Camisa 10 da Seleção em Brasília

 Vitinho 2

Por Victor José Caglioni*

A capital do Brasil é sem dúvida uma obra prima, onde as mãos do homem competem e ou se junta ao esplendor do céu do centro Oeste, quem já reparou no por do sol nessa cidade sabe da magnitude que este oferece aos olhos, e quem não reparou e por aqui andou, seguramente bom observador não é.

Estando dentro do eixo diretor e algumas zonas de Taguatinga, a riqueza e fartura são evidencias do caminho rumo ao primeiro mundo do consumo e bem estar material, e foi nesse cenário que presenciei uma cena que parecia clássica de documentários sobre nosso país nos idos de 80 e 90…

Um menino afro, de chinelo de dedo, short e camiseta da seleção brasileira (número 10! Um herói?) carregava sua caixa de engraxate, entre os ombros, enquanto oferecia seu trabalho aos taxistas de uma das zonas do setor hoteleiro.

Parecia conhecido dos mesmos, pela desenvoltura, foi sentado na calçada de um final de tarde com vento frio (para padrões locais) que ele tratou de engraxar os pares de sapato de dois deles, eu observando a cena resolvi permanecer ainda que tivesse sinal de transito preferencial para pedestre.

Ao término do trabalho, o menino recebeu algum dinheiro, e foi em direção ao hotel X, em que há uma rampa da entrada, usada para acesso a todo aquele que não pode ou quer usar a escada, bem abaixo no canto do início dessa rampa, há um vão entre as grades de ferro de sustentação e o chão, ali nesse vão ele deixa sua caixa de engraxate, bem escondido, e sai em direção ao ponto de ônibus próximo de um shopping.

Fico imaginando que tipo de racionalidade opera na vida social de uma criança que trabalha no centro de maior concentração de riqueza desse país imenso e muito rico, engraxando sapatos, frente a toda estrutura que vê, frente a tudo que a sociedade produz e discursa, ontem, hoje e provavelmente amanhã. Seguramente a diária de qualquer um dos hotéis nas proximidades  é de valor muito maior que talvez o mesmo ganhe por semana de trabalho, e ainda que estivesse enganado, este menino trabalha prematuramente e por alguma razão sub-existencial será!

Ali algumas quadras, semanas antes, a câmara representada por um líder político aprovou cortes no orçamento em várias vertentes sociais, e por outro líder a construção de um mega shopping da câmara avaliado “inicialmente” em 1 bilhão de reais, e não adianta  acharmos bode expiatório, trata-se de uma estrutura de decisões que em geral não acompanhamos, não nos atentamos a quem são os personagens dessas decisões, quem sustenta esse poder, assim como temos em geral uma dificuldade tremenda de observar fatos e atos que nos tire da rotina, ainda que somos bem informados sobre o que acontece com o camisa 10…

Eis um excelente exercício para realizarmos em nossas cidades, mas Brasília, por ser tão bem idealizada pelo sonho de JK e seus amigos, pelos peões que a construíram, pelos que usufruem, pelos que decidem, pelo céu,  parece ser o cenário perfeito para tal!

*Victor José Caglioni é sociólogo e colabora com Desacato.info

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