Como vivem os assexuados, num mundo ditado pelo sexo?

Cartaz do filme Amarelo Manga

Por Maurício dos Santos, para Desacato.info.

‘’O ser humano é estômago e sexo’’, aponta em letras amarelas a capa do filme nacional “Amarelo Manga”, título que logo me chama atenção quando entro na sala do apartamento da dona de intensas emoções e um coração aparentemente acelerado.

O dia, típico de um verão egoísta que custa a querer ver despedida, apresenta um calor eletrizante. Flávia Buss me recebe em seu apartamento, no Campeche, regada a suco de maracujá, pois o que ela mais precisa é se acalmar. Enquanto o sol brilha na janela, e o ar-condicionado articula uma temperatura serena para a conversa, Flávia oferece-me de tudo: cigarros pretos e finos a mousse de limão. A ansiedade é a locomotiva dela.

Flávia quer tudo ao mesmo tempo. É nessa hora que o entrevistador aproxima-se da missão de psicólogo. Recomendo que ela se desligue de tudo. Quero ouvi-la falar daquilo que “menos resiste na vida’’: o sexo bem-feito.

“Estou deprê porque meu ex me deixou. Acredita que não transávamos mais?’’, suscita Flávia à importância que confere ao forte desejo sexual que sente, diariamente. “A partir do momento em que o filho de sete anos dormia no nosso meio, o relacionamento desandou. Sem transa nada anda’’, revela a consultora de moda, que aos 37 anos insiste em dizer que escolhe o namorado que quer pelo prazer que ele a leva.

Pessoais assim, que vivem na busca pela satisfação sexual a todo custo, não fazem parte de comunidades virtuais divulgadas no Brasil, em redes sociais como o extinto Orkut, desde 1997. Com 1.224 membros, uma das primeiras páginas sobre o tema,  que apresenta a pergunta “Sexo, pra quê? Vivemos sem!”, estendeu-se para outras duas comunidades. Juntas elas somavam, somente no ano 2000, mais de 5.200 integrantes, apenas brasileiros.

Físico x emocional: o duelo

Diferente de Flávia no físico – carrega 121 quilos em 1,72 de altura, e também no comportamento, G. S. é jornalista e organizador de eventos. Vive aos 33 anos, no município de São José, sem sexo por opção.

“Costumo considerar que meus únicos dois namorados foram mais amigos meus do que parceiros sexuais”, define S., que também se considera seletivo quanto às escolhas afetivas. Homossexual assumido, acredita que o fato de ser obeso afasta-o de possíveis casos amorosos.

Sair para se divertir e voltar para a casa sozinho é rotina para o jovem jornalista. Ele sente que alguns se aproximam com interesses profissionais e materiais, e que o objetivo de construir uma relação duradoura, para muitos desses, é visão secundária. “Querer estar com alguém é inevitável. Quem consegue viver sozinho? Mas transar por transar não é comigo!”, completa ele.

Alternativas para o prazer

“Há quem procure os exercícios e o cuidado com o corpo por questões estritamente de saúde, e os que buscam para ficar melhor e ser desejado” explica a técnica em método pilates e massoterapeuta Vanessa Portanova, do bairro Trindade. Para ela, tanto as mulheres continuam dominando as aulas e as sessões de massagem, quanto os homens mostram mais sua vaidade para o físico.

“Se fosse no início, quando eu iniciei com a clínica, pode ser que as pessoas estavam mais sexuais. Mas sabe que, mesmo nessa era veloz do Instagram, onde tudo é imagem, onde o pilates precisa ser tão mecânico e robótico, e os alunos às vezes chegam esperando um resultado rápido no corpo, eu vejo vários pacientes me dizendo que querem ficar sozinhos?”, reflete a profissional.

A saúde é a principal justificativa do movimento Aven (Asexual Visibility and Education Network). Em março deste ano, em páginas virtuais oficiais da Aven, foram divulgados dados que apontavam que mais de 30 mil membros já entraram para o grupo. É a maior comunidade de assexuados do mundo, revelou a mesma pesquisa.

Trocar o sexo por uma terapia é uma alternativa. Therashy Oggino, de 46 anos, é divorciada e atende em sua clínica de psicologia pacientes individuais, casais e até grupos femininos, no Campeche. “A libido está ligada a razões psíquicas, orgânicas e biológicas. Geralmente, atendo indivíduos com problemas sexuais. Muitas das respostas estão ligadas ao núcleo familiar, questões familiares não compreendidas e resolvidas. Porque para se libertar, o ser humano precisa conhecer-se melhor, entender sua origem, perdoar e descobrir novos caminhos para viver, que não sejam aqueles que o fazem sofrer”, conta a psicóloga clínica e institucional.

Therashy analisa que, atualmente, a maioria dos que não praticam sexo é composta por pessoas casadas. “Não apenas as pesquisas recentes nos mostram isso, como é o que eu vejo em consultório. Nossa atenção não pode se resumir só nos assexuados solteiros. Muitos já casados estão deprimidos, calados, sem respostas ou ajuda, e não entendem a razão de não sentir desejo sexual, ou simplesmente não precisarem se relacionar sexualmente sempre”, explica a terapeuta.

Interessada por discutir mais o tema, e tentar aliviar a dor de quem sofre tanto por isso, ela vai além. “A expectativa por uma vida sexual ativa e frequente deixa muitas vítimas. Ninguém nasce sabendo tudo. Mesmo com uma juventude tão precoce e vaidosa, influenciada pelo capitalismo doentio desde o nascimento, o brasileiro não é e não será um boneco sexual o tempo todo. As pessoas pensam que o casamento perfeito é aquele onde a libido vai perdurar sempre: companheirismo não é isso”, manifesta a psicóloga.

Uma nova mulher, mas sem sexo

Sair para beber cerveja e dançar com amigos e amigas é o que Elizabete Baks, 57 anos e moradora da Praia Brava, mais gosta de fazer. Há poucos meses, desvinculou seu nome do sobrenome Bueno, via processo judicial. Foi um período de tortura física e psicológica, que ele passou durante os 21 anos de união. “Ele bebia e me batia. Não dá pra querer ir para a cama com um monstro desses”, desabafa Elizabete.

Quem a vê sorridente nas salas de aula, nas horas de atenção que oferece aos alunos, e apaixonada pela virada que promoveu no próprio destino, pode não imaginar que dentro da professora de Educação Especial ainda persista algumas mágoas. “Nos três últimos anos ele não me encostou senão para me bater”, conta.

Pode ser um desafio estar há mais de sete anos sem se envolver com ninguém. No entanto, o momento que pode ser encarado como uma repressão à libido, é também de extenso aprendizado. E por que não preparo? No final do ano passado, Bete, como é chamada pelos amigos, manifestou a um senhor solteiro e também divorciado que não pretende entregar-se tão fácil assim. “Acredita que ele quase me beijou, quando me deu carona até em casa após um churrasco? Chegou pertinho, mas eu virei o rosto”, sinaliza.

O sinal de interesse aumentou a autoestima da educadora, mas ela não se entrega a ele. “Beijar na boca e fazer outras coisas eu nem penso. Tem coisa melhor e segura”, confirma.

 O fim do sexo culminou o final de tudo

Quem adora flertar é Gustavo Vieira. Quando veio morar sem os pais, no bairro Campeche, e estudar comércio exterior, começou a colocar em prática as muitas taras que alimenta. Com 24 anos, não conseguiu se livrar dos fetiches que tem. “É a minha terapia diária. Qualquer tipo de relação para mim, até uma simples amizade, precisa ter prazer”, assume o jovem.

Gustavo conta que já terminou alguns namoros em razão dos parceiros não possuírem o elevado apetite sexual que o acompanha. “A falta daquilo custa o fim de tudo. Para mim, negar fogo é iniciar o término”, avisa ele, que confessa não conseguir entender alguém que não transa.

Durante o carnaval, o estudante conheceu uma jovem por quem ele se interessou namorar. Alisha (apelido da DJ), era assumidamente assexuada. “Uma mulher incrível. Adulta, inteligente, artista! Mas não rolou o namoro”, diz, em tom triste. Quando indago mais, ele despista e encerra o assunto. “Não conseguiria conviver por muito tempo sem transar”, insiste. Muitos pensam como Gustavo, mas a assexualidade implica nossas subjetividades. A sexualidade é mesmo reveladora.

Maurício dos Santos é jornalista e Professor de Redação. Pós-Graduação: Marketing (2013) e Arteterapia (2015). Autor do livro: Acima da Cabeça só existe o Coração.

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