Carta de Despedida – O Choro do Bebianno

Imagem: Pixabay

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

Prezado Capitão,

Escrevo essas palavras no instante em que dei um F5 em meu PC e, enfim, meu nome constou no Diário Oficial. Sobrava esperança para tudo que vivemos fosse mais forte e que desse outra chance para o que construímos. Sou tomado pela dor ao constatar tão cruel e fria decisão sobre nós. Como pode? Todos esses anos, todas trocas, conversas de canto, acordos e acertos? Como pode terminar e me colocar toda responsabilidade? Se errei, me deixasse melhorar, me deixasse corrigir e proceder tal como sua vontade falasse em seu peito. Não. Fez de mim mais um. Fez de mim um de tantos que inflam o saco de laranjas, mas com a ressalva: fui tirado e jogado de canto como fruta podre de fim de feira. No instante em que penso formas de lacrar este envelope sem manchar o papel com minhas mãos sujas, uma primeira e pesada lágrima atinge – veja como a vida é – a tecla “B”. Acaso, intuição. Tudo se misturando numa chuva de dor, num tsunami de passado e futuro. Capitão, eu quase ouço um triste violino que corta minha alma nesta segunda-feira fria de verão e meus pés tocam sutilmente o nada. Minhas mãos foram suas. Foram elas que, fielmente, carregaram o pesado e inconstante saco de laranjas. Agora… o vento me diz suavemente aos ouvidos o que nunca quis aceitar desde que tudo aconteceu: é o fim. É o fim de um breve ciclo em que fiz parte de uma das mais podres corjas da história da política nacional. E era tão bom. Bastava representar truculência semelhante a sua e me sentia consistente o suficiente para acordar e ser um homem. Para acordar e me entregar por inteiro ao propósito maior, ao conserto, à reforma de um país tão destruído por antes. Você me impediu de dar o meu tudo. Agora, Capitão, eu choro de fato. Apaguei sua foto. Não por nada. É que sua memória me machuca e preciso estar longe para me acertar com minha tormenta. Em alguma noite, quando o mundo estiver dormindo e não perceber, deixarei de segui-lo nas redes sociais. Acho que você também precisa ficar sem mim agora. Sobre os áudios, que o mundo tire as conclusões que achar melhor. Eu estarei aqui.  Até fiz a reflexão pra voltar para a normalidade que o senhor pediu e esse exercício me foi de extrema importância visto o quanto tinha e buscava melhorar pra seguir ao seu lado. O senhor entende isso? Me perdoe o excesso de ligações. Me perdi algumas vezes na ânsia pelo seu retorno e, de fato, corri o risco de acabar como resto de sua bateria em uma ligação fora de hora, desnecessária. Mas fiz querendo o bem, o melhor. Fiz pra nos acertarmos, Capitão. E não para deixá-lo preocupado com o vibrar de um celular. Pudera! Vai que fosse algo com os garotos. Me desculpe! Mesmo que eu faça parte do seu governo… aliás… fiz, pergunto: qual o sentido desse ódio? O ódio é só pro mundo. Não pra mim! O senhor permite, neste momento, que eu seja agredido. O senhor não pode permitir que eu seja agredido dessa forma, Capitão. Isso não tá certo! Sou só gota nesse oceano! Só prego a paz. Mesmo em seu governo violento, eu só prego a paz. Eu me lembro com enorme dor quando eu não podia participar das reuniões às quartas-feiras visto que os generais tinham restrições contra mim. O senhor lembra? Eu ficava lá fora clamando ao pai eterno que num milagre houvesse uma fresta e eu pudesse escutar o que era dito, sabe? Humilde! Sempre humilde! E me preparava caso
mudassem de ideia. Serviria os melhores cafés, limparia seus rifles e lamberias suas botas com gosto. Mas não. Era excluído. Como bom amigo, guardava minha dor e me fortalecia pra bem atender a sua ou deles caso houvesse a demanda. Sem crise! Imagine se fosse com você, Capitão? Deus me livre! Eu nunca vazei nada, Capitão. Talvez tenha escorrido. Mas nunca vazei. E permaneci ali com o choro entalado quando o senhor disse que não me queria no hospital. Imagine minha dor? Imagine meu eu perdido no vale da não informação. O senhor lá tirando um monte de cocô que andou por tempos contigo e eu sem poder fazer nada. Triste! Mas respeitei seu momento a sós com seu saco de bosta. Tentei ligar… confesso. Mas me perdoe! E me desculpe pelas 3 vezes do whatsApp. Me doeu saber que em decorrência disso o senhor resolveu não falar mais comigo. Capitão, caso queira conversar, repensar, estarei aqui. Foi lindo e me entrego agora ao leito, à dor, ao vazio. Preciso chorar meu pranto acompanhado de um bom travesseiro. Adeus. Quem sabe depois a gente não conversa pessoalmente.

De seu eterno, Bebianno.

 

Guigo Ribeiro é ator, músico e escritor, autor do livro “O Dia e o Dia Que o Mundo Acabou”, disponível em Clube de Autores.

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