“Carnaval perde essência para poder lucrar”

Por Assis Ribeiro.

Fevereiro mês do carnaval. Uma boa reflexão do processo de aculturação de um movimento popular.

Pai do Axé reconhece “culpa” e lança música contra apartheid

O Pai do Axé, Luiz Caldas, tornou-se um crítico da indústria do Carnaval baiano. Em sua nova música, composta em parceria com César Rasec, lamenta a “chuva de grana” por trás da organização dos foliões de Salvador em camarotes e blocos com abadás. Divisão que, no olhar do músico, arranca a espontaneidade da festa. “O Carnaval perde na essência para poder lucrar na parte financeira”, lamenta em entrevista a Terra Magazine.

Saudoso de tempos em que não havia a “farda” que uniformiza os blocos, Caldas se vê como um dos responsáveis pelo mal que ataca. Sua música Fricote, que em 2010 comemorou 25 anos, é considerada o marco inicial do axé. O ritmo passou a embalar trios elétricos e foi o pano de fundo de um processo que tornou o Carnaval mais lucrativo para grandes empresas do entretenimento. Para o músico, tudo terminou por concentrar as atenções da festa em poucos artistas de visibilidade e excluir “profissionais que fazem Carnaval de uma forma tão brilhante”.

p>- Eu tenho claro o meu quinhão de culpa nisso. Porque, afinal de contas, eu sou o criador do Axé Music. Antes de mim, era só o frevo. Eu dei uma música nova pra Bahia. E, claro, trouxe também as gravadoras pra os artistas daqui.

Com gravadoras ele não lida mais. Afirma que se recusou a “baixar a cabeça” e preferiu a liberdade de compor como quer e disponibilizar suas músicas na internet. Recentemente, lançou em seu site 130 músicas inéditas e pretende seguir trabalhando até que 280 canções estejam no ar.

Sobre a “culpa” pelo apartheid carnavalesco, acrescenta que nunca participou das mudanças na festa baiana.

– Eu toquei durante anos em blocos de graça. Eu tocava para o povo mesmo. Hoje em dia seria impossível alguém ir pro Carnaval tocar de graça, esse romantismo ficou lá atrás.

Em 2012, o cantor e compositor deve sair em um trio elétrico independente, ainda sem data para circular por Salvador.

Terra Magazine – O que motivou sua música sobre o apartheid no Carnaval? É uma canção de protesto?

Luiz Caldas – Eu e César Rasec, meu parceiro, começamos a ver a grande transformação que o Carnaval sofreu e vem sofrendo. Vai sofrer outras ainda, nada fica como está. Mas só que a mudança que houve no Carnaval foi muito mais pelo lado financeiro. Não pelo lado da arte, como foi nos anos passados. Antes a coisa modificava pelo jeito de as pessoas dançarem, pelo jeito das pessoas se fantasiarem. Mas de um tempo pra cá virou um grande negócio. E quem realmente criou o Carnaval está sendo deixado de lado. É o folião pipoca. Não chega a ser um protesto, é só um alerta. Não há necessidade de protestar porque eu não sou contra o comércio. Não sou contra ninguém ganhar grana. Mas você não precisa matar a galinha dos ovos de ouro. Porque, neste caso, a galinha dos ovos de ouro pra mim é a alegria, é a espontaneidade do Carnaval. Trocaram a fantasia que a pessoa fazia em casa – como era antigamente – por um pedaço de pano que é o abadá. Ficou todo mundo vestido igual, tipo uma farda. O Carnaval perde na essência para poder lucrar na parte financeira.

Sua música tem um diálogo do folião pipoca com o sujeito do camarote. Você acha que o folião pipoca pode acabar? Está diminuindo a participação do povo?

O Carnaval que mais tem participação popular mesmo é o de Pernambuco, que não modificou seu formato de deixar o folião ele mesmo cuidar da onda, do visual dele. O lance de você cuidar da sua música. Hoje o Carnaval de Salvador é legal, mas eu não consigo compreender muito bem o lance da música eletrônica em cima de um trio elétrico. Você pode ter uma música, mas daí a ter forró em cima do trio… Eu acho interessante quando uma banda que faz Carnaval toca uma música ou outra. Mas trazer assim é uma forma meio estranha. Você acaba tirando profissionais que fazem Carnaval de uma forma tão brilhante.

Você acha que o Carnaval de Salvador deixou de ser espontâneo?

Deixou e está deixando de uma forma muito rápida. A gente tem que ter cuidado porque nossa música sempre teve uma carga de baianidade e negritude muito grande. Aos poucos, eu sinto que isso vem dando espaço pra música norte-americana, com Beyoncé e várias outras. Muitos artistas nossos estão levando por esse lado. Acho que é muito melhor primeiro a gente se preocupar com a música e depois com a coreografia, essas coisas. Porque quem vai dançar mesmo é o povo.

Você faz essa crítica de o Carnaval estar mudando muito e por razões financeiras. Você não acha que também é um dos pais dessa mudança? Com Fricote e o surgimento do Axé, não foi quando a coisa passou a ser mercantilizada de uma certa forma?

Sim, eu tenho claro o meu quinhão de culpa nisso. Porque, afinal de contas, eu sou o criador do Axé Music. Antes de mim, era só o frevo. Era esse Carnaval que estou dizendo. E quando eu cheguei o Carnaval ficou mais democrático musicalmente. Eu vim do baile, por isso que criei o axé. Porque eu queria poder tocar de vez em quando um rock, um samba. E o trio elétrico era basicamente frevo. A gente tinha nossa invenção genuinamente baiana, o trio elétrico, mas utilizava música de outro Estado. Eu dei uma música nova pra Bahia. E, claro, trouxe também as gravadoras pra os artistas daqui. Mas se você for olhar a mudança do Carnaval, eu não participei. Porque eu toquei durante anos em blocos de graça. Eu tocava para o povo mesmo. Hoje em dia seria impossível alguém ir pro Carnaval tocar de graça, esse romantismo ficou lá atrás.

Você também jamais poderia prever isso, não?

É impossível prever esse tipo de coisa. Hoje em dia algumas pessoas fazem esse tipo de trabalho querendo prever no que vai dar, mas não dura. Não serve pra uma carreira, vira um cometa que passa e tchau. Então, é muito difícil pensar isso e encarar o meu trabalho. Pensei sempre em ter uma carreira longa com música. Por esse motivo, nunca baixei minha cabeça em reuniões com gravadoras. Já quiseram modificar o meu estilo, mas eu não podia fazer isso. Eu carregava ali a música da Bahia. Depois de Caetano, Gil, Gal e Bethânia, eu era o grande representante. Graças a Deus eu consegui bater o pé sempre e fazer com que a minha carreira… Poxa, estou fazendo quase 42 anos de música já.

Como você está vendo a construção de um camarote numa praça pública de Salvador? (A obra na orla do bairro de Ondina foi alvo de protestos organizados pela internet contra o prefeito João Henrique).

Eu sou totalmente contra usar qualquer espaço público e torná-lo privado. A praça é do povo. Quem quiser fazer seu camarote, que pegue um lugar fechado, alugue e faça. Usar a ferramenta que o povo tem, a praça, acho uma loucura. Já está tudo apertadinho aqui.

Como vai ser o seu Carnaval este ano?

Estamos homenageando Jorge Amado este ano. E eu faço parte desse universo dele através da novela Tieta, da música. Então, com certeza vou cantar Tieta em homenagem a Jorge Amado num trio independente por aqui. Toco aqui uns três dias, na Barra e no Campo Grande, e depois viajo pra Pernambuco e Rio Grande do Norte.

 

Veja a letra de Apartheid da Alegria:

 

APARTHEID DA ALEGRIA
(Luiz Caldas e César Rasec)


Chuva de grana, carnaval com capilé
A festa acabou sendo o que é
Estica e puxa na fila pra desfilar
E a pipoca já não brinca sem gastar

No apartheid da alegria
O trio que passa traz a massa
E no camarote, segurança e muito mimo de graça
Dentro do bloco a beijação não traz pirraça
Do outro lado o Pitt Bull só quer brocar
Não se volta no tempo sem respeito à praça
Careta agora é só pra se enfezar
Agora é o abadá, mortalha nunca mais
Pois quando tudo é free sempre se quer mais
E atrás de espaço fica o nobre cidadão
Maluco pra tirar o pé do chão

Ei você aí do camarote, toma uma aí por mim
Porque aqui embaixo é bico seco, agora é assim (bis)
Ei você que tá nessa pipoca, pula um pouco aí por mim
Porque dessa mordomia eu só vou sair no fim

Luiz Caldas (voz, guitarras baianas, guitarra base, baixo, caixa e surdão), Claudinho Guimarães (pratos) e Andréa Caldas e Paulinho Caldas (vocal)

Fonte: Terra Magazine

Imagem: A Tarde

2 COMENTÁRIOS

  1. Não há milagre ou sorte para a riqueza
    deve trabalhar e usar a sabedoria, a fim de melhorar os conhecimentos e usar isso para sua vantagem, uma maior riqueza da sabedoria humana é saber como usar estratégias de sua empresa e serviço certamente terá sucesso gradual
    e pode, portanto, chegar a riqueza material!

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