Como a JBS pagou os R$ 2 milhões a Aécio

Senador Aécio Neves (PSDB-MG) concede entrevista. Foto: Roque de Sá/Agência Senado
Senador Aécio Neves (PSDB-MG) concede entrevista.
Foto: Roque de Sá/Agência Senado

 

Por Patricia Faermann.

A pessoa escolhida por Joesley Batista, dono da JBS, para entregar R$ 2 milhões ao senador Aécio Neves (PSDB-MG) narrou em detalhes como realizou o primeiro dos quatro pagamentos ao primo do senador, Frederico Pacheco de Medeiros, o Fred.
Ricardo Saud, diretor de relações institucionais e governo da J&F, grupo do qual pertence o frigorífico, é um dos delatores que descreveu aos procuradores da República as acusações contra o tucano, com base em provas e documentos.
“O que estamos apresentando é um recall de todo o que aconteceu na campanha de 2014, de fatos ilícitos”, assim introduziu Saud. “A gravação que tenho mais participação ativa foi do senador Aécio Neves com Joesley no Hotel Unique, em São Paulo, porque dela nós fizemos um ato contínuo e tivemos desdobramentos dela”, seguiu.
“Explica para a gente”, pediu então o procurador da República presente no depoimento.
Conforme o GGN, Joesley havia delatado o repasse de R$ 2 milhões ao parlamentar e escolheu o diretor de relações institucionais da JBS para concretizar o pagamento de propina, em quatro pacotes de R$ 500 mil cada um, marcados para entregar nas quartas-feiras do mês de abril deste ano.
Inicialmente, Ricardo Saud contou aos investigadores que o grupo não iria mais realizar repasses ao tucano, mas que Aécio foi insistente. “[Aécio Neves estava] cobrando ajuda, porque ele nunca fez nada por nós, na verdade. Prometeu, prometeu, nunca fez nada”, disse. “Mas prometeu? Prometeu fazer?”, perguntou o procurador, no caso de haver uma tentativa de contrapartida que configurasse a prática do ilícito. “Prometeu”.
 Em seguida, contou que, ainda que vencido nas eleições à Presidência da República em 2014, Aécio tinha influência e poder e que, devido a isso, a “ajuda” ocorria não esperando que o tucano fosse aprovar alguma medida de interesse da empresa, mas para evitar que o tucano pudesse “prejudicar” a companhia. “Para não atrapalhar”, descreveu o delator.
“A gente mandou aproximadamente R$ 80 milhões para ele [como doação em 2014], alguma coisa assim na campanha. E pós campanha, ele achou que a gente tinha algum compromisso com ele, alguma coisa, que não tínhamos. O Joesley corria, corria, corria, e pedia para não atender ninguém deles [da equipe do Aécio]. E aí com essa insistência toda, com essa coisa, o Joesley acabou atendendo ele, umas duas ou três vezes, nesta última especificamente eu participei. Não participei com o senador Aécio Neves, eu participei após isso”, relatou.
Quando prestaram o depoimento pela primeira vez à Procuradoria-Geral, os executivos da JBS acreditavam que Aécio teria usado o montante para pagar honorários advocatícios a dois advogados, na ordem de R$ 1 milhão, aproximadamente, para cada um. Assim, na hora de combinar como seria feito o repasse, Joesley aceitou fazer 4 parcelas de R$ 500 mil semanalmente e queria entregar diretamente ao senador.
Mas Aécio negou receber presencialmente a quantia: “não, não, eu vou mandar o Fred, que é meu primo, que ele teve vários contatos [com o grupo] na campanha, ele sempre esteve lá, e eles resolvem”. O dono da JBS aceitou e avisou que enviaria Ricardo Saud.
“Eu liguei para o Fred, combinamos o dia, quarta-feira, dia 5. Que foi antes de ontem. Isso ele fez, chegou lá umas 11h da manhã, no escritório da JBS, na minha sala e perguntei: ‘Fred, você quer ir lá pagar direto o [Alberto] Toron? Dr. Toron e o Sânzio [Nogueira, advogados]’. Nós entregamos R$ 500 mil para o Fred, em dinheiro vivo, todos em nota de R$ 100, e ele pos na mochila, pegou um taxi e voltou para Belo Horizonte.”
“Ele foi de taxi de Belo Horizonte para São Paulo?”, questionou o procurador. “Não, não. Ele fez de Belo Horizonte para São Paulo de avião. E pegou esse taxi que, segundo ele, já trabalha com ele há uns 20 anos”, respondeu. “Trabalha para levar dinheiro?”, perguntou. “Eu não posso falar que é para levar dinheiro, mas pelo o que eu entendi sim, né. Porque para pegar um taxi para sair de São Paulo a Belo Horizonte”, concluiu o delator.
Em seguida, os investigadores presentes no depoimento questionaram detalhes de Frederico Pacheco de Medeiros e pediram as provas, tanto a descrição do primo de Aécio, como estava vestido, as imagens de segurança da empresa gravadas, com a entrada e a saída de Frederico, o registro que forneceu o crachá para a entrada no edifício comercial e a gravação do encontro em áudio.
– Isso foi 2 dias atrás?
– Dois dias atrás, as 11h da manhã. 
E essa foi a primeira das parcelas?
– Primeira. Foi R$ 500 mil dos R$ 2 milhões. Aí nós combinamos de ele ir quarta-feira agora a próxima, às 11h da manhã, mesmo local.
E já tem data para a terceira e a quarta?
– A gente está tentando fazer toda quarta-feira.
Essa de anteontem, o senhor registrou, gravou?
– Gravei.
Ricardo Saud entregou aos investigadores os materiais solicitados. Até aquele momento, os empresários da JBS estavam convictos de que Aécio Neves levaria o dinheiro diretamente aos advogados que disse precisar pagar.
Assista:

Fonte: GNN 

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