Cartas Baianas

Publicado em: 26/08/2010 às 22:23
Cartas Baianas


Por Emanuel Medeiros Vieira.

Carta aberta a um amigo (e compadre) querido

Dileto Paulão

Não somos “mornos”.

Não somos sepulcros-caiados.

Eu sei: sempre damos a cara ao tapa.

Isso tem um preço.

Muitos se omitiram (claro, outros combateram) a ditadura brasileira.

Mais cedo, quantos se abstiveram de combater o ovo na serpente que era o nazismo?

Ou o fascismo?

“Não, não te mete, vai dar problema”, diziam.

E a sombra do medo entrava nos corações e mentes.

No tempo tão finito de nossas vidas – com todas as pedreiras do caminho – é possível deixar algo além da poeira do tempo.

Por que escrevo assim?

Redigi um texto que intitulei de “A nova direita brasileira”, e um blog o postou.

O ser humano se engrandece pelo contraditório, pelo combate através do diálogo.

Não sou onipotente. Poderiam combatê-lo, contestando tudo o que disse.

Não. A nação petista que o leu ficou irritada e exasperada.

Mas não escreveu algo que o contraditasse.

Alguém o classificou de “lastimável”.

Lastimável?

Em vez do adjetivo, não era melhor contestá-lo?

São mentiras o que eu disse?

Exemplos:

Eu escrevi disse (ou melhor, eu “lembrei”) que a executiva do PT, que age com mão de ferro contra os dissidentes, dissolveu o diretório regional do Maranhão, obrigando o apoio do partido à “socialista” e “impoluta” Roseana Sarney, candidata ao governo daquele Estado.

Mentira?

Lastimável não é o meu texto.

Mas o que o partido está fazendo.

Lógico: a verdade mesmo libertando, incomoda quem não a quer ver.

O PT não está aliado à  elite escravocrata nordestina?

É mentira?

Quem são Fernando Collor e Renan Calheiros?

Aqui na velha Bahia, o governo que foi eleito combatendo o carlismo, trouxe crias de ACM para sua chapa, e alijou da maneira mais cruel um político honrado como Waldir Pires.

É mentira?

Num estado com tantas carências e tanto sofrimento, o governador petista gasta em propaganda muito mais do que em saúde, educação e segurança juntos.

É demais!

Sinceramente: eu nunca vi tanta propaganda na vida.

É um delírio narcísico!

É um mundo virtual.

É só andar por Salvador para ver que ele não existe na realidade.

E “mentem”. Sim, mentem.

Parece que aprenderam como um ministro de um chanceler austríaco que fez rápida carreira na Alemanha nos anos 30.

(À História cabe revelar o que aconteceu.)

Ele dizia que uma mentira repetida dez vezes vira uma verdade.

Eu disse que o programa eleitoral do PT não estima a reflexão, mas foi criado a peso de ouro para manipular as emoções mais primárias, como se fosse uma novela.

Pagam rios de dinheiro a marqueteiros, que formam uma nova casta nacional na arte de enganar e de mentir. Não querem politizar o debate.

Vão ganhar as eleições?

E daí?

A gente não entra numa batalha só para ganhar.

Imagino, na partilha do poder, o que vai acontecer com essa aliança franciscana e edificante: PT e PMDB.

O partido que foi de Ulysses, não é guloso, mas idealista; não luta só por cargos.

Não é um balcão de negócios, mas aspira à transformação da sociedade brasileira..

Tem estadistas do porte de Geddel Vieira Lima, de Jáder Barbalho, de Romero Jucá, de José Sarney e de outros.

(Além dos supra-citados Collor e Renan.)

É mentira?

É o meu texto que é “lastimável”?

Ou esse tipo de aliança?

Eu sei o que vão dizer.

“E as outras alianças?”, indagarão.

Será que o mesmo álibi será  repetido a vida inteira?

Eu?

Só tenho duas mãos e o sentimento do mundo, como dizia Drummond.

Não vou me alongar.

Não tenho outro poder, senão o de buscar dizer a verdade

diariamente naquilo que escrevo.

Pode parecer romântico e espiritualista, mas desde que optei pelo ofício, creio que a literatura é um caminho de transcendência.

(E no meu coração, espero que o Espírito um dia prevaleça.)

Toda a escrita é também uma oblação, algo que se oferta aos outros.

Eu sei: muita gente muda, e m a maior parte dos que mudam é da esquerda para direita. Afinal, é mais confortável ser a favor dos fortes que dos fracos.

É preciso conservar a fidelidade a si mesmo.

Como alguém lembrou, no dia do Calvário, a massa aplaudia a causa triunfante dos crucificadores, mas o Cristo, solitário e vencido, era a causa de Deus.

Com a sincera estima do Emanuel – escrevendo da terra de Castro Alves, de Anísio Teixeira, de Glauber Rocha, de Raul Seixas e de outros iluminados, “possuídos” pela ira sagrada da Justiça.

(Salvador, 25 de agosto de 2010)

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