Coletes amarelos: a Europa também está na rota das guerras híbridas?

Por Rita Coitinho, para Desacato.info. 

As manifestações dos gilets jaunes (coletes amarelos) deste final de semana na França, organizadas por redes sociais sem que fosse possível a identificação de uma liderança reconhecida, acenderam uma luz de alerta para as organizações sindicais e partidos do espectro democrático, de centro, centro esquerda e até de partidos neoliberais, que atualmente a grande mídia prefere chamar de “centro” –  dada a ascensão dessa  droit (direita) ultranacionalista, como a do partido de Marine Le Pen – como são as forças que rodeiam o atual presidente, Emmanuel Macron. Frente à ascendente direita protofascita, um defensor do status quo atual, da liberalização dos mercados (dos outros) e do fortalecimento do sistema financeiro, como Macron, é quase um político da gauche (esquerda).

Segundo informa a mídia francesa, os partidos e personalidades de esquerda dividiram-se em relação aos protestos contra a criação de uma nova taxa sobre combustíveis fósseis. Enquanto Jean-Luc Mélenchon, do bloco La France Insoumise saudou os protestos, outros deputados de esquerda preferiram assumir uma posição mais discreta, enquanto que os social-democratas do Partido Socialista demonstraram apoio à nova taxa, que está ligada aos investimentos na transição energética, e desconfiança quanto aos protestos. Já as centrais sindicais, CFGT e CGT, mostraram-se  críticas do movimento e preocupadas com seu claro aparelhamento pela extrema-direita.

Marine Le Pen, do Rassemblement national, partido de direita nacionalista, saudou os protestos e empenhou seu apoio como chefe do partido,  assim como outros expoentes da nova-velha ultradireita francesa, como Nicolas Dupont-Aignan e Laurent Wauquiez, presidente do Républicains.  Se, por um lado, parece que os gilets jaunes são um movimento espontâneo de cidadãos auto-organizados por meio de grupos de whatsapp e outras mídias sociais, de outro lado os partidos de ultra-direita são, de saída, os primeiros a obter algum tipo de vantagem política com o movimento.

Talvez ainda seja cedo para se tirar conclusões definitivas a respeito. De toda forma, é digno de nota que os protestos têm uma estética bastante semelhante aos movimentos ocorridos em diversos países nos últimos anos, das chamadas “Primaveras árabes” ao movimento que possibilitou o golpe de Estado nazista na Ucrânia, onde o partido neonazista Svoboda destacou-se como a maior força política nos protestos da praça Maidan, movimento político que derrubou o presidente ucraniano, Viktor Yanukovich em 2014. Ou, para ficarmos com exemplos mais próximos de nós, tal como ocorrido em Honduras, Paraguai, Venezuela, Nicarágua e no Brasil em 2013: o que nos trouxe à atual situação política de ascensão de uma direita outsider, autoritária, aparentemente amadora em seus métodos, neoliberal na economia, conservadora nos costumes e profundamente crítica do que chamam de “globalismo”.

Essa direita em ascensão em diversas partes do mundo tem muitos pontos em comum, em especial, o resgate de uma retórica nacionalista com contornos xenófobos, certo grau de protecionismo (no caso dos agrupamentos da Europa e dos EUA, mas não no caso do Brasil), uso deliberado de uma estética amadora, refutando o uso de mecanismos de propaganda tradicionais e optando por vídeos caseiros, transmissões online em redes sociais e difusão de conteúdo apócrifo, em forma de correntes, que lhe conferem uma aura popular, espontânea e dificultam o rastreamento da origem das informações veiculadas, em geral falsas. Além disso, têm na  disputa da narrativa histórica um dos pilares de sua atuação e enraizamento. Promovem uma reclassificação do espectro político mundial, mais ou menos com aqueles parâmetros da novíssima teoria política que o príncipe herdeiro (sic) eleito deputado no Brasil recentemente apresentou aos seus correligionários de partido, que é também basicamente a mesma do filósofo (sic) Olavo de Carvalho, que a copia de propagandistas estadunidenses como Alex Jones. Este, aliás, influencia o staff de Donald Trump e dos movimentos antiglobalismo de direita, como os que se organizam por meio do site canadense Rebel Midia. A interpretação das correntes políticas modernas por esses agrupamentos fazem o milagre teórico de  classificar os expoentes do Partido Democrata, como Hillary Clinton e Barack Obama, como esquerdistas-globalistas, representantes da “Nova Ordem Mundial” – aquela proclamada pelo presidente George W. Bush (o pai), do Partido Republicano, quando da queda da URSS. Nessa miríade de estruturas e personalidades globalistas (que, segundo os mais entusiasmados, são também marxistas) estão também a ONU,  a União Europeia e todos os mecanismos de cooperação internacional. É mais ou menos como se Geoge Soros e Xi Jiping fossem bons camaradas de Angela Merkel, numa incrível e altamente eficaz conspiração comunista para dominar o mundo em proveito das grandes corporações financeiras. Nessa esteira está, é claro, Emmanual Macron.

O festejado presidente francês, para quem o mercado teceu tantos elogios, parece ter caido em desgraça ao aproveitar a saída da Inglaterra da União Europeia para fortalecer, junto com o governo alemão, a ideia de um exército europeu, que faça frente às ameaças externas, ao mesmo tempo em que afasta-se dos EUA – após um efêmero período de aproximação com Trump, no início deste ano.  Sua popularidade despencou em um final de semana de protestos, enquanto figuras como Marine Le Pen se fortalecem. O povo que protesta está, evidentemente, insatisfeito com as crescentes perdas econômicas e não admite perder mais em nome de uma distante e pouco compreensível transição energética. Desconfia, com razão, da ordem mundial atual, em que as grandes corporações e financistas acumulam imensas riquezas enquanto as populações, mesmo nos países do centro do sistema, empobrecem. Muitos também atribuem seus problemas econômicos à crise migratória, causada pelas guerras patrocidas pela OTAN, e enxergam nos migrantes ameaças a seu bem estar, o que os aproxima de saídas extremistas. Até por isso, as antigas formas de organização popular não têm conseguido canalizar essa insatisfação para uma saída coletiva e pós-capitalista. Ao contrário, propostas de recrudescimento do sistema vêm ganhando espaço fazendo uso de uma retórica antissistema. É muito provável que a disputa de narrativas em andamento favoreça o lado revisionista da história, que apresenta os acordos de redução do uso de combustíveis fósseis como mais um estratagema globalista para retirar recursos do povo francês e favorecer os interesses das grande corporações. Será também a França um alvo das guerras híbridas? Quem viver os próximos anos verá.

 

Foto de capa: Captura de tela vídeo Nelly Assent

Rita Coitinho é socióloga, Dra. em Geografia e membro do Conselho Consultivo do Cebrapaz.
A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

1 COMENTÁRIO

  1. Não creio que a frança está em rota de colizão com os estados unidos para justificar o uso da maquina de manipulação em massa utilizada no brasil.
    a guerra hibrida é contra os inimigos das empresas americanas e finaciadas por think thaks neoliberais, a extrema-direita da europa não está nos planos desse pessoal, a menos que uma candidatura de esquerda se fortaleça….

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