Como aconteceu Outubro III – A Revolução de Fevereiro

Por Leonardo Cecchin, para Desacato.info.
Nos dois artigos anteriores [1], pudemos entender como a divisão da sociedade em classes, e a consequente exploração da classe trabalhadora pela burguesia, ocasionaram a primeira grande explosão social do século XX, com a primeira revolução russa de 1905. Apesar de sua férrea resistência, o movimento grevista de massas foi derrotado pelo desgaste e a traição da burguesia – que naquele momento, pelo caráter democrático da revolução, estava aliada ao proletariado – que ocasionou uma forte repressão do exército na cidade de Moscou. Um forte período de reação se instalou, com o governo perseguindo os revolucionários e colocando suas organizações na clandestinidade. Nesse período profundos debates no POSDR marcaram o desenvolvimento da fração bolchevique como o partido de vanguarda da classe trabalhadora russa, que com o início da primeira guerra mundial, voltava a se manifestar.
A guerra de 1914 traça profundas divisões entre a social-democracia internacional. Tirando o grupo de Rosa Luxemburgo [2], todos os “socialistas” alemães preservam seus vínculos com suas respectivas burguesias, solidarizando-se com elas neste conflito bélico. A II Internacional Socialista entra em falência quando seus dirigentes colocam sua solidariedade nacional com o Estado acima da solidariedade internacional com os operários dos demais países.
Em fevereiro de 1915, grupos de bolcheviques emigrados se reúnem numa conferência em Berna, onde se pronunciam  em favor da resolução que defende “converter a guerra imperialista em guerra civil“, e comentam sobre a Internacional:
“Que os oportunistas preservem suas organizações legais a preço de traírem todas as suas convicções; os sociais-democratas vão utilizar seu espírito organizativo e seus vínculos com a classe operária para criar formas ilegais de luta, tendentes ao socialismo e à maior coesão proletária e que possam responder à crise. Vão criar tais formas de luta não para combater junto com a burguesia patriótica de seu país, mas para marchar lado a lado com a classe operária de todos os países. A Internacional proletária não sucumbiu, nem o fará. As massas operárias criarão uma nova Internacional, mesmo com todas as dificuldades.”

Com sua política independente e mantendo os princípios do socialismo, os bolcheviques pouco a pouco vão conquistando seu espaço entre a classe operária. Assim, no ano de 1917 se inicia um novo período. A guerra mundial tirou o véu do capitalismo acentuou em todos os países da Europa suas contradições, resultando num colapso econômico e político. Os três anos de carnificina nos campos de batalha já geram rebeldia em todas as trincheiras, e como Lênin havia previsto, sintomas de uma nova agitação revolucionária estavam surgindo.

O Império Czarista é o elo mais frágil da corrente imperialista. Durante os primeiros anos da guerra, assim como naquela contra o Japão, a Rússia coleciona desastres militares. A partir de 1916, as demandas da guerra vão desorganizar toda a economia do país. Os transportes sobrecarregados são caga vez mais inseguros. A alimentação é escassa, para a população e o exército. Os preços sobem rapidamente. O regime sofre um golpe brutal do inverno de 1916-17: a disciplina das tropas, que sofrem mais baixas pelo frio e a fome que do próprio fogo inimigo, se fragiliza. No dia 13 de fevereiro, 20 mil operários organizam uma manifestação contra a matança; no dia 16, o pão é racionado e os estoques de carvão se esgotam; no dia 18 os operários da fábrica Putilov são todos demitidos; no dia 19 os armazéns são saqueados. No dia 23 [3], as operárias têxteis de Petrogrado iniciam as primeiras manifestações de rua pelos direitos das mulheres trabalhadoras. A greve se espalha espontaneamente no dia 24, as palavras de ordem contra a guerra e a fome tomam as ruas. Ocorrem os primeiros disparos contra manifestantes. Nas manifestações do dia 25, os soldados se negam a disparar e se juntam às manifestações, ocasionando motins generalizados por todo o dia 26.

No dia 27 de fevereiro, a maior manifestação até o momento se reúne e marcha em direção ao Palácio Tauride, onde a Duma (parlamento) se reunia. Um mar de operários armados coloca abaixo os portões do grande palácio luxuoso e toma conta do espaço. A bandeira vermelha tremula sob a cúpula. Em lados distintos do Palácio se reúnem dois grupos: de um lado se organizavam as eleições para o Soviete da capital, do outro, deputados da oposição liberal, juntamente com os mencheviques, formaram um “governo provisório”. O Czar não oferece resistência e abdica do trono.

Enquanto o governo provisório promulga os decretos que dão fim ao antigo regime, libertando os presos políticos e dando liberdade sindical. Depois de anunciar a convocatória de uma nova Assembleia Constituinte, o Soviete organiza as comissões de bairro, de abastecimento e militar. Pressionado pelos operários, lança o Prikaz nº1 [4], que desintegrará o exército e romperá com a disciplina militar. Desta forma, durante os meses seguintes, o governo provisório perde o controle da única força que teria disposto.

Mas o grande embate estava longe de terminar. A comida era escassa, a inflação estava na casa dos 1.000%, os campos eram saqueados e queimados, e o pior: o governo provisório colocara à mostra seu caráter burguês: manteve a Rússia na guerra como forma de se aproximar das potências imperialistas. Num feito um tanto curioso, Lênin que estava na Alemanha, é ajudado a regressar à Rússia pelo próprio inimigo, pois este pensou que enviando o revolucionário de volta, o país se desestabilizaria e isso daria vantagem para as forças alemãs. Lênin regressa ao país com suas Teses de Abril [5], onde defende a nacionalização dos bancos, o fim da propriedade privada e que todo o poder seja destinado aos sovietes, política antagônica à do Partido Bolchevique que estava na direção do social-nacionalista Stálin, que queria compor o governo provisório.

Os problemas mais decisivos, inclusive o do poder, vão surgir como consequência daquele que originou a insurreição: a guerra.

No próximo texto, entenderemos como aconteceu a Revolução de Outubro, que deu origem ao primeiro Estado Operário da história.

NOTAS:

1- Parte 1:http://desacato.info/como-aconteceu-outubro-i-a-situacao-russa-e-a-revolucao-de-1905/ e Parte 2:http://desacato.info/como-aconteceu-outubro-ii-o-periodo-de-reacao-e-a-estruturacao-do-partido-bolchevique/

2- A Liga Espartaquista, que organizou a campanha contra a guerra na Alemanha e futuramente se converteria no Partido Comunista Alemão.

3- O 8 de março, Dia Internacional da Mulher.

4- “Ordem número 1”, que vai limitar o controle do governo sobre as forças armadas, e indicar que as ordens do governo provisório só devem ser acatadas se não se opuserem às diretivas do soviete.

5- https://www.marxists.org/portugues/tematica/rev_prob/25/teses.htm

+ Parte 2: Como aconteceu Outubro II – O período de reação e a estruturação do Partido Bolchevique

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.