Congresso Nacional Africano: 100 anos a serviço do capital

Publicado em: 14/01/2014 às 06:18
Congresso Nacional Africano: 100 anos a serviço do capital

1364402598Em janeiro de 2012 o Congresso Nacional Africano (CNA) celebrou o centésimo aniversário da sua fundação e gastou 100 milhões de rands [mais de 31 milhões de reais] na festa. O CNA detinha então o poder continuamente por quase 18 anos e seus líderes enxergaram aí um motivo para celebração. Entretanto, as celebrações foram em grande parte voltadas para a elite política e para os poucos que haviam se enriquecido através do domínio do CNA. A classe trabalhadora, os desempregados e os milhões de empobrecidos, que não têm absolutamente nada para celebrar, notabilizaram-se por sua ausência.

O CNA foi fundado logo após a criação da União da África do Sul [1] por um punhado de advogados e jornalistas educados no Ocidente, numa época em que as sociedades africanas eram ainda em grande parte tribais, embora o sistema econômico tribal de subsistência estivesse sendo destruído pelo capitalismo. Os fundadores do CNA viraram costas para a sociedade tribal e reivindicaram direitos iguais para os africanos no interior da sociedade capitalista emergente, direitos dos quais a colonização seguida à Guerra dos Boers e a Lei de União [2] especificamente os excluíam. Passado um século de desenvolvimento capitalista, que destruiu inteiramente a sociedade tribal, a substituiu pela sociedade capitalista e produziu uma classe trabalhadora predominantemente africana, o CNA ascendeu e tornou-se a força burguesa dominante na política sul-africana.

O CNA, que sempre se apresentou a si mesmo como um movimento nacional, em particular um representante dos interesses de toda a população africana, sempre foi, na realidade, um partido representante da classe burguesa africana em ascensão. O flerte do CNA com a classe trabalhadora foi uma manobra cínica para recrutar trabalhadores como soldados rasos, com os quais ele se tornaria capaz de demolir o regime do apartheid e a resistência do nacionalismo afrikaner. Em seu período no poder, desde 1994, o CNA assumiu a gestão do capitalismo sul-africano e levou a cabo esta tarefa como qualquer outro governo capitalista da nossa época. Privatizações e abertura do país à competição global, enquanto os padrões de vida dos trabalhadores sofrem cortes, têm sido a ordem do dia. Ao mesmo tempo, o poder do Estado tem sido usado para promover a elite do partido para os altos escalões da burguesia, através do famoso programa Black Economic Empowerment (BEE) [3]. Este programa criou um punhado de milionários negros em posições de poder nas corporações de mineração e da indústria, um processo que o regime tenta apresentar como compensação pelos pecados do século passado e como demonstração de que a posição dos africanos está melhorando. Contudo, ao mesmo tempo em que se promovem a si mesmos para as fileiras da classe capitalista, eles criam uma classe urbana subalterna cada vez maior, dependente dos pagamentos de previdência social do Estado, e o fosso entre ricos e pobres está se tornando cada vez mais largo. Criar uma classe burguesa negra sempre foi, é claro, o programa do CNA, mas a mentira, que ele tem mantido, é que isto beneficiaria de alguma forma a classe trabalhadora africana. Esta mentira está sendo agora cruelmente desmascarada. Embora os temas da divisão racial e da opressão racial tenham sempre obscurecido a situação sul-africana e tenham sido explorados à exaustão tanto pelos nacionalistas afrikaners quanto pelos nacionalistas africanos, as reais contradições na sociedade sul-africana, como na sociedade capitalista em todo o mundo, são as de classe. Os interesses da classe trabalhadora e da classe capitalista são diametralmente opostos e o CNA não pode conciliá-los. De um lado, o CNA gerou uma situação onde, de acordo com seus próprios cálculos, 9% do capital das corporações de mineração está nas mãos de capitalistas negros, enquanto, de outro, ele criou uma situação onde:

– 40% da população em idade ativa está desempregada. Isto representa 6 milhões de trabalhadores, 2,8 milhões dos quais têm entre 18 e 24 anos [4].

– A classe subalterna urbana, sobrevivendo de pagamentos de previdência social, aumentou de 2,5 milhões em 1996 para 12 milhões em 2006.

– 50% da população vivem abaixo da linha da pobreza.

– 7 de cada 10 crianças negras crescem na pobreza [5].

– A expectativa de vida diminuiu de 65 anos em 1994 para 53 anos em 2009 [6].

Tais contradições estão ameaçando dilacerar a organização. Por meio do enriquecimento desavergonhado dos seus altos membros, o governo do CNA atolou-se a si mesmo na corrupção e no nepotismo, que se estendem para cima, em direção ao gabinete presidencial. No centésimo aniversário de sua fundação há, na verdade, poucos motivos para celebrar.

18 anos no poder

Desde que chegou ao poder, o CNA tem feito parte de uma aliança tripartite com o Partido Comunista da África do Sul (PCAS) e com o Congresso dos Sindicatos Sul-Africanos (COSATU). Esta aliança foi projetada para fortificar seu poder e dar cobertura política aos seus ataques à classe trabalhadora. Desnecessário dizer, os trabalhadores têm resistido à erosão dos seus salários e do seu padrão de vida, e nos dois últimos anos tem havido greves massivas. Em 2010 houve uma greve do funcionalismo público envolvendo 1,3 milhão de trabalhadores que durou 20 dias, e em 2011 houve greves nas minas e nos setores de energia, petróleo, metal e papel, os quais viram centenas de milhares de trabalhadores baixarem suas ferramentas de trabalho reivindicando aumentos salariais. Apesar de o COSATU fazer o seu melhor para controlar e desativar estas greves, a deterioração geral das condições dos trabalhadores está gerando pressões sobre a aliança e abrindo fissuras no próprio CNA. Foram, sem dúvida, as pressões vindas daqueles que se sentem despossuídos e traídos pelo CNA que levaram à remoção do presidente anterior, Thabo Mbeki, em 2008, e à sua substituição por um mais populista: Zuma. A remoção de Mbeki conduziu à saída de sua fração do CNA e à formação de um novo grupo político, o Congresso do Povo (COPE).

Uma ruptura adicional, e potencialmente mais explosiva, foi aberta pela punição e afastamento do líder da juventude do CNA, Julius Malema. Malema fora um importante apoiador de Zuma durante a defenestração de Mbeki, mas a contínua deterioração das condições dos trabalhadores e dos pobres levou-o a voltar seus disparos sobre a liderança de Zuma e apelar para a nacionalização das minas e expropriação dos terrenos agrícolas em propriedade de brancos. Estas reivindicações, que estão na verdade especificadas na Carta da Liberdade (Freedom Charter), adotada como programa pelo CNA em 1956, são agora totalmente contrárias às demandas dos capitalismos sul-africano e internacional e, é claro, às da liderança do CNA. Consequentemente, elas são um grande embaraço para o CNA. O ressurgimento destas demandas do passado assemelha-se ao do fantasma proverbial que aparece no banquete do casamento para arruinar a festa. Apesar de ter sido silenciado e afastado do CNA por um período de 5 anos, Malema está dando voz a queixas amplamente difundidas e as manifestações em seu julgamento demonstram que possui um forte apoio, que não será aplacado pelo silenciamento de um homem.

Os desempregados estão também encontrando uma voz. Um porta-voz do Unemployed People’s Movement [7] acusa o CNA de traição: “Durante a luta, nossos líderes encarnaram as aspirações do povo. Mas, uma vez tendo tomado o poder do Estado, eles não precisaram mais de nós. Fomos mandados para casa. Somos chamados de volta somente para votar e para participar de comícios. Mas a toda hora nosso povo é despejado do campo, abrindo caminho para animais enquanto fazendas são transformadas em reservas de caça sob o pretexto do turismo. Nosso povo é despejado das cidades. Ao nosso povo é negada uma educação decente.” [8]

Em manifestações recentes, desempregados reivindicando emprego, moradia, água corrente e eletricidade defrontaram-se com uma ferocidade similar à do regime do apartheid. Numa manifestação na cidade de Ermelo, em uma das províncias mais pobres da África do Sul, dois manifestantes foram mortos a tiros pela polícia. Em outra manifestação, precisamente provocada pelos mesmos descontentamentos, na cidade de Ficksburg, um manifestante, Andries Tatane, foi espancado até à morte pela polícia bem em frente às câmeras da televisão.

Uma situação social explosiva está se desenvolvendo e ela poderia detonar se fossem cortados os pagamentos de previdência social. Certos comentadores de dentro do CNA estão observando nervosamente os eventos da Primavera Árabe e enxergando-os como uma prefiguração do futuro da África do Sul [9]. Embora seja compreensível que as pessoas do Unemployed People’s Movement e que algumas pessoas da organização de juventude do CNA julguem que o CNA as traiu, será que é esta realmente a verdade?

Desenvolvimento do CNA

Como mencionado acima, o CNA se desenvolveu num período no qual a sociedade africana estava em processo de transição de um sistema econômico tribal, com os africanos produzindo seus próprios bens de consumo diretamente a partir da terra, para um sistema capitalista, no qual homens e mulheres indígenas eram convertidos em trabalhadores assalariados. Todavia, a separação forçada entre o homem tribal e seus meios de produção, nomeadamente sua terra [10], e sua conversão em trabalhador assalariado foram efetuadas mediante a violência aberta e a doutrina do racismo, que tendia a obscurecer as divisões de classe em desenvolvimento. Marx faz a seguinte observação a respeito da separação entre os produtores e seus meios de produção nas colônias:

“O mesmo {o fato de a acumulação primitiva de capital estar em maior ou menor medida consumada na Europa ocidental} não ocorre nas colônias. Nelas, o regime capitalista choca-se por toda parte contra o obstáculo do produtor, que, como possuidor de suas próprias condições de trabalho, enriquece-se a si mesmo por seu trabalho, e não ao capitalista. A contradição desses dois sistemas econômicos diametralmente opostos se efetiva aqui, de maneira prática, na luta entre eles. Onde o capitalista é respaldado pelo poder da metrópole, ele procura eliminar à força o modo de produção e apropriação fundado no trabalho próprio. […] Para tanto, ele demonstra como o desenvolvimento da força produtiva social do trabalho, a cooperação, a divisão do trabalho, a aplicação da maquinaria em larga escala etc. são impossíveis sem a expropriação dos trabalhadores e a correspondente metamorfose de seus meios de produção em capital. No interesse da assim chamada riqueza nacional, ele sai em busca de meios artificiais que assegurem a pobreza do povo.” [11]

A maior parte do trabalho sujo de converter os africanos em trabalhadores assalariados foi levada a cabo pelos britânicos, que eram totalmente claros a respeito do que tinha de ser feito. Após a derrota militar das vários tribos, as autoridades britânicas começaram a expropriar suas terras e a lhes impor tributos a fim de forçá-las ao trabalho assalariado para obter o dinheiro para pagar os tributos [12]. Mesmo após a derrota militar, entretanto, isto se chocava com a resistência tal como descrita por Marx. Por exemplo, a imposição de um imposto de captação anual de 1 libra esterlina, em Natal, conduziu à rebelião dos Zulu em 1906. O Conde de Grey, secretário das Colônias, escrevendo em 1880, colocou a questão quase tão claramente quanto Marx. Ele escreveu:

“As pessoas de cor são geralmente vistas pelos brancos como uma raça inferior, cujos interesses devem ser sistematicamente desrespeitados quando entram em concorrência com os seus próprios interesses e que deveriam ser governadas, sobretudo, tendo em vista a vantagem da classe superior. Para esta vantagem, duas coisas são consideradas especialmente necessárias: primeiro, as instalações devem ser proporcionadas aos colonos brancos pela obtenção da posse das terras anteriormente ocupadas pelos nativos tribais; em segundo lugar, a população kaffir deveria ser obrigada a fornecer um excedente de força de trabalho o maior e o mais barato possível.” [14]

O processo posto em movimento pelos britânicos continuou depois da criação da União da África do Sul e a mais expressiva limpeza de africanos do campo foi efetuada um ano depois da fundação do CNA pela Lei de Terras de 1913 [15].

Os trabalhadores e a luta nacional

Hoje em dia é um axioma marxista que a classe trabalhadora não deve subordinar as suas forças políticas às da burguesia, o que, é claro, inclui as forças da burguesia nacionalista. No que diz respeito à África do Sul, já escrevemos vários textos apontando os perigos de subordinar a luta de classes às demandas da luta nacional. Os acontecimentos desde 1994 confirmaram as nossas previsões. Vários desses textos, que foram escritos em grande parte nos anos 80, mantêm a sua atualidade e uma certa qualidade profética e pretendemos republicá-los em forma de panfleto nos próximos meses. Um exemplo dessa confirmação é um texto publicado em Abril de 1990 em nosso jornal A Voz dos Trabalhadores. Escrevemos que:

“Muitos trabalhadores negros encaram Mandela como o homem que vai libertá-los da exploração e da adversidade. Estão muito enganados. […] Na verdade, os objetivos do CNA não têm nada a ver com os interesses da classe trabalhadora: o objetivo é usar o poder estatal para fomentar uma classe capitalista negra. […] Não interessa à classe trabalhadora sul-africana se colocar como a infantaria dos nacionalistas africanos. [16]

Defendemos como alternativa que os trabalhadores devem lutar por seus próprios interesses independentemente dos burgueses nacionalistas. Isso teria permitido que as questões de classe envolvidas ficassem claras para todos. Ao invés disso, essas questões ficaram obscurecidas por uma cortina de fumaça de liberalismo e de indignação moral frente ao racismo. O resultado é uma grande confusão com discursos sobre traições e projetos para mudar a liderança do CNA, que só serão uma grande perda de tempo.

Grande parte do argumento em apoio à luta nacional, feito por stalinistas e trotskistas, se baseia na visão de que o apartheid era essencial para o capitalismo africano e, portanto, acabar com o apartheid geraria a queda do capitalismo sul-africano. Isso enfraqueceria o capitalismo ocidental e geraria uma crise nos países capitalistas desenvolvidos etc. Ficou demonstrado que essa tese não faz o menor sentido. Se houve alguma mudança, foi o fortalecimento do capitalismo sul-africano com a abolição do apartheid, o fortalecimento do imperialismo ocidental e a confusão ainda maior das questões de classe.

Na base desses argumentos está o debate teórico entre Lênin e outros comunistas como Bukharin, Piatakov e Rosa Luxemburg sobre a questão do apoio às lutas nacionais. Esse debate foi feito tanto antes da primeira guerra mundial como durante essa guerra. Aqueles que defendiam, como Rosa Luxemburg, que na época do imperialismo a questão nacional é uma coisa do passado foram justificados pelos 100 anos de história que se passaram desde que esses debates ocorreram. No entanto, na Terceira Internacional, as Teses sobre a Questão Nacional e Colonial eram um compromisso confuso entre as visões de Lênin, que via a cooperação com a burguesia local como desejável, e aqueles (como M. N. Roy) que defendiam uma luta comunista independente desde o início nas colônias. Essa confusão teria consequências severas para o movimento revolucionário. A ilustração mais trágica dessa confusão ocorreu na China em 1926-27 quando Stalin, seguindo as Teses originais, mas esquecendo que elas também chamavam por um movimento independente da classe trabalhadora, instruiu o Partido Comunista Chinês a se colocar à disposição do partido burguês Kuomintang, de Chiang Kai-chek. Isso resultou no massacre brutal dos trabalhadores chineses em Shanghai e Cantão. [17]

As posições de Lênin foram desenvolvidas no período anterior à primeira guerra mundial, quando ele considerava que uma revolução democrático-burguesa estava na agenda histórica da Rússia. Ele mudou sua posição sobre a natureza da futura revolução russa em abril de 1917, mas nunca seguiu esse posicionamento até as últimas consequências. Se a revolução comunista está na ordem do dia e essa revolução precisa ser internacional, como os bolcheviques admitiram abertamente, as revoluções nacionalistas burguesas só podem obstruir e enfraquecer a luta pelo comunismo.

O apoio de Lênin aos movimentos pela autodeterminação nacional na Europa minou o programa da emancipação da classe trabalhadora. Isso se tornou mais confuso ainda nos debates da Terceira Internacional, quando Lênin defendeu que os movimentos nacionais nas colônias deveriam ser apoiados para enfraquecer o imperialismo dos países colonizadores. Nesse posicionamento, ele estava seguindo sua obra anterior, Imperialismo, Estágio Superior do Capitalismo, onde defendia que:

As possessões coloniais por si só dão aos monopólios uma garantia completa contra qualquer eventualidade na concorrência com seus competidores. [18]

Ele defendeu que as colônias eram uma fonte fundamental dos “superlucros” que os poderes imperialistas usavam para subornar os seus trabalhadores no intuito da manter a paz social. Com esses enormes superlucros (já que são obtidos por fora e acima dos lucros que os capitalistas arrancam dos trabalhadores dos seus próprios países) é possível subornar os líderes dos trabalhadores nos países avançados de mil maneiras diferentes. [19] Cortar essa fonte de superlucros, defendia Lênin, precipitaria uma crise e tornaria mais fácil a revolução nos países centrais do capitalismo.

Nesse caso, a descolonização não produziu a crise nos países centrais que Lênin previra com tanta confiança. Isso se deve ao fato de o capitalismo ser um sistema mundial, que extrai e distribui mais valia mundialmente, e a substituição de regimes coloniais burgueses por regimes burgueses locais não altera de nenhuma forma essencial o sistema como um todo.

Lênin também defendia que as revoluções burguesas nas colônias ocorreriam ao mesmo tempo que a revolução comunista nos países centrais e que as primeiras sustentariam de alguma maneira a última:

A revolução social só pode ocorrer numa época de guerra civil do proletariado contra a burguesia nos países capitalistas avançados e de toda uma série de movimentos revolucionários democráticos, incluindo os movimentos de libertação nacional, nas nações oprimidas, pouco desenvolvidas e atrasadas.[20]

Pelo contrário, a revolução comunista deve ser uma revolução mundial e a revolução nacional burguesa jamais poderia dar suporte à revolução mundial. A revolução mundial teria que derrubar as revoluções burguesas nacionalistas se elas ocorressem ao mesmo tempo.

Os erros de Lênin e da Terceira Internacional deixaram uma herança venenosa que vem sendo assumida forçosamente pela ala esquerda da burguesia, nomeadamente a contra-revolução. No caso da África do Sul, os argumentos de uma aristocracia proletária branca, a teoria dos superlucros indo para as metrópoles dos países capitalistas e a ideia de que uma revolução nacionalista burguesa nos países subdesenvolvidos sustentaria a luta dos trabalhadores nos países centrais foram todos evocados para justificar a absorção das lutas dos trabalhadores em uma luta nacionalista.

Hoje, a globalização crescente do capital tornou o “Estado Nacional” nacional apenas no sentido de ser um Estado dominado por uma burguesia de uma certa nacionalidade. Em seus aspectos fundamentais, ele existe como agente do capital internacional e das alianças imperialistas em que se encontra. Isso pode ser observado no fato de a ascensão ao poder do CNA ter sido facilitada pelo capital americano e europeu por meio de sanções financeiras e pressão internacional. Após a remoção da ameaça de um avanço russo na África do Sul em 1989, essa pressão se tornou irresistível.

O CNA e o nacionalismo africano em geral se veem completamente desacreditados após 18 anos no poder. O que é necessário agora é uma ruptura clara com as forças do nacionalismo e seus aliados, o Congresso Sul-Africano dos Sindicatos e o Partido Comunista Sul-Africano. Essas forças devem ser reconhecidas como parte da frente burguesa em oposição à emancipação da classe trabalhadora. Lutas futuras deverão se dar fora e contra essas organizações. Elas precisam se unir para além das divisões raciais e lutar por demandas de classe. Por fim, elas precisam estar unidas com as lutas dos trabalhadores a nível a mundial e se direcionar rumo à derrubada das relações sociais capitalistas e ao estabelecimento de um mundo comunista [21].

Notas

[1] Nota dos tradutores: A União da África do Sul, o predecessor histórico da atual República da África do Sul, entrou em vigor em 31 de maio de 1910 com a unificação de quatro colônias britânicas antes separadas: Cabo, Natal, Transvaal e Rio Orange. Esta União foi estabelecida pelo Act of Union (ou Lei de União), também conhecido como South Africa Act (ou Lei da África do Sul), promulgado em 20 de setembro de 1909. O South Africa Act garantia “o domínio da minoria branca sobre nativos (africanos), asiáticos (sobretudo indianos) e sobre ‘pessoas de cor e outras raças mestiças’. […] Sob as disposições da Lei, a União continuou a ser território britânico, mas governada localmente pelos afrikaners ou boers” (Cf. mais detalhadamente, em inglês, aqui: http://www.sahistory.org.za/liberation-struggle-south-africa/constructing-union-south-africa-negotiations-and-contestations-1902).

[2] Nota dos tradutores: A Guerra dos Boers ou Guerra Anglo-Boer, também conhecida como Guerra Sul-Africana, foi travada de 1899 a 1902. Nesta guerra o Estado Livre do Orange e a República da África do Sul (ou Transvaal) – as duas repúblicas sul-africanas dos boers – como eram chamados os colonos sul-africanos de origem, principalmente, holandesa – opuseram-se ao domínio do Império Britânico na região. O conflito foi causado, sobretudo, por uma disputa pela exploração de ricas jazidas de ouro recém-descobertas (Cf. mais detalhadamente, em inglês, aqui: http://www.sahistory.org.za/south-africa-1652-1806/south-african-war-1899-1902-second-anglo-boer-war).

[3] Nota dos tradutores: O Black Economic Empowerment (BEE) pode ser descrito como uma política de representação dos negros sul-africanos no setor econômico, como se pode conferir aqui: http://economico.sapo.pt/noticias/a-politica-do-black-economic-empowerment_40525.html. Os objetivos do BEE são “que, pelo menos, 25% do capital das grandes e médias empresas seja transferido para as mãos de sul-africanos negros, mas também que as admissões privilegiem os candidatos negros em detrimento dos brancos com as mesmas habilitações acadêmicas e profissionais. O mesmo acontece com os fornecedores. […] Por enquanto, a medida não é ainda totalmente obrigatória. Cada sector tem uma quota e um calendário próprios, mas a verdade é que quem não aderir, dificilmente poderá contar com a ajuda do Estado em eventuais futuros negócios ou participar em qualquer concurso público” (cf. o link acima). Informações mais detalhadas podem ser encontradas, em inglês, aqui: http://www.southafrica.info/business/trends/empowerment/bee.htm#.UqkaIfRDuyp.

[4] Cf. o Financial Times de 05 de setembro de 2011 e de 28 de outubro de 2011.

[5] Financial Times (12 de novembro de 2011).

[6] Cf. aqui: http://cameronduodu.com/uncategorized/south-africas-tunisia-moment-will-occur-in-2020-says-moeletsi-mbeki.

[7] Nota dos tradutores: Algo como Movimento dos Trabalhadores Desempregados.

[8] Cf. a citação de Ayanda Kota em Counterfire: http://counterfire.org/index.php/articles/international/15408-anccentenary-a-display-of-elite-power.

[9] Cf., por exemplo, M. Mbeki, “South Africa. Only a matter of time before the bomb explodes”. Mbeki é o consultor de mídia do CNA. Cf.: http://cameronduodu.com/uncategorized/south-africas-tunisia-moment-will-occur-in-2020-says-moeletsi-mbeki.

[10] Sob o sistema tribal bantu a terra era ocupada pela tribo. A propriedade individual da terra não existia antes de ser instituída pelas autoridades coloniais.

[11] K. Marx, Capital, Volume 1, Capítulo 33. Nota dos tradutores: O mesmo trecho encontra-se aqui: Karl Marx. O Capital: crítica da economia política. Livro 1: o processo de produção do capital. tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013. pp. 835-836. Utilizamos a tradução de Rubens Enderle como orientação para traduzir este trecho.

[12] Nota dos tradutores: Cf. o livro de João Bernardo, Democracia Totalitária: teoria e prática da empresa soberana. Disponível, por exemplo, aqui: http://bpi.comze.com/php/livrosadd/democracia_totalitariajoao_bernardobpi.rtf (pp. 38-42).

[13] Nota dos tradutores: Kaffir é um termo pejorativo, utilizado à época pelos colonos brancos para se referir à população negra nativa.

[14] Citado em The Political Economy of Race and Class in South Africa, B. M. Magubane, Monthly Review Press.

[15] Nota dos tradutores: Para maiores informações, consultar este link: http://www.sahistory.org.za/topic/natives-land-act-1913.

[16] Para referência veja o Workers Voice nº 51.

[17] Para uma descrição desses acontecimentos vejam o livro de H. Isaaac, The Tragedy of the Chinese Revolution.

[18] Imperialism, the Highest Stage of Capitalism. Peking Foreign Language Press p. 98.

[19] Ibid, Prefácio às Edições Francesa e Alemã.

[20] Lenin, Collected Works, Volume 23 p. 60.

[21] Por comunismo queremos dizer um sistema de produção global voltado para as necessidades humanas e controlado pelos trabalhadores por meio de conselhos de trabalhadores. Esse conceito não tem nada a ver com os sistemas capitalistas de Estado, erroneamente chamados de comunismo, que existiram na Rússia e na China.

Tradução e notas: Fagner Enrique, Grouxo Marxista e Uli.

Fonte: Passa Palavra.

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