Caetano, por qué no te callas?

Por Marino Boeira.

Um músico admirável, tanto como compositor , como cantor, Caetano Veloso toda a vez que emite uma opinião política perde uma grande oportunidade de ficar calado. No jornal O Globo, ele resolveu criticar o livro do professor Vladimir Safatle , “A esquerda que não teme dizer seu nome”, um pequeno volume de menos de 100 folhas, editado pelo grupo da Folha de São Paulo, onde o professor tem uma coluna semanal. No seu livro, ele defende duas posições básicas para a esquerda brasileira: o igualitarismo e a indiferença em relação ás diferenças. No caso do igualitarismo, Safatle não pretende que médicos e juízes ganhem o mesmo que garis e policiais, mas postula que a diferença entre o maior salário e o menor não seja mais do que vinte vezes e lembra que nos países escandinavos, como Suécia e Dinamarca, esta diferença não é maior que quatro. Mas o que realmen te motivou Caetano a criticar o livro foi a bandeira levantada pelo professor Safatle de que a esquerda deve lutar para que o Estado seja indiferente às diferenças. Disse Caetano que ser indiferente e universalista seria voltar à esquerda da sua juventude para quem as questões de raça, sexo, nacionalidade e estética eram diversionismos que desviariam da revolução. Como Saflate é um professor e quando o aluno não entende da primeira vez uma tese, o bom professor volta a explicar. Em sua coluna na Folha, ele esclareceu um pouco mais: “Longe de mim querer diminuir a importância dos apelos de modernização social embutidos em demandas de reconhecimento da diversidade de hábitos e culturas. Estas são questões maiores, por tocarem diretamente a vida dos indivíduos em sua singularidade. Não se trata de voltar aquém das políticas das diferença s e de defesa das minorias. Trata-se de tentar ir além.Quando afirmo que devemos ser indiferentes à diferença é por defender que a vida social deve alcançar um estágio no qual a diferença do outro me é indiferente. Ou seja, a diversidade social, com sua plasticidade mutante, deve ser acolhida em uma calma indiferença”.

E para tornar mais clara a sua exposição, dá um exemplo: “Discute-se hoje o direito (a meu ver, indiscutível) de homossexuais se casarem. Mas por que não ir além e afirmar que o ordenamento jurídico deve ser indiferente ao problema do casamento?Indiferença significa, aqui, não querer legislar sobre as diferenças. Ou seja, por que não simplesmente abolir as leis que procuram legislar sobre a forma do casamento e das famílias, permitindo que os arranjos afetivos singulares entre sujeitos autônomos sejam reconhecidos?”

Enquanto o livro do professor Saflate ajuda a entender o Brasil e seus agentes sociais, outro ,também saído agora e com muito maior divulgação, mais confunde do que esclarece. Trata-se de “Memórias de Uma Guerra Suja”, um depoimento do ex-policial do Espírito Santo, Cláudio Guerra, dado aos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros. Em primeiro lugar, a leitura é dificultada pelo próprio texto, que no mesmo capítulo, ora narra as ações na primeira pessoa e ora na terceira, confundindo o leitor,entre outros problemas de fluência de narração. O policial que se apresenta como um matador a serviço de um grupo paramilitar apoiado pelo SNI e pelos DOI-CODI,diz abominar a tortura, mas ajuda a dar sumiço nos corpos dos presos políticos depois de torturados. Os principais nomes de torturadores revelados por ele, ou já são mais do que conhecidos, como o coronel Brilhante Ustra, ou mortos como o coronel Freddie Perdigão, apontado como o cérebro por trás das ações terroristas do Estado. Uma novidade revelada é a cremação de corpos de presos políticos numa usina de açúcar no interior do Rio de Janeiro, o que serviria também para justificar que a busca dos corpos dos presos desaparecidos, cobrada hoje pelas suas famílias, fosse abandonada. O policial revela sua participação no atentado do Rio Centro e na Chacina da Lapa, em São Paulo, mas não traz nenhuma novidade sobre estes assuntos. Sua grande revelação, porém, é de que o Delegado Fleury não teria morrido de acidente, mas sim executado pelos seus companheiros , porque se pretendia acima dos militares que comandavam as operações contra os opositores do regime. Fora isso, o que surpreende no livro não são tanto as declarações do policial Cláudio Guerra, mas as de um dos seus autores, o jornalista Marcelo Netto, que diz na apresentação da história, após informar que integrou grupos que executavam açà µes armadas e que por isso passou dois anos preso: “Na minha opinião, foi bom para o país que os militares tenham vencido aquela guerra suja dos anos 1970. O Brasil hoje é melhor do que seria se nós – o outro lado – os tivéssemos derrotado.” Estranho isso, alguém que toma conhecimento e divulga todas as atrocidades cometidas pelos agentes de um estado terrorista, dizer que assim foi melhor, por que o outro lado, que só reagiu contra a ilegalidade de um sistema repressivo, era ainda pior.

Marino Boeira é professor universitário.

Fonte: http://sul21.com.br

 

 

 

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