Carta para o futuro: por que falar sobre maconha?

O tema é tabu. Ilegal, encarcera e mata. À margem da lei, alivia o stress e salva vidas.

Ilustração: Felipe Navarro

Por Cadu Oliveira.

Falar abertamente sobre um tema tabu é, sobretudo, um papel de educação. No mais, as pessoas querem saber sobre esse assunto. Não à toa por tantas vezes a palavra maconha vá parar nas manchetes dos sites mais sensacionalistas.

Tanto quem ama quanto quem odeia a erva tem o direito e a liberdade de saber mais sobre ela. Mas até hoje, nenhum grande meio de comunicação no Brasil tinha dado abertura para uma coluna exclusiva sobre a cannabis. Por que será?

Em 2013, quando o Denver Post, jornal impresso tradicional no Colorado, nos EUA, passou por uma mudança em sua linha editorial, buscando inovação de temas e abordagens mais ousadas, o jornalista Ricardo Baca acabou chamado para ser o “editor de maconha” do periódico.

Na Argentina existem duas revistas mensais sobre cultura canábica. E no site do The Guardian, jornal britânico, desde o dia 1º de janeiro deste ano a coluna High Time fala exclusivamente sobre a erva. O que a Carta teve em comum com esses veículos foi a sagacidade de perceber que o tema é quente e a coragem de inaugurar esse espaço.

E sabe porque a maconha merece colunas, sessões e até revistas especializadas? Provavelmente devido a sua multidisciplinariedade. Por ser uma planta, poderíamos falar de seus aspectos biológicos. Sendo remédio, vira assunto de química, ou medicina. Por ser proibida, lida com questões jurídicas. Tendo registro de consumo por milênios, também tem sua parte histórica.

Fora que, sendo cultivável, depende logicamente de clima e geografia. É uma pena, no entanto, que em língua portuguesa a maconha só apareça em destaque no noticiário policial.

Uma rápida busca online mostra que a cada dez notícias sobre a erva no Brasil, oito ou nove são sobre apreensões, prisões e mortes relacionadas ao comércio da planta. Isso não acontece quando o termo é buscado em inglês. Lá fora, eles perceberam que o assunto extrapola a editoria de polícia e é capaz de aparecer em qualquer sessão, seja ela qual for… quer ver?

A legalização da maconha faz o assunto ser recorrente na pasta política, seja nacional ou internacionalmente. O gigante capital oculto do mercado negro, ou as grandes corporações que mexem com a cannabis legalizada, abrem portas para o jornalismo de economia.

Na cultura, a erva se sente em casa, entre tantas personalidades e citações de fumaça. Com a explosão da maconha medicinal, o assunto ganha também as páginas de saúde, estilo de vida e bem-estar.

Até na gastronomia a erva ganhou seu espaço, após a evolução dos “edibles”, produtos comestíveis vendidos em dispensários nos EUA. E a editoria de esporte até passaria batida ao tema, não fosse o exame antidoping e os assumidos atletas de Jah.

Um assunto com tamanha abrangência deve conter alguma importância. Debater sobre as leis de drogas internacionais é alçada de quem pensa desenvolvimento humano, saúde e políticas públicas. Observar o crescimento dos investimentos nessa área faz crescer os olhos de quem lida com negócios como importação e exportação, produção agrícola e comércios especializados.

No entretenimento, as pontas da folha da cannabis apontam para todos os lados: música, cinema, teatro, séries, quadrinhos etc. Na parte médica, apesar da dificuldade de se estudar sobre o assunto, a evolução tem sido absurda, a ponto de a Anvisa autorizar importação de remédios feitos de maconha.

O uso empírico do cannabidiol tem aliviado o sofrimento de milhares de famílias por todo o País, mesmo à margem da lei. Fora isso, o cânhamo tem um potencial industrial incrível, que o Brasil, com proporções continentais, teria tudo para aproveitar, não fosse por preconceito e desinformação.

Vivemos aqui a vanguarda do atraso no que diz respeito à tendência mundial de legalização. Nossa população carcerária cresce, muito motivada pelo crime de drogas. Enquanto isso parlamentares e candidatos conservadores prometem aumentar penas para o tráfico.

Falar sobre o assunto não é crime. Jogar luz sobre esse tema é uma responsabilidade e um dever social não assumido pelo Estado. Mesmo proibida, a erva é mais acessível do que a informação de qualidade sobre ela.

Falar sobre drogas é munir as famílias de conhecimento para criar e guiar seus filhos. Entender sobre maconha é se conectar ao mundo novo, onde o vale do silício dá as cartas e por lá a planta é livre, recreativa. Pensar sobre o tema maconha não causa efeito psicoativo, mas pode te deixar doidão de tanta informação e curiosidade.

Estreamos hoje um espaço histórico de luta das minorias. O maconheiro é estigmatizado, sofre preconceito, vive contra a lei. Ainda assim, a pauta tem ressonância internacional, diversificada e… divertida.

Vive dos clássicos filmes de humor chapado aos shows sob fumaça, dos centros acadêmicos da neblina às redações e plantões infinitos, das rodas de capoeira e samba aos cultos religiosos da Santa Maria.

Existe, no mundo, algum mistério envolvido na proibição de uma planta nascer. E, ao mesmo tempo, alguma justiça nesse vegetal excluído ser tão exaltado.

Desde 2009 o Hempadão produz um blog diário, misturando humor, informação e jornalismo sobre a erva. Nesses quase dez anos de estrada cobrimos mais de trinta Marchas da Maconha por todo Brasil.

Fomos ao Uruguai, Argentina, Portugal, Holanda e Estados Unidos atrás de fumos, ops… furos de hemportagem. Temos no currículo a cobertura de dezenas de copas canábicas nacionais e internacionais. E além disso, produzimos a Hempada, revista mensal sobre a erva, que está em sua décima sétima edição.

Nosso time tem jornalistas, colaboradores, ilustradores e uma legião de seguidores de norte a sul do País. Mas isso não passa de um nicho, formado por gente interessada em buscar informação e produzir conhecimento a respeito de cannabis. Escrever aqui é uma oportunidade de extrapolarmos a roda de maconheiros e compartilhar uma ponta dessa experiência com o público em geral.

Precisamos falar mais sobre maconha no Brasil para não passarmos vergonha novamente no mundo, sendo os últimos a adotar medidas óbvias como foi com o fim da escravidão. Estamos atrasados. Na América Latina, somente o Brasil, o Suriname e as Guianas criminalizam o porte de drogas para uso pessoal.

Vivemos como que no sertão das ideias. Num mundo onde veículos tradicionais tem medo de se posicionar abertamente sobre um tema tão polêmico e que personalidades não saem do armário por receio de prejudicarem seus patrocínios comerciais.

Tempos sombrios em que o conservadorismo parece querer fazer andar para trás as leis retrógradas que regem à política de drogas do País. Nesse terreno pantanoso, fincamos a bandeira da resistência numa trincheira lotada de pensadores e tradição.

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