Cê tem um minuto?

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

– Oh, dona. Cê me perdoa? Cê tem um minuto? Cê tá aí confortável no seu carro e só tô pedindo uma moeda só. Mais nada! Repara bem. Tá essa garoa fina de rasgar a alma nessa hora da noite e tô com essa camisa fininha, mas até tenho blusa. Tá ali no canto junto com tudo que tenho na vida e onde durmo. Só não tô vestido com ela porque parece que pensam que todo mundo que tá com blusa no frio tá com um revolver na cintura. Por isso levantei a camisa quando vim falar com você. Até resolveria minha vida, mas prefiro pedir pra senhora porque se todo mundo que falo me der uma moeda, posso comer alguma coisa e dormir. Posso limpar o vidro da senhora? Eu aceito seu julgamento e o que quiser pensar sobre o porquê de eu tá aqui. Tem problema não. Só me livra da fome porque ao frio, tô condenado. Nem quero contar minha história. E nem quero que a senhora ache que conto porque quero que tenha pena. É só porque é raro alguém falar com a gente que tá vivendo assim, sabe? É bem raro! Pegar na mão! Parar! Cê não sabe, dona? Outro dia um homem todo metido andava com o carão pro céu e sua carteira caiu. Eu que vinha no mesmo sentido, avisei. “Oh, moço. Moço! Sua carteira caiu!” E ele que nem aí pra o que eu falei tava, soltou um “tenho não!” E foi embora. Tava certo! Não tem mesmo porque sua carteira ficou lá jogada. Eu não quis pegar. Jogar rg do cidadão no bueiro e usar a grana dele? E tem outra, dona, se me pegam com o tanto de dinheiro que aquela carteira parecia ter, aí que era cana. Calma! Tô terminando já! Esse rodo no seu vidro é igual a vida da gente. Vai e volta e não ganha nada em troca. Passo até o fim e trago de volta, jogando o que sobrou no asfalto. E vai indo. Dona, a gente tá com tanta coisa que nem consegue somar. É fome, frio, é medo. É o olhar de nojo pra nós todo dia. Como pode as pessoa passar por nós e não achar estranho? Como pode virar uma coisa normal saber que tem gente que mora na rua e viver como se não tivesse acontecido? Ou acontecendo. Fico pensando como nós fica assim e as pessoas que não são assim não se incomodam. E é um monte de gente! Gente que caiu na pedra, que perdeu família e casa. Tá na rua é como ter ido pra sempre pro inferno. Eu ainda consigo pensar um pouco nas coisa, mas e os companheiro que perdeu a mente e agora vive falando sozinho e chega a catar lixo pra comer? Tem pressa não, dona. Pode procura tranquila a moeda e seja quanto for, recebo de bom grado entendendo que a senhora vez o que nunca as pessoas faz. Escutar nós e, quem sabe, falar pro mundo esse absurdo. As pessoas têm mania de achar que é porque a gente quer, dona. Fico vendo passar o povo voltando do serviço, da faculdade. Tudo cansado, agasalhado. Pode tá cansado, mas tem um chuveiro quente quando chegar. Cê já pensou a importância, dona, de ter um chuveiro quente? Um prato de comida? Quem conhece a fome sabe. Diabo tem chifre não. Quem tem chifre é corno, dona. E a fome é que também tem chifre. Cê acha? Cê ri, é? É sério! Nossa! Que benção! Que alegria, senhora! 5,00 reais? Jura? A senhora não sabe a importância disso. Muito obrigado. Quem Deus lhe pague. A senhora é um anjo. Porque às vezes a gente quer só falar também. A cidade é tão quieta e o povo tão silencioso. A gente quer falar. E pude falar com a senhora um cadinho e ganhei 5,00. Não sei como agradecer. Vou comer uma bolacha ali. Pego no posto de gasolina. Se não tiver acabado, né? Vai que aqueles carro parado da última semana, os dono não comeu tudo? Vou pegar um bolacha e enganar. O que sobrar, tomo uma pinga. Assim esquento e durmo. Esquento e não esquento mais a cabeça por hoje com isso tudo. Boa volta, senhora.

Guigo RibeiroGuigo Ribeiro é ator, músico e escritor.

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