Consumo, pegadas não ecológicas e vingança de Gaia

Consumo, pegadas não ecológicas e vingança de Gaia

Por Elissandro Santana, Porto Seguro, para Desacato.info.

As pegadas ecológicas oriundas dos modelos de produção humana sobre a Terra extrapolaram todos os limites possíveis de recuperação biológica do planeta. Para a manutenção do atual padrão de consumo, o ser humano, através de seus sistemas de produzir alicerçados no capitalismo que a tudo destrói em nome do lucro levou o planeta a viver a crédito.

Socioambientalistas, ambientalistas, alguns cientistas ambientais e estudiosos que discutem as temáticas ecológicas, em geral, já sinalizam que, de alguma forma, diante da cultura do consumo e dos parâmetros equivocados de “desenvolvimento” que adotamos serão necessários bem mais que um planeta para suprir a nossa sede de potência e de consumo.

Estamos no período que alguns já nomeiam de antropoceno. Nessa era dos homens, o fenômeno da extinção, biologicamente natural, acelerou-se a patamares bizarros. Essas extinções no âmbito da fauna e da flora alimentam o capitalismo aniquilador da vida. Isso tudo é fruto de uma Ciência Cartesiana, Positivista que interfere diretamente na visão insustentável do homem como centro, vetando, assim, o surgimento da ética biocêntrica. Essa ciência atual ainda enraizada, em muitos pontos, nos pressupostos e axiomas dos séculos XVI, XVII, XVIII, XIX e XX, impossibilita a maturação dos processos de consciência e do (re)ligare do homem com a natureza. Frente a essa cisão, ganham terreno nos imaginários humanos a afluência e a incapacidade da compreensão de que somos os algozes da Terra. Atualmente, o que nos move é o poder de compra e, consequentemente, de consumo. Aqueles que fogem a essa lógica de (não)vida são excluídos, tornam-se óleos queimados, imprestáveis, incapazes de movimentarem a roda capital que não para de girar e devastar os recursos naturais que nos fornecem todos os serviços ecológicos necessários à vida.

Em nosso tempo, a racionalidade insensível inviabiliza a compreensão além do que está dado. Todas as nossas análises orbitam as concepções capitais da Terra como Baú de Coisas, portanto, podendo ser aberto e explorado. Essa vertente corrobora que estamos desligados da natureza e nisso reside parte da explicação central para a nossa inércia diante da crise ambiental atual que nos assola que, segundo Boff, é mais que uma crise ecológica, é uma crise civilizacional.

Estamos imersos naquilo que podemos rotular de reino do consumo, e, a partir dessa ótica, vende-se de tudo, desde a promessa do paraíso nos templos de adoração ao divino, divino esse que, nos discursos dos vendilhões, promete a fartura, as bênçãos financeiras, em consonância com as teologias da prosperidade espalhadas pelas esquinas do mundo, uma verdadeira indústria da fé que explora a miséria humana para a pecúnia de mais bênçãos, à liquidez do “amor”, às amizades com validade, enfim, comercializa-se da vida à morte, basta observar as empresas funerárias que se proliferam por todos os rincões sociais do Globo. Foi a partir desse comércio de vida-morte-morte-vida que compreendi parte da semântica de Morin em torno do vive-se de morte e morre-se de vida em suas discussões sobre ética e complexidade.

Tudo nos leva a perceber que os tempos nos quais estamos, fazendo uma ponte com Lipovetsky, são de decepção e de vazio. Em meio a essas sociedades da decepção em eras do vazio, os sonhos se resumem à posse como realização pessoal e mecanismo de afugentar os fantasmas da consciência da brevidade da existência, por isso, é preciso tornar a vida prazerosa até o limite do impossível, por meio do comprar, do acumular, do bel-prazer do consumo.

No epicentro das decepções e dos vazios, as sociedades capitais confundem desenvolvimento com crescimento econômico. Mergulhadas na ânsia do crescimento do PIB como receita para se tornarem potências econômicas, depredam até o futuro e, mesmo aquelas economias que se dizem verde, em algum momento no eixo de crescimento, são sociedades de carbono, poluidoras nas bases.

Hoje, todas as dores, angústias e perdas são supridas pelo vírus do consumo, ou seja, da afluência. Em todos os pontos nos quais o capitalismo se imprimiu como estilo de produzir e de “viver”, essa doença se instalou e se alastrou. Comprar virou mais que status, transformou-se em regra de vida, de poder para além do poder. A afluência como vírus social para o consumo desestabilizou consciências e revelou uma sociedade que vive o carpe diem consumindo presente-futuro e negando aos filhos, que virão depois, a oportunidade de usufruírem do capital natural que ainda nos resta. Desta forma, pode-se dizer que a afluência anula a possibilidade de uma vida sustentável no agora e no futuro, já que o hoje é feito de consumo.

A partir da produção em série de bens e serviços, da Primeira Revolução Industrial até a Revolução Técnico-científica na qual estamos, as sociedades ocidentais e até alguns países do mundo oriental colocaram em prática o sonho para além do viver bem e, com isso, possibilitaram o viver melhor. O problema é que no viver melhor existe algo egoísta, pois viver melhor implica que alguém não viverá tão bem quanto você e, nisso, com certeza, há explicações para nossos dilemas ambientais atuais.

Como o planeta está vivendo a crédito, consumindo bem mais do que a terra pode suportar, os juros sobre juros dos créditos serão cobrados logo, logo, e, infelizmente, o quadro só tende a piorar, dado que as projeções de crescimento da população já apontam para um crescimento cada vez mais exponencial. Atingiremos, em breve, os nove bilhões de pessoas. Com mais pessoas, mais consumo e, consequentemente, mais demandas por recursos naturais, e, com nosso capital biológico esgotado, sem dúvida, retornaremos à barbárie.

O triste nisso tudo é que todos nós temos consciência disso, mesmo aqueles que estão sob a égide da alienação total, de alguma forma, sabem o que nos espera, no entanto, mesmo assim, nada, ou pouco, fazemos, e sempre que aparece alguém capaz dizer verdades dolorosas, logo é taxado de comunista, louco e por outros adjetivos, sendo silenciado, tendo em vista que se torna uma afronta ao modelo de sustentação das benesses dos sonhos de poder do capitalismo para poucos, ou seja, daqueles que explorarão as massas, massas essas que, também, não estão imunes aos sonhos de um dia ocuparem posições de comando e domínio, já que essa é uma marca do ser humano desde as primeiras civilizações, ou seja, desde os primeiros momentos da existência no planeta.

Diante de tudo o que já fora discutido, é oportuno externar que essa ideia do consumo está atrelada à noção de poder, acumulação e tudo isso recebe fomento de campos diversos das culturas humanas. Da religião à mídia, cotidianamente, desde que nasce o bicho homem é adestrado para o imaginário de posse e consumo como sinônimos de vida plena, realização pessoal e aceitação social.

Por fim, faz-se imprescindível mencionar que em nossas arquiteturas mentais alicerçadas no capital, em nosso desespero de consumo, em nossa ilusão de felicidade pelo poder de compra, em nossa ânsia pelo viver melhor estão os geradores das pegadas que destruirão a capacidade total da Terra de se recuperar do estupro consumista através dessa cultura humana do gozo e da satisfação dos desejos de acumulação pelo consumo. Por tudo isso, pode-se afirmar que a afluência é, sem dúvida, a grande ferida mortal para o planeta e o ser humano parece não entender isso, aliás, finge não entender, pois as causas desencadeadoras da febre ambiental estão visíveis em várias partes do globo. Do aquecimento global, fenômeno inconteste, a outros eventos naturais violentos, Gaia, esse superorganismo vivo e inteligente, segundo a teoria de James Lovelock, mostra que sua vingança será terrível!

Escatológica a minha reflexão? O tempo provará se nós, eco chatos, como somos rotulados por muitos, estamos certos ou não.

Foto: Kafé Kultura. 

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