Colômbia: De qual paz fala, senhor Santos?

pombaPor Matilde E Trujillo Uribe.

Ou a fábula do farsante e a pomba ultrajada.

De que paz fala, senhor Santos? Isso tenho me perguntado quando vejo os horrores que você e o governo que preside assestam sobre o povo. Uma profanação de todos os direitos, uma armadura de poder e submissão, um simulacro de democracia com a morte cavalgando. Há três meses e 23 dias que iniciou neste ano e em tão pouco tempo os fatos gerados a partir de seu poder e do de sua classe espantam. Em linhas posteriores me referirei a alguns. Continuam a brutal política de extermínio, saqueio, despojo, entrega do país às multinacionais.[1] Vocês entregam nosso país como se fosse sua propriedade privada. Essas são, entre outras, as “graças” de sua classe, para as terríveis desgraças do povo. Não é diferente do que vem sucedendo com os sucessivos governos de turno desde a Frente Nacional, a não ser pelo incremento do sistema da cobiça.[2]

Julgará você, ainda que seu julgamento assinado por interesses USA não deve ser muito equânime. Então, os leitores julgarão. Senhor presidente Juan Manuel Santos, você tem ultrajado e fendido a paz, sem deixar lugar nem rincão algum do país sem essa marca de humilhação e barbárie própria de sua classe contra os humildes. Vocês impuseram a guerra. Como? Deslocando, massacrando, reprimindo, assassinando, encarcerando, empobrecendo, desaparecendo camponeses, indígenas, trabalhadores, operários, desempregados, estudantes, sindicalistas… e mais dos ninguéns,como diria o grande Galeano. Guerra que indolentes dissimulam com sorrisos de papelão, trajes de gravata e discursos de bobos da corte.

Porém, você fala de paz com arrogância em todos os cenários –há pouco se deleitava na Cúpula das Américas-. A paz é para você essa falsa roupagem com que vem se cobrindo desde que começaram as chamadas conversações com os insurgentes. A essa paz que você pronuncia, contrária aos fatos, temos de substitui-la e combatê-la até enterrá-la e lhe poremos uma cruz de estrada, como as que se veem a caminho de Buenaventura de terrível desventura. Inicio com alguns desses fatos da degoladora paz que alenta sua importante classe.

Fatos escabrosos: corpos desmembrados, desfigurados, torturados. As “casas onde os paramilitares esquartejam” : matança humana que mostra a demência paramilitar e o anticomunismo que lhe infundiram em suas entranhas os instrutores militares. Como é possível que um país mantenha tal grau de horror? Como se incuba e desenvolve? Você anunciou há mais de um ano ante a opinião pública que buscaria resolver esse assunto… Não é para menos, é um imperativo, uma exigência, uma obrigação sua como presidente! Porém… Que fez você? Militarizou a Colômbia. E pareceria um paradoxo que com toda essa força militar continua viva a tragédia; se não se soubesse que o paramilitarismo está preconizado nos mesmos militares. Você adianta a Aliança Pacífico –OTAN-, seu Master Plan 2050, os megaprojetos de ampliação portuária, a exploração mineira, a nova zona industrial que assentarão nos que antigamente foram os bairros que arrasaram a população nativa. Em Buenaventura agita a caldeira do diabo: desaparições, massacres, despojo, desterro e deslocamento. Expulsam com toda barbárie a seus habitantes para seus planos pró-imperialistas. O que podemos deduzir, senhor Santos?

E na Guajira, onde o mar há de estar bramindo de dor, os indígenas Wayúu estão morrendo de fome e sede, porque o rio mãe do qual se abasteciam, seu rio ancestral, foi represado e sua água privatizada pela exploração da maior mina de carvão [a céu aberto] do mundo. Por efeito disso e das condições deploráveis de descuido e abandono, as crianças estão morrendo de inanição, as mulheres de dor, os homens de desolação, os velhos de tristeza. É outro feito de paz, senhor Santos? Esta, a maior etnia indígena da Colômbia, atacada por seu governo que entrega, e respalda, não a seu povo mas sim às multinacionais que saqueiam o país.

Outro acontecimento recente que reitera a indolência de sua paz e a de sua classe ocorreu no norte de Antioquia: as Empresas Públicas de Medellín e a polícia da qual vocês tanto se vangloriam procederam a desalojar crianças, velhos, mulheres e homens que habitavam ancestralmente as ribeiras do cânion do rio. Comunidades que encontravam seu sustento através da procura do ouro mediante o método artesanal, da pesca e da agricultura tradicional respondendo a suas necessidades de subsistência. A inspetora ordena desocupar o lugar em três horas, o esquadrão móvel antidistúrbios –ESMAD, esse aparato de guerra, repressão e morte que vocês têm para silenciar marchas, protestos, greves, os cerca intimidando-os e afrontando-os. Como consequência, mais de 81 pessoas se veem obrigadas a deslocar-se.[3] Se enfurecem contra os despossuídos para beneficiar seus cofres?

Repressão! Esse é o tratamento com que você e seu governo ultrajou também aos humildes cortadores de cana que tiveram que recorrer à greve para defender seus direitos. “Às 5 da manhã…, um numeroso contingente do ESMAD atacou com força brutal a mais de 500 cortadores de cana do Engenho Risaralda”. “Agarraram-nos dormindo e lhes caíram em cima com paus e porretes. Até lhes tiraram seus facões e começaram a investir contra eles”. “Moeram-nos a golpes e neles dispararam bombas lacrimogêneas à queima-roupa”. Sem palavras, que podemos pensar, senão que seu sobrenome deveria aludir aos mil demônios.[4]

E no norte do Norte do Cauca a população indígena, dado o descumprimento do Estado –devolver-lhes as terras-, se viram impelidos à Minga de Libertação da Mãe Terra. Procederam a tomar as terras que lhes haviam sido despojadas, que fez você? Seu governo reitera a violenta agressão mediante seu aparato de terror, o ESMAD, gases lacrimogêneos, artefatos não convencionais e armas de fogo. O resultado: crianças, mulheres e homens feridos. Não tinham passado senão escassos dois meses, quando assassinam a 6 comuneiros indígenas, o massacre[5] foi silenciado pela mídia [enquanto faziam algazarra pelos 11 soldados mortos, fato simultâneo, ao qual em seguida me referirei]. Os assassinatos dos 6 comuneiros são aqueles tão característicos da conivência de paramilitares e exército. Se atracam contra os humildes, pois não vimos que tal atrocidade suceda aos que fazem parte de sua classe.

Nas regiões do Meta, do Cesar, do Magdalena, assim como na do Magdalena Medio, que melhor testemunho que o da delegação Asturiana de Verificação dos Direitos Humanos que esteve neste ano no país realizando esta observância?[6] Extrairei alguns trechos: “se incrementaram as montagens judiciais e as detenções massivas como método de retaliação contra aqueles que se negam a cooperar com o exército, usando como prova o depoimento de desmobilizados, ou dados fornecidos pelas tropas que não chegam nem a ser constitutivos de indício de atividades ilícitas. As detenções massivas também estão se produzindo contra opositores dos projetos mineiros e energéticos. Um plano sistemático contra a Marcha Patriótica e o Congresso dos Povos e suas organizações integrantes nas regiões, o que resulta muito preocupante por antecedente de extermínio da UP”. “Persiste a prática ilegal do exército de realizar blitz inesperadas para forçar o recrutamento de jovens campesinos…” As empresas transnacionais estão ocupando enormes territórios, gerando graves conflitos…, e se vão erigindo numa espécie de “estados dentro do Estado”. Violam com impunidade normas trabalhistas, ambientais e tributárias e impõem à população restrições de mobilidade como ocorre com Pacific Rubiales, que transfere para as comunidades sua “crise”, aumentando pobreza, desemprego, ademais de repressão e destruição ambiental histórica ou das multinacionais do carvão [Drummond, Goldman Sachs, Cerrejón-Glencore-BHP e outras] no Cesar”. Essa é sua carniceira paz senhor Santos? Poderia percorrer com estas linhas todo o território nacional e o quadro se repete.

E novamente a paz ultrajada com a lei de restituição de terras de seu governo, outra farsa para os que buscam justiça. Não, não serve. Tal é o caso dos pequenos mineiros do sul de Bolívar aos quais se lhes despojou do território em que viviam e trabalhavam. Sua pertinaz luta durante 11 anos termina flutuando entre ar nauseabundo e fedor dos direitos desfeitos.[7] Ou a daqueles que empreenderam marcha para recuperar as parcelas que lhes foram arrebatadas 15 anos atrás com ciladas, agressão e pressões. Me relembra essa canção “Lamento Borincano”, que pouco ou nada sentirão os de sua oligárquica classe. Em Urabá homens e mulheres, crianças e velhos saem pela vereda, pensam remediar sua situação, palavras de ordem alegres ao passo de seu andar, seus cartazes dizem “terra e paz”, ao chegar se encontram com a crua realidade; e, como o “jibarito”, tristes voltam à margem da rodovia.[8] Senhor presidente Santos, é evidente que a paz de seu governo tem o selo das elites corruptas e farisaicas; é evidente que a paz concebida a partir da riqueza e dos privilégios, a partir dos que favorecem o grande capital, a partir dos que detêm o poder, é contrária e oposta de como a concebe, a sente e a vive o povo. E assim o expressou o povo com veemência na marcha do 9 de abril. Nela a paz emergia como um animal ferido com sede de justiça social, de equidade, de democracia, de soberania, uma paz concebida como a realização plena dos direitos todos, saúde, educação, alimento, teto, a vida, o direito à terra e ao território. Vocês arruinaram os direitos do povo com os espinhos venenosos do seu mal nascido poder.

Que brutalidade! Feridos, mortos e encarcerados por lutar por seus direitos, vítimas nos campos e nas cidades, inclusive os que não estavam armados!, que não estavam combatendo e não brotaram por efeito do conflito ou enfrentamento armado de sua classe com a insurgência. Porém, tem você o cinismo à flor da pele, culpar a outros pelo dessangramento e a crueldade em que vem se debatendo o povo colombiano. Não, senhor Santos. Assumam sua responsabilidade!, isto não é novo nem excepcional, não são fatos isolados. Ouvi dizer e compartilho que a responsabilidade de uma guerra incumbe, em primeiro lugar, aos que a provocam, então e não precisamente são responsáveis os que se indignam e a convocam ou os que, com o supremo direito à rebelião, a enfrentam.

Eu creio, senhor Santos, talvez por apegar-me à esperança, que você é incoerente, ou por acaso são as habilidades de um jogador de pôquer? Que se pretenda a paz fazendo a guerra? Isso e nada é o mesmo. Pelo Cessar-fogo Bilateral se pronunciam diversas organizações sociais, políticas, ambientais, nacionais e internacionais. Foi também uma palavra de ordem arejada na marcha do 9 de abril. Também que abra os diálogos com toda a insurgência, o Exército de Libertação Nacional e o Exército Popular de Libertação, pois, como se entende uma divisão desta forma? Se lhes pede, se lhe roga, se lhe exige que cessem as operações militares, os brutais bombardeios que tudo destroem!, que cesse o dessangramento!, que esta aposta não seja unilateral. Relembro que um trecho do informe da delegação de Paz da insurgência dizia que no marco do cessar unilateral “o exército está realizando operações ofensivas contra as insurgências, dando-se casos de execuções de guerrilheiros que estavam feridos e, portanto, fora de combate”. A meu ver, esses assassinatos são mais que covardia, isso é outra mostra dos vis métodos com que os militares enfrentam ao adversário.

E isso me lembra o ocorrido recentemente no norte do Cauca em que perderam a vida 11 soldados. Pessoas também do povo que vocês usam como bucha de canhão. Porque não temos visto que os da oligarquia ponham seu peitinho, nem mandem seus filhos a tal ex abrupto. Diz o exército que foram atacados como se fossem mansas pombas, que se meteram ali “buscando proteger a população civil para enfrentar aos grupos criminosos que delinquem ali”, são palavras do General Valencia, não minhas. Quando o que os militares fizeram foi violar o DIH ao instalar suas casernas em meio à população civil, pondo-a assim em risco. Depois em seus meios de comunicação exacerbam e deformam os fatos para fazer uma propaganda contra os diálogos. O descaramento é que pouco disseram quando seu exército, aproveitando a trégua unilateral das FARC-EP, matou pelo menos 20 guerrilheiros em Nariño.*[9] É que a vida vale segundo seu critério? e “a vida não vale nada se ignoro que o assassino trilhou por outro caminho e prepara outra cilada”.*[10] Não pretenderão que, ao meter-se em terreno do adversário com armas e equipamento militar, exercer operações militares em todo o país, e em razão de que a outra parte esteja em trégua, estes fiquem quietos esperando que os matem? E por acaso devemos recolher-nos sem contestar sua versão? Eu vi como mentem uma e outra vez: é que temos de fazer caso omisso da versão da outra parte da contenda?

Nas cidades, senhor Santos, também sentimos a paz ultrajada, ferida, quase sem respiro, sumida e subsumida no modelo neoliberal que vocês, as elites com cheiro de enxofre, implementam. Essa injustiça que você, de tão grande linhagem,descendente dos que manejaram o país, não quer que se toque. Foi do primeiríssimo que nos diálogos em Havana deixaram sentado. E que ironia, os “maus”, segundo vocês advogando pelos anseios populares, e vocês, os “bons”, agindo contra esses anseios. Vocês reabastecidos de riqueza decidindo os destinos do povo com ácido muriático. Nas cidades não é mais que ver crianças e velhos jogados nas ruas buscando nos lixos restos de pão, para vocês são invisíveis, os ninguéns não interessam. Que os trabalhadores tenham salários de fome, que lhes importa, se são vocês os que decidiram que ganhem no mês o que vocês gastam numa noite de farra e diversão, a tal terceirização para cortar seus direitos. O povo amontado como animais cercados nos cordões de pobreza e miséria, enquanto vocês em luxuosas mansões se apropriam da cidade privatizando até as ruas e as árvores e as flores. A saúde e a educação como negócios de alta corrupção. Longo capítulo implicaria referir como se expressa a paz nas cidades com o selo da peçonha oligárquica. Mas não posso omitir, assim seja em curtas linhas, o incremento das ameaças a líderes, ativistas sociais, defensores de DDHH, organizações sociais. Os assassinatos seletivos como o que no início do ano se infringiu sobre o dirigente do Congresso dos Povos. [11] E, como se fosse pouco, se lhe soma o descumprimento de todo e qualquer acordo com os setores populares, a impunidade mais atroz, os terríveis campos de concentração e tortura, os cárceres de toda impiedade com o putrefato poder que vocês derramam.[12]

Senhor Santos, entenderá porque não posso despedir-me com meus melhores desejos para você e os de sua classe. Me empenho em crer que um dia desaparecerão da face da terra e que o povo vencerá para viver um novo amanhecer. Vocês impuseram a guerra e o povo imporá a Paz.

 

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Nota: Meu intento por não fazer longo este artigo foi impossível. Muitos fatos que ocorreram no presente ano de 2015 necessitariam ser registrados. A magnitude do que tem sido a política contrária à paz deste governo é impossível de se sintetizar em poucas páginas. Selecioná-los é outro risco, ao final não apliquei um critério estrito, mais bem algo ao acaso. Não cito todas as fontes consultadas, porém cada fato registrado podem encontrá-lo na rede.

(1) 40% do território colombiano está pedido em concessão para a mineração multinacional. Mais de um terço das transnacionais são estadunidenses.

(2) Os anos mais violentos da guerra em Colômbia remetem à década dos ’40, particularmente 1946-1950, superados em anos recentes pelos crimes do paramilitarismo [estratégia estatal].

(3)  81 novas vítimas de deslocamento por Hidroituango.

(4) Brutal e selvagem repressão a cortadores em greve – Agencia Prensa Rural

(5) Era santista: Novo massacre indígena no Norte ..Anncol.

(6) Colômbia: Nem pós-conflito nem normalidade em Direitos

(7) Despojo de pequenos mineiros no sul de Bolívar…

(8) Para estes 100 campesinos a lei de restituição de terras.Las2orillas.

(9) Exército aproveita trégua unilateral das FARC EP e mata pelo menos 11 guerrilheiros em Nariño

(10) Canção: La vida no vale nada vem ao caso.

(11) Denúncia pública pelo assassinato de Carlos Alberto Pedraza Salcedo. La Pluma NET .

(12) Colômbia e o Movimiento Nacional Carcelario: kaos en la Red

 

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Equipe ANNCOL – Brasil

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