Como se pode falar em alienação da própria saúde?

Foto: Reprodução/Blog Café com Sociologia.

Por Douglas Kovaleski, para Desacato. info.

O texto dessa semana aborda o detalhamento da teoria que venho desenvolvendo sobre a alienação em saúde. Isso se explica devido ao fato de que quanto mais procuro o esse tema na literatura, mais me convenço de que ele tema não está suficientemente desenvolvido, apesar da sua relevância para a compreensão de uma série de fenômenos que se dão no cotidiano da classe trabalhadora e vão muito além da saúde, incluindo a vida como um todo, o cotidiano e as relações sociais estabelecidas.

Segundo Marx, em seu livro “Trabalho assalariado e capital”, escrito em fins de março de 1849 a partir de notas da segunda quinzena de 1847, o trabalho é a atividade vital do trabalhador, a própria manifestação da sua vida. Entretanto, o trabalhador é obrigado a vender seu trabalho, sua atividade vital, para prover sua existência, para sobreviver. A regra é: trabalhar para viver. O trabalhador não consegue perceber o seu trabalho como parte da sua vida, e sim como um sacrifício. O produto da sua manifestação vital não é o objetivo de sua atividade, estabelece-se portanto, o suprassumo da alienação, da separação e da desvinculação do homem com a sua própria vida. O que o trabalhador produz para si não é o prédio, a casa, a roupa, o sapato que ele entrega ao seu patrão, mas o salário que ele recebe.

O que o trabalhador realiza não pode ser identificado como manifestação da sua vida, afinal sua vida só começa quando seu trabalho termina. O tempo de trabalho é tempo de angústia, de opressão e de sofrimento, o tempo de vida é o tempo da comida, da diversão da vida com seus pares. Vida essa condicionada pelo trabalho, pois não se pode gozar de tempo livre sem saber até quando terá seu emprego. Não se pode desfrutar os tempos com a família ou amigos, se não houver renda suficiente, se não houver educação, se não houver segurança e se não houver acesso a saúde. A vida humana se diferencia da vida dos animais pela sua preocupação com o futuro, com a projeção do amanhã em curto, médio e longo prazo. Por exemplo, um casal em idade fértil, que não sabe se terá rendimentos nos próximos anos, conscientemente evita a reprodução, pois seu futuro está em risco. Da mesma forma, a dificuldade em acessar os estudos, seja no primeiro grau, nível secundário ou no nível superior colocam o trabalhador em condição de contingência.

No Mesmo livro Supracitado, Marx afirma que “(…) o trabalho não produz somente mercadorias, ele produz a si mesmo e também ao trabalhador como uma mercadoria, e isso na medida em que produz, de fato, mercadorias em geral.” Confirmando a tese da reificação, Marx, em “O Capital” afirma que “O trabalho como tal, em sua simples capacidade como atividade produtiva com propósito, tem relação com os meios de produção, não em sua forma social, mas antes, em sua substância concreta, como material e meios de trabalho.

Essa lógica impõem uma valorização do mundo das coisas e uma desvalorização do mundo das pessoas, o que traz, no decorrer do desenvolvimento capitalista, marcado pelas crises cíclicas e por uma intensificação das formas de exploração, consequências dramáticas para a vida humana e para a saúde. Essa desvalorização humana está muito presente nas abissais desigualdades vividas pela classe trabalhadora na atualidade. Onde uma ínfima parcela da população usufrui de bens e serviços luxuosíssimos, verdadeiros exageros se considerarmos as necessidades humanas, em detrimento da destruição de vidas causada pelas condições de trabalho precárias, pela falta de saneamento básico, de vacinação de teto para morar, entre tantas outras necessidades básicas humanas.

O desinvestimento nas políticas públicas de saúde observado nos dias atuais, no Brasil e em vários outros países mundo afora, constituem-se em mais uma evidência dessa desvalorização do humano. Desinvestimento esse que rapidamente trouxe uma queda nos indicadores de mortalidade infantil, violência, doenças infecto-contagiosas e doenças de cunho psicossocial. Quadro esse que, do ponto de vista do capital, não será alterado tão cedo, uma vez que o exército de reserva é imenso e, para cada trabalhador que padece de algum agravo em saúde, existem centenas esperando uma oportunidade para serem, “pelo menos”, explorados. Entretanto, essa é a correlação de forças atual e pode ser alterada por meio da formação política da classe trabalhadora, da atuação em partidos políticos de esquerda, em sindicatos e associações de cunho crítico ao capital.

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Douglas Francisco Kovaleski é professor da Universidade Federal de Santa Catarina na área de Saúde Coletiva e militante dos movimentos sociais.

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