Conteúdo anunciado do “acordo do século” dos EUA viola frontalmente direitos dos palestinos

Imagem: Reprodução.

O chamado «acordo do século» do governo Trump, segundo responsáveis de Israel citados pela comunicação social deste país, promete a aplicação da soberania israelita a todos os colonatos judaicos existentes na Cisjordânia ocupada, além da anexação do vale do Jordão, que se tornaria a fronteira oriental de Israel.

Não está previsto nenhum retorno significativo, nem nenhuma compensação, dos refugiados palestinos expulsos pela limpeza étnica levada a cabo pelos sionistas.

A televisão israelita, sem especificar fontes, avança pormenores do «plano de paz»:

* Soberania israelita em todos os mais de 100 colonatos da Cisjordânia, que seriam todos territorialmente contíguos, excepto 15. Mais de 400 000 israelitas vivem actualmente na Cisjordânia, além de outros 200 000 colonos em Jerusalém Oriental, que são territórios palestinos ocupados.

* Soberania israelita na totalidade de Jerusalém, incluindo a Cidade Velha.

* Poderia ser concedido um Estado aos palestinos, mas somente se Gaza fosse desmilitarizada, o Hamas renunciasse às suas armas e os palestinos reconhecessem Israel como um Estado judaico com Jerusalém como sua capital.

Trata-se, evidentemente, de condições completamente inaceitáveis para os palestinos. O porta-voz do presidente palestino Mahmoud Abbas, Nabil Abu Rudeineh, disse em comunicado que a direcção palestina rejeita firmemente as declarações e decisões dos Estados Unidos em relação a Jerusalém e o seu reconhecimento como capital de Israel, bem como todas as decisões contrárias ao direito internacional.

«Sublinhamos a nossa posição firme reclamando o fim da ocupação dos territórios palestinos dentro das fronteiras de 67, incluindo Jerusalém Oriental», diz o comunicado. «Se o plano for divulgado com base nos pormenores que vieram à luz até agora, os quais rejeitamos veementemente, a direcção palestina declarará uma série de medidas com as quais preservaremos os direitos legítimos do povo palestino, e Israel suportará a responsabilidade como entidade ocupante.»

Confirmando indirectamente as notícias sobre a iminência da revelação do conteúdo do «acordo do século», o vice-presidente dos EUA, Michael Pence, que está de visita a Israel, anunciou que o presidente Donald Trump convidou o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e também Benny Gantz, dirigente da coligação rival Kahol Lavan, para irem à Casa Branca na próxima semana para discutir questões regionais e «a possibilidade de paz na Terra Santa».

Ambos os chefes de fila das principais coligações concorrentes às eleições israelitas de 2 de Março estão de acordo com a anexação do Vale do Jordão, uma das partes mais férteis e estratégicas da Cisjordânia, que faz fronteira com a Jordânia. Após Netanyahu ter prometido, durante a campanha eleitoral para as eleições de Setembro passado, anexar o Vale do Jordão, nesta terça-feira foi a vez de Benny Gantz declarar: «Vamos trabalhar para impor a soberania ao vale do Jordão».

Os Estados Unidos, além do total enviesamento pró-israelita do conteúdo anunciado do «plano de paz», demonstram um desprezo gritante pelos palestinos. A Casa Branca convida Netanyahu e Gantz para lhes dar conhecimento do conteúdo do plano, sem sequer se dar ao trabalho de informar a direcção palestina, que soube pela comunicação social.

Aos palestinos restaria aceitar passivamente que lhe fosse imposta a completa abdicação dos seus direitos nacionais, designadamente ao retorno ou compensação dos refugiados e à criação de um Estado independente nos territórios ocupados em 1967.

Aquilo que está em preparação, a confirmarem-se as notícias agora publicadas, é de uma gravidade inaudita. Em primeiro lugar para os palestinos, que decerto se recusarão a baixar os braços, como sempre demonstraram. Mas é também inaceitável para todos os países que recusem ver as relações internacionais regidas pela lei do mais forte em vez de pelo primado do direito. Seria intolerável, designadamente, que a ONU e a União Europeia persistissem na sua posição de complacência, de objectiva cumplicidade, com os fautores de tão descarada violação do direito internacional. As palavras não bastam. É hora de passar aos actos.

Foto: AFP. Manifestantes palestinos queimam efígies de Trump, Pompeo e Netanyahu durante protesto contra o «acordo do século».

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