Como seria um “apartheid nordestino”?

Publicado em: 27/09/2011 às 18:28
Como seria um “apartheid nordestino”?

Por Fernando Soares Campos.

Título original: “E se Golias Viesse?” (revisado)

Li no site do Observatório da Imprensa nota intitulada “Hamas usa sósia de Mickey em campanha contra Israel “. Militantes do Hamas estariam usando uma réplica do ratinho símbolo da Walt Disney Company “para divulgar mensagens da dominação islâmica (sic) e da resistência armada para o público infantil em um programa da emissora de TV al-Aqsa chamado Pioneiros do Amanhã “. A imitação do Mickey se chama Farfour.

Este foi o trecho da matéria que mais chamou a minha atenção:

“O programa conta também com a participação de crianças, cantando hinos sobre a luta contra Israel – que há muito tempo vem reclamando que os canais palestinos incitam ódio ao povo israelense. David Baker, porta-voz do primeiro-ministro israelense Ehud Olmert, afirmou que `não há nada cômico sobre ensinar novas gerações de palestinos a odiar israelenses´. Mark Regev, porta-voz do ministério do Exterior, acusou os palestinos de não assumir o compromisso de parar de incitar ódio contra Israel. `As crianças aprendem que matar judeus é algo bom´, diz.”

A contrapartida

Em 2006 foram amplamente divulgadas na internet fotos de crianças israelenses escrevendo mensagens nos mísseis que seriam lançados contra as posições palestinas no Líbano. Crianças e adolescentes, usando batom e lápis de desenho, aparentemente descontraídas, escreviam mensagens nos petardos e conversavam com os soldados. Ao lado, seus pais acompanhavam a visita ao front, provavelmente orgulhosos de verem seus filhos se instruindo na arte da matar, indiferentes à dor que possam causar.
Baseado naquelas fotos, acredito que qualquer porta-voz do Hamas poderia dizer que ali “as crianças aprendem que matar palestinos é algo bom”. Pelo visto, crianças de ambos os lados são vítimas dos senhores do ódio e da intolerância, da ganância e da prepotência.

A globalização do medo

Hoje, o conflito no Oriente Médio é tratado pela grande imprensa brasileira apenas através das notícias frias, relatando as atrocidades, porém geralmente transformando vítimas em culpados. Nota-se que os intelectuais e mesmo artistas, escritores e figuras notórias em geral evitam abordar o assunto em artigos de opinião.

Em 2003, para editar um documentário que estava produzindo para exibição no 3º Fórum Social Mundial, o cineasta-publicitário Kais Ismail solicitou apoio de uma universidade da Grande Porto Alegre, a qual lhe cedeu as instalações e equipamentos de uma ilha de edição. O documentário se intitularia “Palestina em lágrimas”. Ao término do trabalho, Kais pediu autorização da universidade para inserir no vídeo um agradecimento à direção da instituição; esta, no entanto, respondeu que colaboraria, mas negou-se a aparecer como colaboradora.

Em 2004, Mohamad, brasileiro-palestino, 22 anos, primo-irmão do Kais Ismail, foi assassinado na Palestina com 30 tiros de M-16 (metralhadora americana), disparadas por sionistas estrangeiros que obedecem às ordens dos comandantes israelenses. Mohamad foi agredido de tal forma que o seu braço esquerdo foi decepado a tiros. Kais foi entrevistado por uma emissora de televisão brasileira. A primeira pergunta do entrevistador foi: “O seu primo era terrorista?”, ao que o entrevistado respondeu: “O meu primo, certamente, não era um garoto que corria a varrer as ruas para que os tanques de guerra passassem e arrasassem tudo, pelo contrário, o que ele fazia, era tentar barrar estes tanques e defender sua família, desde criança, atirando pedras.”

O publicitário Kais ainda nos informa: “No último programa do Fantástico (Rede Globo) do mês de novembro de 2004, foi exibida uma matéria que, como num passe de mágica, fez com que toda a imprensa não tocasse mais no assunto e curiosamente procurei agora, há pouco, no site do Fantástico a matéria do dia 28.11.2004 e não encontrei nada”. Sumiu! Escafedeu-se!

Já imaginou uma “Faixa do Piauí”?

Aqui neste Brasil de todo mundo, a maior miscigenação do Planeta, a gente fica indignado com o que fazem com as populações pobres, que, nos grandes centros urbanos, são empurradas para os morros e alagados, onde se aglomeram em favelas que não oferecem as mínimas condições de habitabilidade. São ambientes insalubres, onde falta de tudo: segurança pública, escolas, postos de saúde, áreas de lazer e até mesmo acesso independente às residências. Também acompanhamos as marchas dos sem-terra, forçando a barra para ocupar latifúndios improdutivos, apesar de formados por terras férteis, com muita água e estradas para o escoamento das produções.

Já ouvi muita gente do povo perguntando sobre a guerra no Oriente Médio, pessoas que dizem não entender como é que se briga tanto por uma terra que, em grande parte, não passa de desertos aparentemente inóspitos. O nosso povo é assim mesmo, está acostumado a “ver” a fartura de terras produtivas em nosso país, mesmo que verdadeiramente concentrada nas mãos de poucos.

Ainda bem que o nosso movimento dos sem-terra e sem-teto não é formado por poderosos fascistas apoiados pelo poder global dos EUA e UE. Imaginemos que esse poder resolvesse fundar em terras brasileiras um estado para algum dos seus povos protegidos. Então, baseados na Carta de Pero Vaz de Caminha, ou mesmo no Tratado de Tordesilhas, reivindicasse, por exemplo, o Nordeste Brasileiro para fazer tal assentamento e fundação do novo estado. A primeira providência, creio, seria criar a “Faixa do Piauí”, onde seria concentrado o povo autóctone, romeiro do Padre Cícero e devoto de Frei Damião. Duvidam que isso possa um dia vir a acontecer?! Pois não duvidem! Lá na Palestina tem um povo encurralado vivendo nessas condições.

Como seria o “apartheid nordestino”?

Lá no Oriente Médio a cidade de Belém, sede da Natividade, é hoje uma cidade sitiada e, a mau exemplo da fronteira dos EUA com o México, cercada de muros de oito metros de altura. Aqui, eles cercariam a cidade de Juazeiro do Norte, a “meca nordestina”, onde os romeiros reverenciam o Padim Ciço.

Israel instituiu quatro tipos de carteiras de identidade para palestinos: os de Ghazaa não podem sair da Faixa, os da Cisjordânia não podem vir a Jerusalém, os de Israel não podem entrar nos Territórios Palestinos Ocupados e os do Vale do Jordão também não podem sair dessa área para visitar as demais regiões. Nesse caso, o apartheid nordestino seria mais ou menos nos seguintes moldes: cabeça-chata do Sertão não poderia visitar o Agreste nem a Zona da Mata, exceto na época do corte de cana; empregados domésticos em Recife, para se dirigirem ao trabalho, seriam obrigados a usar os velhos túneis que os holandeses construíram durante a ocupação, no século XVII.

Para manter o terror, caças F-16 Fighting Falcon, toda noite, sobrevoariam a “Faixa do Piauí”, roncando suas turbinas, lembrando o desfile de tanques do tipo Merkava Mk 3 durante o dia.

Mas quero que todos saibam que nós, nordestinos, somos muito bons no uso de estilingue. E pedra é o que não falta lá no Piauí. Além disso, religioso como nosso povo é, tá assim de Davi no Nordeste!

Pelo sim, pelo não, estão avisados!

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Ilustração: AIPC – Atrocious International Piracy of Cartoons

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