como tem ficado claro no caso do coronavírus: a simulação de um sistema de saúde global ativista e de políticas de segurança prioriza os eventos críticos por permitirem mobilizar atenção, recursos e significado, negligenciando assim a gestão do dia a dia das ameaças sanitárias globais.

Se as políticas de saúde globais fossem realmente sérias quanto ao seu compromisso com a cobertura universal da saúde, a diferença teria de ser a seguinte: com toda a atenção necessária a ameaças globais em potencial, é mais importante que nunca, hoje, o fortalecimento estrutural dos trabalhadores da saúde básica, que também precisam lidar com as emergências de epidemias. Isso foi demonstrado na crise do ebola na África Ocidental, e será demonstrado novamente, caso o coronavírus se revele muito mais perigoso do que, felizmente, parece ser até agora.

 

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