Companheiros e companheiras

Por Paulo Pappen, para Desacato.info.

Dizem que companheiro vem de “com pão”. Companheira também. Aliás, muitas vezes quem faz o pão é a companheira. Em resumo, companheiro e companheira são pessoas que vêm com pão e que, na melhor das hipóteses, compartilham ele contigo.

Muitas vezes, é o pão que o Diabo amassou. O Diabo, no caso, sendo companheiro.

Quer dizer que companheiros e companheiras não é invenção do PT, que é apenas uma das tantas padarias. Quer dizer também que esse negócio de compartilhar vem de muito antes da tal “redes sociais”. Isso é do tempo em que pão era uma metáfora, uma imagem de alívio: a pessoa que chegava com um pão pra dividir contigo e, já pensou? trazia inclusive a chimia.

Graças aos fermentos sociais, a ideia inicial cresceu e companheiro e companheira passou a ser qualquer pessoa parceira, e muitas vezes as melhores parcerias vêm sem pão nenhum.

Existem três tipos de companheirismo.

O primeiro é o tipo clássico: pessoas que compartilham o pão entre uma tarefa e outra: operários e operárias, colonas e colonos, caixeiros-viajantes e caixeiras-viajantes. Colegas de trabalho, em suma.

O segundo é o tipo romântico: pessoas que compartilham um ideal político: colegas de partido, ou anárquicos e anárquicas. Gente de esquerda, de agremiações internacionalistas. Pode fazer o teste aí: o pessoal de direita nunca se chama de companheiro e companheira. Nem pra se xingar.

O terceiro tipo de companheirismo é o moderno, ou pós-moderno, que já foi uma forma moderna de ser moderno: são pessoas que vivem juntas e no princípio faziam sexo, mas não são casadas em igreja nem em cartório nem pensam em noivar – e preferem ser chamadas de  companheiros e companheiras do que de amásios e amásias, amancebados e amancebadas, concubinos e concubinas.

Às vezes os tipos se somam: por exemplo o tipo clássico pode muito bem se ajuntar com o romântico, e o tipo romântico pode muito bem se amancebar com o moderno. E há quem diga e defenda com empolgação que, para ser uma pessoa decente neste mundo, é preciso ser três em uma: ser companheiro e companheira no trabalho, no movimento político e no lar.

Mas, se tem uma característica comum a todos os tipos de companheiras e companheiros, essa característica é gostar de pão. Branco, preto, integral ou de milho, a diferença vem de como se entendem as metáforas.

Paulo Pappen é de Caxias do Sul, torce pro Caxias e gosta de literatura, anarquia e marcenaria.

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