Brasília é o Brasil

Por Antonio Lassance.

Brasília é uma vitrine que expõe, de forma concentrada e desconcertante, o que há de melhor e de pior na república brasileira. Qualquer solução a ser trilhada também requer um olhar de 360° e encarar a encruzilhada que define o traçado da Capital.

Brasília é o Brasil. Se alguém queria uma capital para bem representar o País, aí está. Em suas virtudes e vícios. Em sua beleza e mazelas. Em seus bons e maus exemplos.

Ela foi planejada na época em que o planejamento tinha se tornado algo muito importante. E como tudo o que é planejado, teve suas regras desfeitas pela atividade humana e desumana, com a ação ou inação dos governos.

Brasília foi formada por gente vinda do país inteiro. Os construtores, apelidados de candangos, vieram sobretudo do Centro-Oeste, do Nordeste e de Minas Gerais. Os cariocas foram trazidos das repartições da velha capital. Os comandos militares e o Congresso completaram o quadro, trazendo pessoas de todos os Estados.

Os “políticos de Brasília” são políticos do Brasil. Os do Distrito Federal são meros 1,55% dos deputados e 3,7% dos senadores. Como na representação de qualquer outra unidade da federação, há gente séria e picaretas, políticos por vocação e políticos por profissão. Uns ajudam o País. Outros ajudam a atrapalhar.

Brasília tem algumas boas diferenças. Quem vem de fora reclama que tudo é muito distante. Verdade. Tudo está separado em setores e entremeado por grandes áreas verdes. Há gramados demais, árvores demais e estacionamentos de menos. A vantagem é que a cidade, pelo menos por enquanto, não precisa de piscinões. A chuva tem por onde escoar e ser sorvida pelo solo. A solução foi prevista intuitivamente por Lucio Costa, gênio da simplicidade, no que ele chamava de “cidade-parque”, com mais árvores que qualquer outra, “derramada e concisa”.

Poeta do espaço urbano, Lúcio Costa é autor da frase de que “o céu é o mar de Brasília”, sua maior beleza natural. Em sua revisão do plano da Capital, dedicou um tópico para falar sobre “a presença do céu”. Dizia que “da proposta do plano-piloto resultou a incorporação à cidade do imenso céu do planalto, como parte integrante e onipresente da própria concepção urbana”. “A cidade é deliberadamente aberta aos 360 graus do horizonte que a circunda”.

Brasília também é conhecida por ser uma das poucas cidades no país onde as pessoas respeitam a faixa de pedestre. Um hábito cultivado pelos cidadãos, mas que dependeu do empenho de um de seus governos, preocupado com o diagnóstico de elevação das mortes no trânsito. Sempre que aparecia um governo menos interessado em zelar pela regra, o desrespeito voltava a se disseminar entre os motoristas.

Muito do mau exemplo que vem de Brasília pode ser explicado por sua condição de eldorado. Houve gente que se dedicou a ficar rica com a expansão da cidade e com o controle político do Palácio do Buriti, sede do Governo do Distrito Federal. A Capital e o capital andavam e ainda andam de mãos dadas. Será isso diferente de outras capitais?

Joaquim Roriz, o último governador biônico do Brasil, depois eleito sucessivas vezes, montou sua base política em cima da expansão urbana em áreas isoladas, aliando-se aos barões da construção civil, que tomavam conta das zonas centrais, que se valorizavam exponencialmente. Os maiores, Luiz Estevão e Paulo Octávio, enveredaram pela política e multiplicaram suas fortunas, assim como Roriz. Todos eles estão impedidos de concorrer a eleições pela vigência da “ficha limpa”.

Brasíia deveria ser uma cidade modelo. Foi pensada para fornecer o efeito-demonstração das vantagens da modernidade. Proporcionaria um contraste tão evidente que envergonharia um país de vícios teimosos do passado. Era muita presunção.

Mas, Brasília, ainda assim, é um exemplo. Um exemplo do quanto os planos são bem vindos se transformam problemas complexos em soluções simples. Do quanto os governos são fundamentais para que essas soluções práticas se renovem o tempo todo, evitando que as condições de vida decaiam. E se tornou exemplo do quanto a política, patrocinada pelo capital, se torna uma empresa que produz corrupção em larga escala.

É disso que se trata quando falamos de Brasília e do Brasil. A cidade é apenas a vitrine que expõe, de forma concentrada e desconcertante, o que há de melhor e de pior na república brasileira. Qualquer solução a ser trilhada também requer um olhar de 360° e encarar a encruzilhada que define o traçado da Capital.

Antonio Lassance é cientista político e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente opiniões do Instituto.

Fonte: cartamaior.com.br

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here