Carta pública a Jean Wyllys: A comunidade LGBT palestina existe e quer ser ouvida

Publicado em: 28/03/2017 às 20:03

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Frente Gaúcha de Solidariedade ao Povo Palestino. – Jean, nós da Frente Gaúcha de Solidariedade ao Povo Palestino resolvemos fazer esta intervenção para te propor uma reflexão e convidá-lo ao diálogo. Tomamos a palavra porque queremos ser ouvidos e apostamos na tua capacidade de escuta.

O povo palestino vive prisioneiro em suas próprias terras, ocupadas por um Estado militarista que utiliza muito mais do que armas para manter seu poder. Utiliza palavras e discursos. Utiliza uma potente máquina de propaganda a nível internacional que cabe a todos os militantes de direitos humanos denunciar e desmascarar.

A sociedade palestina é diversa e multicultural. Não é um bloco monolítico pautado por qualquer tipo de doutrina intolerante. A população LGBT palestina existe e quer ser ouvida. Existem organizações que fazem um trabalho de base na sociedade palestina na luta contra o preconceito e pelo empoderamento LGBT. Organizações que merecem ser escutadas por qualquer militante de direitos humanos que visite a região. As ONGs Al-Qaws e Al-Aswat, palavras que em árabe significam “Arco-íris” e “Vozes”, são exemplos de entidades que aliam a luta contra a discriminação com a luta por libertação nacional. Não colocam uma espada sobre a cabeça dos LGBTs palestinos, como se lhes restasse apenas a opção de escolher entre o orgulho de suas identidades e a vergonha de seus compatriotas.

Ficamos muito felizes que a população LGBT de Israel tenha conquistado muitos direitos. Mas não aceitamos que eles sejam utilizados como máquina de propaganda para esmagar o povo palestino. Para infantilizar os LGBTs palestinos e retirar-lhes a voz. Israel não é um país acolhedor aos LGBTs palestinos. Não os aceita enquanto refugiados. Seus mísseis e balas não distinguem orientação sexual ou identidade de gênero. Matam todos os palestinos. Seus soldados gays e lésbicas não praticam uma repressão mais branda. São peões utilizados em um massacre que sequer pode ser chamado de guerra. Não existe simetria quando estamos falando de um dos estados mais militarizados do mundo contra um povo que sequer possui um Estado.

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No livro “Orientalismo”, o intelectual palestino Edward Said descreve como o Ocidente moldou uma imagem hegemônica do que seria o Oriente. Uma região atrasada, retrógrada e conservadora. Uma região que necessitaria das luzes do Ocidente. Da salvação de sociedades mais evoluídas e superiores. É esse o discurso que está por trás da falácia propagada por Israel quando se intitula um farol da liberdade no Oriente Médio. Um discurso racista e islamofóbico que não pode ser encampado por lideranças que também são perseguidas e oprimidas por orientação sexual, posição política e práticas religiosas.

O povo palestino vive sob um cruel regime de apartheid. Não existe outra palavra para designar o sofrimento dos palestinos. A história nos mostra que a comparação com o regime do apartheid sul-africano não é um exagero. A Palestina ocupada é um grande bantustão. Uma prisão a céu aberto, onde o direito de ir e vir é cerceado pelos inúmeros postos de controle monitorado pelos soldados israelenses. A maioria, jovens com armas na mão e uma sensação de poder.

O muro da vergonha corta a Palestina ocupada, separando famílias e vilarejos inteiros. É, sem dúvida, o maior monumento à intolerância dos nossos tempos. O sistema do apartheid é tão racista contra os palestinos e árabes em geral que não tolera sequer fronteiras. Exige confinamento total. Existe um povo massacrado e sem alternativas de um lado e um sistema colonialista e militarista de outro, que nunca respeitou nenhuma resolução da ONU e segue construindo assentamentos ilegais em territórios palestinos. Não é um problema deste ou daquele governo. É evidente que a extrema-direita israelense é mais caricata e feroz em suas atitudes e pronunciamentos. Mas todos os governos de Israel adotaram a mesma política de expansão territorial e ocupação colonial. Não nos enganemos: a ideologia sionista borra ainda mais as turvas fronteiras entre a esquerda e a direita.

Não se trata de demonizar um povo inteiro, muito menos uma religião. Este tipo de prática levou a humanidade aos piores momentos de sua história. Não aceitamos que a luta da causa palestina seja confundida com qualquer tipo de discriminação e discurso de ódio. É uma luta por liberdade e soberania. Pelo direito básico à autodeterminação dos povos.

Os bantustões da África do Sul caíram após uma luta sem tréguas do povo sul-africano, aliada a uma campanha internacional e bem sucedida por boicote, desinvestimento e sanções ao regime racista. É esta campanha chamada BDS que o povo palestino conclama o mundo a abraçar novamente para que os bantustões de Gaza e da Cisjordânia também sejam libertados. Não se trata de boicotar pessoas, etnias ou religiões, se trata de boicotar um sistema. O BDS ajudou a extinguir o regime do apartheid, não o Estado sul-africano.

Ao contrário do que dizem inclusive setores da esquerda, o BDS conta com amplo apoio no povo palestino. O chamado ao BDS foi lançado em 2005 com apoio de 170 entidades da sociedade civil palestina, entre partidos políticos, centrais sindicais, associações estudantis e das mais variadas áreas profissionais e do conhecimento. Conta, inclusive, com o apoio de entidades israelenses conscientes da responsabilidade histórica de não permitir a continuidade de outro regime de apartheid no mundo. Conta com o apoio de líderes na luta contra o apartheid sul-africano, como o arcebispo anglicano e prêmio Nobel da Paz Desmond Tutu.

O BDS não propõe que nenhuma pessoa deixe de ir a Israel. Até porque a única forma de chegar à Palestina ocupada é através do Estado de Israel, que controla todas as fronteiras. O BDS propõe que não se legitime um regime de apartheid, que estende seus tentáculos por inúmeras instituições públicas e privadas de Israel. Inclusive por universidades, como a Universidade Hebraica de Jerusalém, que possui campus erguidos em territórios ocupados. Que discrimina alunos árabes e incentiva alunos israelenses que estão nas Forças Armadas massacrando o povo palestino. Não há nenhum problema em ir a Israel dialogar com a esquerda israelense. O problema é legitimar um regime racista e colonialista. O problema é virar as costas a entidades LGBTs palestinas e pintar o mundo árabe como uma grande terra arrasada dominada por ideologias intolerantes.

Acusar de antissemita qualquer tentativa de denúncia deste sistema colonialista do apartheid israelense é tão absurdo quanto seria dizer, nos anos 1980, que o boicote ao regime sul-africano era uma espécie de racismo reverso contra o sistema de opressão da minoria branca.

O povo palestino já tem inimigos demais na direita para ficar se desgastando em disputas dentro da própria esquerda. Sabemos que o PSOL é um partido que apoia a tática do BDS e a luta do povo palestino, assim como outros partidos sintonizados com a defesa dos direitos humanos e dos trabalhadores no Brasil são organizações que também contam com valorosos militantes pela causa palestina. Jean, te fazemos um apelo público e cordial ao diálogo e ao entendimento com a comunidade palestina e suas organizações. Apelamos à tua sensibilidade política e pessoal. Aproxime-se da luta dos LGBTs palestinos e de suas entidades. Converse com os coletivos que coordenam o BDS. Decifre os mecanismos de opressão que massacram o povo palestino e entenda que eles estão atrelados a um sistema e a uma ideologia que independe de um governo de turno.

Aproveitamos a oportunidade, Jean, em que tu estás em Porto Alegre para falar sobre direitos humanos no Brasil para te propor este diálogo e esta reflexão. Enquanto o Brasil seguir comprando de Israel tecnologia militar e de segurança testada em sangue palestino, falar sobre direitos humanos no Brasil seguirá sendo falar também sobre os direitos humanos do povo palestino.

Agradecemos ao Jean e a todas as leitoras e leitores desta carta por sua atenção e apoio.

Fonte: SUL21.http://www.sul21.com.br/jornal/carta-publica-a-jean-wyllys-a-comunidade-lgbt-palestina-existe-e-quer-ser-ouvida-da-frente-gaucha-de-solidariedade-ao-povo-palestino/

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