Conversando com minha mãe II – Elinora

Por Urda Alice Klueger.

(Para Sérgio de Azeredo Coutinho, um primo quase desconhecido).

Sabe, mãe? De novo é um assunto com quem não tenho com quem conversar. Foi a Elinora. Ela partiu hoje, e eu estou chorando. Estavam lá os filhos do tio Júlio, mas depois cada um foi para a sua casa e não há mais ninguém que se interessaria em ouvir falar de uma velha prima que esteve sempre por perto na minha vida. Eles também estavam tristes e tinham coisas para contar, como, por exemplo, os Rollmops que a Elinora dava ao Afonso a cada aniversário, ano após ano. O aniversário do Afonso é a 21 de dezembro, eu lembro, mas nunca imaginei que a Elinora fizesse Rollmops para ele. Aquele jeito dela, simples, delicado, elegante e cheio de vida era bem um jeito de quem fazia coisas assim.

A Elinora esteve na minha vida desde muito cedo. Era ainda no tempo da casa da rua Amazonas, perto do Cine Garcia, a casa da tia Paula North, irmã do tio Júlio Klueger. Nem sei que idade eu tinha, mas era muito pequena. A gente ia lá na tia Paula para ganhar carambolas, pois, ao menos na minha lembrança, a casa era rodeada de pés de carambola. A mãe lembra como depois fazia compota com as estrelinhas translúcidas das carambolas, naqueles vidros que fechavam com borrachinhas? Era aquela a sobremesa dos dias em que havia visita! Pois naquele tempo a Eleonora era uma moça um pouco pálida, delgada e bem humorada, que usava elegantes vestidos claros que ela mesma costurava e que sempre era simpática comigo, uma criança que ficava um pouco acanhada diante da tia Paula.

Um dia, penso que na altura em que eu estava para entrar na escola, a Elinora mandou convidar para a inauguração da nova casa dela, no bairro Ponta Aguda, e fomos lá, e tudo era tão bonito e tão chique! Era uma tarde de festa; a casa estava lotada e todos comentavam sobre o grande bom gosto da Elinora ao fazer aquela casa moderna. Era final de tarde quando voltávamos para o centro de Blumenau, e a mãe se lembra como as ruas que hoje chamamos de República Argentina e Avenida Brasil eram dois carreiros de terra cheias de capim, e onde os dois carreiros se cruzavam, um punhado de galinhas ciscava despreocupadamente enquanto o seu galo cantava? Quanto tempo, quanto tempo…

Então, não sei os detalhes, a Elinora se apaixonou pelo João Coutinho e nem tomou conhecimento das críticas étnicas que rolaram aqui e ali – como é que uma North, neta de Klueger, ia casar-se com um “brasileiro”? Eu sabia muito bem na pele como eram essas críticas étnicas, já que meu pai também se casara com uma “brasileira”, né, mãe? Nem vale a pena começar a falar aqui sobre tal assunto, tamanha a ignorância que abrange – sei que a Elinora casou com o João Coutinho e foi feliz, e teve o Sérgio, o único filho, que eu só tinha visto uma vez, quando ele era criança. A mãe chegou a conhecer o Sérgio?

Conforme eu fui conhecendo o João, fui gostando cada vez mais dele, talvez pelo nosso gosto comum pela História.  O João teve o cuidado de pesquisar cuidadosamente quem tinham sido os 32 tataravôs do seu filho Sérgio, para lhe deixar a informação como herança. E eu embarquei na pesquisa dele, e muita coisa que sei hoje sobre minha própria família vem da pesquisa do João. Conforme fui aprendendo História fui entendendo quem era aquele “brasileiro”: João se chamava Azeredo Coutinho, vinha de uma das mais antigas famílias do país – quanto tempo perdido com frissons étnicos, a mãe que o diga!

E sempre estava presente a Elinora, corajosa, doce e meiga, tendo a coragem de viver a vida do jeito que gostava – não consigo imaginá-la pensando essa coisa tão comum de “o que é que os vizinhos vão dizer?”!

Nem sei tudo onde estava a Elinora: havia visitas esporádicas de cá e de lá – foi numa destas que vi o Sérgio menino. Penso que a gente ia na casa dela, também, para ver a tia Paula – e ela e o João apareciam lá na praia, quando nos mudamos para lá.

E a vida passou. Nos últimos anos, estive mais perto da Elinora do que antes. Houve as festas da família Klueger e, provavelmente, o meu próprio amadurecimento. Lembro quando, há seis anos atrás, fui votar e encontrei a Elinora fazendo a mesma coisa. Encontramo-nos na Rua XV, e ela me disse que já estava chegando aos 80 anos, o que me deixou pasma: nunca percebera que ela mudara em alguma coisa, e é claro que não mudara mesmo: piscou um olho para sussurrar-me o nome do candidato em que votara. Linda e maravilhosa Elinora, sempre na vanguarda do seu tempo, talvez a pessoa que eu quisesse ser.

Depois das Águas de 2008, um dia conversei muito com a Elinora na Ponta Aguda. Foi uma conversa comprida, como se tivéssemos a mesma idade, e devia ser isso mesmo, já que ela nunca envelheceu. Uma das coisas que me contou foi que provavelmente uma pequena aranha se escondera dentro da sua luva de jardinagem e a mordeu, causando-lhe cansativos e doloridos dissabores de saúde.

Duas semanas atrás, num sábado de manhã, passei pela casa da Elinora com meu cachorro, e pensei em bater, conversar um pouquinho, mas não o fiz. Fico com muita pena, agora.

Sabe, mãe, hoje, lá no velório, transido de dor, estava o Sérgio, esse primo quase desconhecido. Se o encontrasse na rua, não saberia que era ele. Tinha feito as contas no caminho: o filho da Elinora e do João já deveria ter mais de 40 anos. A vida tinha voado para nós todos. E aquele Sério estava lá, tão cheio de dor que compreendi a grande mãe que a Elinora tinha sido. Fiquei a observá-lo de longe, a ver como ele se parecia com o pai dele, e ao mesmo tempo, como ele se parece com o primo Daltro Klueger, filho do tio Victor.

Despedimo-nos da Elinora debaixo de uma chuva de inverno e meu coração estava partido pela saudade antecipada dela e pela intensidade da dor daquele filho que ela teve com o João e a quem deve ter amado tanto! A dor dele era como que um punhal no meu peito.

Era isto que eu queria contar para a mãe. Quem mais se interessaria em saber de tais coisas, em me ouvir lembrar das carambolas da casa da tia Paula, de como encontrara a Elinora voltando da eleição como uma mocinha, enquanto já beirava os oitenta anos e tudo o mais?

Agora a Elinora partiu, mãe. Outro dia a gente conversa mais.

Blumenau, 10 de junho de 2012.

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