Casa Nem, 1º espaço de acolhimento de pessoas trans e travestis, pode ser desapropriada

Foto: Reprodução

A Casa Nem – o primeiro espaço de acolhimento, passagem e ações voltadas às pessoas LGBTI, sobretudo pessoas trans e travestis em situação de vulnerabilidade – corre o risco de fechar as portas nessa semana e desapropriar as moradoras e moradores que necessitam do espaço na Lapa, Rio de Janeiro.

O prazo para desocupar a Casa Nem expirou na terça-feira (31) e, agora, ela pode ser desapropriada por intervenção policial. O despejo ocorre devido às dívidas acumuladas pelo espaço, que sobrevive de doações, ações culturais e que não conta com apoio institucional.

Segundo a militante transvestigeneres e fundadora da CasaNem, Indianare Siqueira, a Defensoria Pública entrou no caso e protocolou uma ação na terça-feira para impedir o despejo. “Agora é esperar”, declarou.

A Casa Nem surgiu em 2016, inicialmente como um cursinho pré-vestibular para pessoas trans e travestis. Diante das necessidades, ganhou novas ações e um espaço na Lapa, que acolhe pessoas sujeitas à vulnerabilidade social, expulsão de casa e que promove ações, cursos e convivência social.  Neste ano, chegou a receber a medalha Chico Mendes pelo combate a transfobia.

No último ano, o espaço também correu risco de fechar devido às dívidas e foi realizada um financiamento coletivo no valor de 60 mil reais. Conseguiu menos da metade. Na época, Indianare declarou que a desapropriação simbolizava uma segunda expulsão, depois daquela vivida por meio da família. Sem contar que o relatório divulgado pelo SUAS informou que 30% dos abrigos rejeitam o acesso de pessoas trans e travestis nesses espaços.

ENTIDADES, POLÍTICOS E MILITANTES APOIAM

Diante da situação, diversas entidades chegaram a emitir nota de apoio à Casa Nem. Dentre elas, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), Fórum Estadual de Travestis e Transexuais do Rio de Janeiro (TTRJ), Astra Rj, União Nacional LGBTI (UNA LGBT), União de Negras e Negros Pela Igualdade (UNEGRO), Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Coletivo Madame Satã e a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB).

Houve, inclusive, um encontro chamado Acolhe Nem, com a participação de diversos militantes que resolveram discutir o futuro da Casa Nem, a continuidade do projeto e até mesmo a desapropriação, com a finalidade de que a saída das moradoras ocorra sem nenhum risco de violência policial.

Jandira destacou que a Casa Nem é onde ocorre acolhimento solidário, de vida e de afeto para uma população que se desenvolve com autoestima e altivez. Ela frisa que a decisão judicial é insensível e que acompanha o preconceito permanente vivido pela população trans. “Há a especulação imobiliária de um lado e direitos humanos de outro. Deixar essa comunidade sem teto, sem espaço e sem esperança não vamos aceitar”, declarou.

“A Casa Nem precisa continuar com seu trabalho de fortalecimento das pessoas que ali habitam, para que possamos pensar em estratégias de subsistência a população Trans. É um espaço que promove ações efetivas de educação, cultura, geração de renda e cursos na área de beleza e empreendedorismo. E não pode ser fechado. Resistiremos juntes!!!”, disse a militante Bruna Benevides.

A presidenta da Antra, Keila Simpson declarou em comunicado oficial que a Casa Nem é um dos poucos espaços onde é possível a existência e o reconhecimento das identidades de forma plena. E repudiou o despejo. “Sigamos firmes em nosso apoio e repudio a toda tentativa de (re)exclusão, para que possamos acreditar que as vidas que foram legitimadas ali não deixem de ser vistas como conquistas de toda uma população e que a Casa Nem continue de braços abertos”.

Até o fechamento desta reportagem todas as moradoras e moradores continuavam no espaço.

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