Contra o autoritarismo, a unidade popular

Chile com a Unidade Popular. Foto: Reprodução

Por Rita Coitinho, para Desacato.info. 

Ontem fez 54 anos do Golpe de Estado de 1964. Li muitos artigos sobre o tema, há grandes cabeças pensando sobre as razões e, principalmente, as consequências daquele acontecimento político violento para as gerações que o enfrentaram e para nós, que aqui estamos, cinco décadas depois. Não pretendo tecer aqui mais uma análise profunda deste acontecimento, há ainda muito o que ler e refletir. Gostaria, apenas, de buscar algumas conclusões que podem nos ajudar nesse momento político difícil que atravessamos.

É impossível pensar os dias atuais sem nos remetermos a este passado recente que tantas marcas nos deixou. O golpe de 1964 interrompeu o processo de reformas estruturais que estava em debate, o que significou o adiamento (até hoje) da reforma agrária. A reforma universitária, bandeira dos estudantes, foi substituída pelos acordos com as agências internacionais (em sua maioria controladas pelos EUA), de modo que a universidade brasileira, crítica e criadora, tal qual vinha sendo pensada por gente como Darcy Ribeiro, não chegou a se concretizar. A “crise da educação como projeto”, como dissera o antropólogo, consolidou-se, assim como o desenvolvimento econômico “pelo alto”, em que os ganhos ficaram concentrados, à revelia da maioria do povo.

A repressão política permitiu que os massacres a povos indígenas ocorressem sem que se tivesse notícia, assim como a expansão da grilagem de terras públicas, em cima de povos indígenas e populações tradicionais. Mas talvez a obra mais bem acabada dos anos de chumbo – e que tem origem e influência, ao mesmo tempo, sobre todas essas questões de que falamos acima – seja a consolidação do autoritarismo, em todas as esferas. O “você sabe com quem está falando?”, conforme destacou Roberto Da Matta, é, talvez, a maior expressão do “jeito brasileiro”. E esse “jeito” não é do povo trabalhador, mas das elites nacionais, afeitas às soluções autoritárias. Pois não foi com um “você sabe com quem está falando?” que livrou-se da justiça o filho traficante de uma desembargadora? “Você sabe de quem é esse helicóptero e essa fazenda?” não foi suficiente para que 500 quilos de cocaína sumissem dos noticiários? E o “me chame de doutora”, da procuradora que não admitiu os modos simples do presidente Lula, não é uma variação exemplar da frase que tem a preferência de dez entre dez figurões da nação?

O “você sabe com quem está falando”, esta herança aristocrática que não foi soterrada pela modernidade, mas revivida e alimentada nos anos de chumbo, parece não querer mais nos deixar. Os clamores por novos regimes autoritários, a insistência em se qualificar tudo o que é popular como “criminoso” ou indolente, são maneiras pelas quais o autoritarismo insiste em perdurar. A escalada fascista que agora assistimos mescla o componente cultural autoritário com o apego à ignorância política e filosófica, a perseguição à ciência e ao pensamento crítico, estes tidos como inimigos da ordem. É nesse caldo de cultura que fermenta a violência política de direita, tal qual prosperava nos anos anteriores ao golpe civil e militar de 64. Para os grupos autoritários que crescem, é preciso calar quem questiona, é preciso impor a ordem a qualquer custo. Todos aqueles que insistem em questionar as hierarquias, denunciá-las como frutos das desigualdades, devem ser silenciados. Perseguição à ciência, às artes e às expressões culturais do povo, aliados à violência política são dois componentes centrais do fascismo, que avança rapidamente entre nós.

A solução para isso já foi apontada por Jorge Dmitrov, há bem mais de 50 anos: não se pode deixar o fascismo se alastrar e vencer, é preciso derrotá-lo. Ele propunha, na época, a formação de grandes frentes políticas para lutar contra o fascismo. Dizia que se isso tivesse sido feito antes, o mundo poderia ter sido poupado do horror. Conforme seu informe ao 7º Congresso da Internacional Comunista, “o fascismo é a ditadura terrorista aberta dos elementos mais chauvinistas e mais imperialistas do capital financeiro. (…) O fascismo chegou ao poder, antes de mais nada, porque a classe operária achava-se dividida, desarmada política e organicamente frente à burguesia que partia para a ofensiva. Triunfou também porque o proletariado se encontrava isolado dos aliados naturais, os camponeses e a pequena-burguesia urbana. Quanto às responsabilidades da social-democracia, só tenho a dizer que: se no ano de 1918, quando a revolução explodiu na Alemanha e na Áustria, o proletariado tivesse marchado pelo caminho dos bolcheviques russos, hoje não haveria fascismo. Não seria a burguesia, mas sim, a classe operária, a dona da situação na Europa. Nas nossas fileiras, por outro lado, existia a inconcebível subestimação do perigo fascista que, até o presente momento, não foi liquidado[1]”.

O momento é de relembrar as experiências históricas: o horror dos regimes fascistas, da Segunda Guerra Mundial, os horrores das nossas ditaduras latinoamericanas. Teriam tido o mesmo desfecho se os movimentos populares tivessem adotado estratégias diferentes? Não temos como saber. Mas sabemos no que resultam todas essas terríveis experiências. Saberemos também unir forças, para além de nossas diferenças, a fim de não permitir que uma nova noite de vinte ou trinta anos se instale sobre nós?

[1] Ver: https://www.marxists.org/portugues/dimitrov/1923/12/12.htm ; http://www.grabois.org.br/portal/entrevistas/153152/2016-11-07/a-internacional-comunista-conclama-a-unidade-popular-contra-o-fascismo e também http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/alianca-nacional-libertadora-anl

Rita CoitinhoRita Coitinho é socióloga, doutoranda em geografia e membro do Conselho Consultivo do Cebrapaz.

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