Caminhões não recuam e petroleiros prometem aprofundar a pauta a partir de quarta

Os ministros da Secretaria de Governo, Carlos Marun, da Casa Civil, Eliseu Padilha, e de Segurança Institucional, Sérgio Etchegoyen, após reunião do gabinete de monitoramento criado para acompanhar o movimento dos caminhoneiros.Foto Antonio Cruz/Agência Brasil

Por Giselle Zambiazzi, para Desacato.info

A segunda-feira amanheceu cheia de incertezas. A ABCAM (Associação Brasileira de Caminhoneiros) afirmou oficialmente que a paralisação chegou ao fim depois de um acordo assinado com o governo (encurtador.com.br/hoxS8).

Porém, com um país inteiro parado por oito dias, a dissolução do movimento que teve adesão de diferentes setores da sociedade não parece ser algo tão simples. Na própria página da ABCAM (encurtador.com.br/bclT7) as manifestações são de total repúdio à postura da entidade e um desejo de que a paralisação não só continue como avance nas pautas.

Entre os maiores pedidos da população estão a inclusão da redução nos preços da gasolina e do gás de cozinha na pauta que, conforme o acordo assinado, atende somente itens como preço do diesel, tabelamento do frete e pedágios. A ABCAM, por outro lado, diz que os caminhões voltam a trabalhar, mas a luta continua. Nas maiores capitais do país, São Paulo e Rio de Janeiro, os caminhões voltaram a circular.

Ao mesmo tempo, há caminhoneiros que se recusam a voltar ao trabalho e estão tentando manter a categoria mobilizada. Os bloqueios ainda somam 556 em todo o país (encurtador.com.br/ixGUW). Em importantes cidades portuárias de Santa Catarina como Itajaí e Imbituba, nenhum caminhoneiro arredou pé e não há sinal de que voltem ao trabalho. Em Campinas, um sindicato que congrega transportadores autônomos deu entrevista a uma rádio de veiculação nacional dizendo que não irá desmobilizar. Em Penha, o comércio fechou as portas.Várias manifestações estão marcadas em todo o país pela população em geral. Em Nova Trento, a CDL local fez uma mobilização no centro da cidade.

De qualquer forma, para o historiador Waldir Rampinelli, do Departamento de História da UFSC, havendo ou não desmobilização neste momento, o saldo é positivo. “Ao mesmo tempo em que os caminhoneiros trouxeram uma pauta particular, eles também representaram uma demanda do povo, que não aguenta mais o alto custo de vida”, avalia.

Rampinelli aposta na ampliação da consciência de classe. “Os caminhoneiros formam uma categoria menos politizada, mas eles contaram com o apoio de várias entidades e outros trabalhadores que viram aí uma chance de trabalhar essa politização. Tenho certeza de que eles saem desse movimento mais conscientes”, acredita.

Petroleiros

A postura dos petroleiros desde o início das paralisações é uma das fontes das afirmações de Rampinelli. A categoriapromete um novo sacode no país para os próximos dias. Bem mais politizada e com uma liderança forte, eles foram aos bloqueios conversar pessoalmente com os caminhoneiros para explicar com mais profundidade os motivos da crise. “E é isso que se tem que fazer nesses momentos. A gente nunca muda um país pelo voto, mas pela organização de um povo”, salienta.

E organização é o que não falta entre os petroleiros. De acordo com uma entrevista dada pelo coordenador da Federação Única dos Petroleiros esta manhã, José Maria Rangel, ao jornalista Renato Rovai (encurtador.com.br/dpHQY) a paralisação da categoria já estava prevista muito antes da greve desta semana. “O movimento dos caminhoneiros joga luz sobre um assunto que para os petroleiros já é preocupante há muito tempo e que estava escondido debaixo do tapete”, disse. “Toda vez que trazíamos o assunto à baila, a imprensa hegemônica fazia o discurso que está fazendo hoje de que os governos do PT roubaram. O que está acontecendo é um projeto de entrega do patrimônio público ao capital estrangeiro”.

Hora de trabalhar

Rampinelli vê em todas essas questões uma oportunidade preciosa de fazer a sociedade entender como as cosias funcionam. “A crise está instalada. A vida está cara, o desemprego é grave, a corrupção é sistêmica e falta legitimidade do governo. A partir de agora as questões se aprofundam”, afirma.

É exatamente o que propõe a greve dos petroleiros. Em uma análise mais conjuntural, Zé Maria explica em todos os seus discursos a deformidade da política aplicada por Pedro Parente, que nada mais é do que um entregador da Petrobrás ao capital estrangeiro. Conforme explica o trabalhador, a Petrobrás tem capacidade para processar todo o consumo nacional, mas, por opção de Temer e Pedro Parente, reduziu essa capacidade a 70% abrindo as portas do Brasil para empresas estrangerias.

Essa é a lógica do capitalismo que produz o subdesenvolvimento dependente. A matéria-prima é vendida a empresas estrangeiras a um preço muito baixo enquanto que essas mesmas empresas estrangeiras revendem o produto beneficiado a um preço muito mais alto. No caso do Brasil, apesar da capacidade de fazer tudo em casa, o governo abre mão disso e vende o petróleo para comprar gasolina, diesel, gás e outros derivados a valores altíssimos.

Pedro Parente está no poder há mais de 30 anos.Ele ficou conhecido em 2001 como “ministro do apagão” pela gestão desastrosa que levou à interrupção do fornecimento energia elétrica em todo o país. De acordo com Zé Maria, o compromisso de Parente é com os bancos internacionais. “De todos os fatores que oferecem resultados positivos à Petrobrás, ele só tem gerência sobre um deles. Ele ainda não foi entregue porque o mercado financeiro o considera importante para concluir a entrega da Petrobrás”, disse o líder dos petroleiros na entrevista mencionada acima.

Fora Temer

Na análise de Rampinelli, Temer não deve cair. “Acredito que ele fica até a eleição, mas hoje ele não passa de um cadáver ambulante. Sua preocupação é o dia 1º de janeiro, quando ele perde imunidade. Temer é um ladrão histórico. A classe dominante está feliz. Ele cumpriu seu papel e agora, para dar uma resposta à sociedade, certamente vai colocá-lo na cadeia”, avalia o historiador.

Os petroleiros não miram a artilharia sobre Temer, mas exigem a saída de Pedro Parente. “Nossa paralisação não tem caráter reivindicatório corporativo. Queremos uma mudança na política da Petrobrás e todos os sentidos. A greve é por uma mudança de política”, garante.

A paralisação dos petroleiros por enquanto será de apenas 72 horas a partir da próxima quarta-feira, 30. Conforme Zé Maria, será o que eles chamam de greve de advertência, como um recado ao governo. Porém, já tem uma reunião marcada para o dia 12 de junho quando será definida a data da greve permanente. “Será um dia nacional de luta furando a bolha da categoria petroleira e indo para a sociedade explicar porquê ela paga mais pela gasolina, pelo gás e pelo diesel”, finaliza Zé Maria.

Vale ressaltar ainda que dezenas de greves menores continuam pipocando em todo o país, algumas incentivadas pelo movimento dos caminhoneiros, outras não. Em todo o ano de 2017, o DIEESE registrou mais de mil paralisações de diferentes categorias no Brasil.

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