Carnavalizante. Por Guigo Ribeiro.

Imagem de annca por Pixabay .

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

Alguém vacila das pernas enquanto entoa o canto do agora, banhado por confetes que serão companhia até o natal. Natal carnaval. Outro brinca personagem viral e aproxima seus gestos em um desespero característico do agora posto em seu rosto, de maquiagem mal feita, borrada. A cidade permitiu que as cores se misturassem com seu cinza, concessão essa por poucos dias e uma vez ao ano. Até segunda ordem, diriam. A cidade joga para o céu sons que se confundem assim como a alegria demasiadamente alegre se confunde com estado permanente. Memória. Que alegria é essa que ontem parecia tão improvável? Como cantar tais versos em estado de mudez? Como permitir tão pronto a nudez que, certamente torcerão, será castigada? Dá impressão que alguém vai atravessar a avenida, subir no ponto máximo possível e gritar:

– PAREM O TEMPO!

Ou ainda guardar esse tempo em uma garrafa e jogar no mar na esperança de que esta atinja algo maior que eu e você, e este algo maior, enfim, decida: faça carnaval de sol a sol. Ou chuva, por que não, meu Deus? Até que se faça um acordo: que não acordem sem os dias que permitem voar nos instantes deste período. Certa vez presenciei contas feitas em setembro para a chegada do agora. Acredita? Nem mesmo nosso rito de comemorar declínio físico é tão determinante. A não ser pela possibilidade de um tal príncipe. 15 anos. Carnaval: O samba puxou cadeira para outros gêneros sentarem à mesa e aproveitar a cerveja. O samba também permitiu que suas cordas e peles fizessem outros sentidos. Há alguma democracia aqui. Há alguma democracia aqui? Em um momento tão bagunçado, como permitir-se vestir a máscara para além da própria máscara? Porque sim, ué. Porque nem tudo tem que ser tão explicado, detalhado. Por mais que não percebam, um tantão é só sentido. E comemorado. Um tantão é só estar jogado à vida, ao presente. Porque o depois traz filas. Remédios, contas e… contos do que foram esses dias. Alguém em algum lugar fez uma súplica:

Senhor,

Que perdoem este serem tão alegres por suas alegrias. E esses corpos que ousam dançar a bagunça. Que eu faria parte, se pudesse… SE QUISESSE. Pois não quero. Apesar que o som me leva a bater os pés sutilmente, inconscientemente. Mostrando que, sim, é mais forte que eu. Que diante do mundo, não sou nada. Uma mosca. Sim, adoraria ser uma mosca carnavalesca para rir em um bloco qualquer. Bloco de outrora, do agora, de protesto, manifesto… bloco de estar junto. Senhor, por que fizeste algo para além de mim, mortal, dado à repulsa mentirosa? Não é fato que minto para mim quando me abstenho do direito de ser sincero? Não é concreto a subjetividade de minha existência frente ao ponto chave, determinante… ao ponto de ser feliz? Voltei! Foi uma divagação, um teste. Que deixem-os sorrir essa utopia. Assim como sorrimos diversas outras.

Para quando passar a nuvem deste momento, que fique o molhado do chão dessa chuva que caiu. Tantas almas lavadas. Almas “perdidas” lavadas em um banho de “seguimos”. E pensar que vai dar saudade estes dias até o próximo ano. E pensar que, pouco a pouco, vou me tornando parte dessa época. Tenho plena certeza que muitas olharão aquela calçada e lembrarão como esteve colorida de confetes. Torço para que alguém, num ato de bravura, subverta todos estes conceitos postos e use de bom gosto para, enfim, pôr cor nesse todo. Clamo para que os que dizem “amo” mostrem todo instante mais amor. Por favor! Eu quero transformar o carnaval no amor de minha vida. Levar café na cama, esconder presentes pela casa ou mesmo não conseguir dormir após uma briga sem me desculpar. Quero que o carnaval se sinta amado como a pessoa mais amada do mundo e transitar pelos decassílabos equivocados. E tentar prever em seus olhos se o “gostei” foi sincero ou procedimento. Mania, bobagem. Quero andar de mãos dadas e que nos fotografem para que possamos aparecer uma página de rede social. Não importa! Sofreria o término com a dignidade e bravura de uma criança jogado ao choro e esperaria o momento certo de contar a história como quem visse uma fotografia de uma festa em um ano e a revisitasse anos depois. Quero fazer uma peça sobre o carnaval e transformá-la em Hera. Me persiga em sua fúria e tá tudo bem, meu bem. Ou escrever um rock, baião, valsa sobre o carnaval. Ternário colado só para rir dos pés que se perdem. Dançar tango em um samba. Só para me perder como o amor tem mania de fazer. Quero fazer uma escultura do carnaval e pôr em praça pública. Dada sua maestria, nem me colocaria como autor. Ou assumiria de uma vez por todas, com a plena convicção tão distante de mim, o pseudônimo de “Autor Desconhecido”. Sem ser desconhecido, um cadinho para ser lembrado. Rasguei o protocolo na votação da escola campeã. E dei o título para todas. Que dividam, façam um acordo, par ou ímpar. Sem virem! Me deem o direito de fazer algo sem me responsabilizar? Obrigado. Todas ganharão e farão um imenso carnaval juntas pelos próximos dias deste ano tão confuso. Deste ano que o cara que fala enrolado é presidente e mostra ao mundo seu atestado de pirado. Este ano que homens do microfone querem se aventurar em “resolver problemas sociais”. Este ano que o “presidente” segue embaralhando o maço mesmo constantemente trucado. Não estou com propensão à crer em Messias. Estou propenso ao palpite de jogos de azar dado pelo descrente na sorte. Ou mesmo inclinado aos pontos presentes que tornarão os dias melhores. Sejam por qualquer possibilidade. Quero só algumas! E quero um tur de ponta a ponta do país com todas as escolas, carros, blocos, bêbados juntos. Subindo pela costa, parando para um pão com manteiga ou margarina e, sobretudo, fazendo dessa pauta plausível. Quero que a festa comece lá no sul e que todas as portas de todas as casas, portarias e porteiros saiam e corram juntos até o norte. Quem sabe alguém não inventa de invadir fronteiras e pôr a “bilinguidade” no jogo. Vai valer tudo que queiram que valha. E ponto. O que não quiserem, que respeitem e conte histórias. O “ninguém é de ninguém” só se quiser.

E desse samba que canto pra ela

É sereia, a deusa, a mais bela

É um samba que fiz pra brincar

É no samba que quero morar

Coloque o ritmo que bem entender.

*****

Se despeça. Entendo a velocidade das coisas. Entendo o tempo e suas decisões. Entendo também que ele as toma e ponto. Não se faz necessário consulta. Isso um tanto me agrada pois as surpresas são oportunidades, novos olhares. Então se despeça do carnaval. Sinta os tambores se afastando na próxima esquina, na curva que nos afasta. O cavaquinho chorando longe de modo a não resgate. Sei, você queria pegá-lo no colo e acompanhar seu choro, mas não. Eu também. Veja as últimas fitas nos fios ou um chapéu perdido de um sambista desastrado. As coisas são rápidas mesmo. Agora você está só na avenida e os semáforos voltam lentamente a funcionar. Perceba que as ruas, não feitas para pés e sim para pneus, não é mais sua. Não é de ninguém além da máquina. A passista vai retornar ao posto de trabalho. As mesas de bar – acomodadas aos finais de semana – estarão repletas de casos para serem contados pelas próximas duas semanas. Duas semanas. Novas memórias tomarão estas e desejo que sejam tão boas quanto. Apesar de nem sempre. A fantasia está novamente no armário. Guardemos nossa alegria para depois. Para outro momento, para outra fase. Só ano que vem. Tudo bem. Ou não. Mas aceitemos. Isso foi tudo e o tudo é tanto de coisas reunidas numa caixa de sapato. Depois a gente volta a brincar de outra coisa qualquer. Quem sabe. Depois a gente se encontra para carnavalizar de novo. Entraremos, eu não vejo a hora, de novo no estado carnavalizante.

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Guigo Ribeiro é ator, músico e escritor, autor do livro “O Dia e o Dia Que o Mundo Acabou”, disponível em Edfross.

 

 

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