Brasil versus Chile

20170329-170329a-600x377Por José Eustáquio Diniz Alves.

O Chile é dono de uma das geografias mais extremas do continente americano, abrigando uma sequência de paisagens que vai da gelada e isolada Patagônia ao norte árido do país, onde se destaca o deserto do Atacama. O país possui mais de 2 mil vulcões, dos quais 80% deles, aproximadamente, contam com registros eruptivos nos últimos 450 anos. Sendo um dos países mais sísmicos do mundo, o Chile conta cerca de 500 vulcões ativos atualmente.

Além disto, sofre constantes terremotos e tsunamis. Quase todos as cidades contam com “Rutas de Evacuación” para emergências. Chuvas extremas costumam fechar o acesso aos parques nacionais e erupções costumam paralisar os aeroportos.

Em janeiro de 2017, um grande incêndio florestal atingiu a região de O’Higgens, no centro do país. A presidenta do Chile, Michelle Bachelet, decretou o estado de emergência ante os piores incêndios da história do país, que deixaram seis mortos e 12 feridos, enquanto se registrou condições climáticas extremas, inclusive agravando a poluição e o smog em Santiago. O Chile parece viver num inferno de desastres naturais.

Enquanto isto, o Brasil, “abençoado por Deus e bonito por natureza”, deveria colher os frutos de suas “vantagens naturais” e da ausência de vulcões, terremotos e tsunamis. Acontece que o Chile – convivendo constantemente com a fúria da natureza e tendo passado por uma das ditaduras mais cruéis da América Latina – está se saindo melhor em termos econômicos e sociais.

O gráfico acima mostra que o Brasil, em 1980, tinha uma renda per capita (em poder de paridade de compra – ppp) de US$ 4,8 mil, cerca de 40% superior à renda per capita do Chile de US$ 3,4 mil. Contudo, a vantagem brasileira se esvaiu na década de 1990 e o Chile ultrapassou a renda per capita do Brasil. Em 2016, a renda per capita foi de US$ 15 mil no Brasil e US$ 23,8 mil no Chile. As projeções do FMI indicam uma renda per capita de US$ 16,6 mil e US$ 27,5 mil, respectivamente.

Evidentemente, a renda per capita não é o melhor indicador de bem-estar de um país. Porém, outros indicadores mostram que o Chile tem se dado melhor também na área social. Segundo a Divisão de População da ONU, a mortalidade infantil, no quinquênio 1950-55, era de 137 por mil no Brasil e de 130 por mil no Chile, passando para 16 por mil e 6 por mil, respectivamente, no quinquênio 2015-20. Ou seja, o Chile reduziu mais rapidamente a mortalidade infantil e já se encontra no nível dos países mais desenvolvidos do mundo.

vulcão Osorno

Em termos de esperança de vida ao nascer, o Brasil chegou a 75,4 anos e o Chile a 82,7 anos, no quinquênio 2015-20. Portanto, o Chile tem uma esperança de vida ao nascer superior à dos Estados Unidos. Em 2015, segundo dados do PNUD, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Chile ficou em 0,847 (avançou 4 posições e subiu de 42ª para a 38ª posição), ficando no grupo dos países com o mais alto IDH. Já o Brasil ficou estagnado e com IDH de 0,754 (79ª posição e no grupo dos países de alto IDH). Até na área da previdência social, mesmo com todas as precariedades, o Chile está melhor do que o Brasil.

De forma surpreendente, o Chile, com uma economia absoluta menor do que a do Estado de São Paulo e com apenas 18 milhões de habitantes, ostenta a liderança na produção de energia renovável na América Latina. O país tem projetos de US$ 9 bilhões no setor de energias renováveis não convencionais durante os próximos quatro anos, e busca romper sua alta dependência dos combustíveis fósseis e avançar na economia de baixo carbono. No início de 2017 entrada em funcionamento de sua primeira central da cidadania, buscando incorporar os cidadãos na produção e no desenvolvimento das energias solar e eólica.

Enquanto isto o Brasil abre a possibilidade de venda de terras aos estrangeiros, tem as reservas ecológicas ameaçadas e vê crescer o desmatamento da Amazônia. Estudo do Imazon mostra que entre 2012 e 2015, 237,3 mil hectares foram desmatados dentro de Unidades de Conservação (UCs) da Amazônia, causando grandes danos ambientais. Aproximadamente 136 milhões de árvores foram destruídas, causando a morte ou o deslocamento de aproximadamente 4,2 milhões de aves e 137 mil macacos, considerando a densidade típica de animais e plantas na floresta.

Já o Chile caminha no sentido inverso. A presidenta Michelle Bachelet e Kristine McDivitt assinaram, em março de 2017, um acordo para transferência de terrenos que criará no Chile uma rede de parques nacionais do tamanho da Suíça. Segundo reportagem da BBC, Kristine McDivitt, viúva do empresário e ambientalista norte-americano Douglas Tompkins, doou 407.625 hectares de terra ao governo chileno para a criação de uma área de conservação. Tompkins morreu em 2015, aos 72 anos, após um acidente de caiaque na Patagônia chilena. O governo chileno se comprometeu ainda a adicionar 949.000 hectares de terra para a criação da rede. Os terrenos formam a maior área de conservação no Chile desde 1960.

imagem aérea - Chile

Tudo isso confirma a análise que tenho feito a bastante tempo e que indica que o Brasil virou um país submergente, desde meados da década de 1980. Ou seja, o Brasil perde posição relativa em relação ao resto do mundo, inclusive, em relação a países da América Latina com menor grau de “desenvolvimento econômico” e tem a cada dia a suas reservas ecológicas reduzidas e ameaçadas.

O Brasil vive a sua maior e mais profunda recessão da história e sofre com a epidemia de violência (homicídios, suicídios, acidentes de trânsito, revolta nos presídios, roubos, assaltos, etc.) e uma emergência sanitária (Dengue, Zika, Chicungunha, Febre Amarela, etc.). O IBGE divulgou os dados das contas nacionais mostrando que a população brasileira ficou 9,1% mais pobres nos últimos dois anos. E o pior é que toda essa recessão não funcionou como uma “destruição criativa”, mas sim como uma “destruição destrutiva”. O déficit fiscal continua alto e as taxas de investimento e poupança nunca foram tão baixas. A retomada do crescimento está comprometida e o Brasil já vive a sua segunda década perdida (com redução da renda per capita).

Parece que o Brasil está se desmilinguindo. Neste quadro, o Chile, mesmo com todos os seus problemas, parece até um paraíso no meio de seus vulcões, terremotos e tsunamis.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: [email protected]

Fonte: EcoDebate

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