Cabo Verde: Pátria dos insólitos

  Por Nuno Rebocho.

Cabo Verde vai, aos poucos, alcançando a modernidade: sucedem-se as manifestações (foi contra a falta de eletricidade – aconteceu na cidade da Praia; foi contra o programa governamental “Casa para todos”, que as más-línguas traduziram por “Casa para alguns”; foi contra as carências de água – aconteceu no Salineiro) recebidas pelo Primeiro-Ministro com bonomia e comentários públicos: “é natural que a juventude proteste”, “se eu fosse jovem, da idade deles, talvez estivesse entre os manifestantes”. Foi, mais ou menos, assim. Agora, as centrais sindicais (viva o pluralismo!: existem duas, quase à imagem e semelhança de Portugal, tudo tirado a papel químico) juntam-se num acordo e ameaçam o Governo com uma – oh, coisa nunca dantes vista! – greve geral. Sem mais! Conclui-se que a “sociedade civil”, à força de levar coices e ser menosprezada, finalmente desperta da sua letargia e dá sinais da sua existência.

Portanto, provado é: não há fome que não dê em fartura. Tomaram-lhe o gosto e, com raiva, a maçã do progresso é mordida com o mesmo entusiasmo que os cabo-verdianos usam pôr nas coisas. E o seu Primeiro-Ministro, José Maria das Neves, olha sardonicamente para os factos e sorri: com o habitual à-vontade com que tem superado as crises e se perpetua no galarim (dizem as más-línguas, sempre as más línguas, que com recurso a “chapeladas” em três eleições consecutivas e a “compra de votos”), Neves vai fazendo pela vida e tentando atravessar esta fase já dita de fim de ciclo. Se alguma amargura lhe cabe, vai-se revendo no filho, acabadinho de se formar e já com altos cargos de gestão em empresas dependentes do Estado e opinion maker, como convém: ao fim e ao cabo, costuma dizer-se que “quem sai aos seus, não degenera” e que “filho de peixe sabe nadar”.

Afirma um meu amigo que desde que vira um porco andar de bicicleta – deve ter sido num circo, porque só em tal sítio se enxergam anomalias – já nada o surpreende. Provavelmente, tem razão, porque para tudo neste mundo devemos de estar preparados. Consequentemente, que se tome por coisa normal o nunca visto de, um dia destes, depararmos com um Primeiro-Ministro liderando uma manifestação a pedir a demissão do (seu) Governo. Acontecerá em Cabo Verde (poderia lá ser noutro Pais?), que certos qualificam, com acertado humor, de pátria dos insólitos.

Fonte: Revista eisFluências

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