Brasil foi subimperialista ao atuar na invasão da República Dominicana

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Por Emir Sader.

A mídia deixou passar em branco – exceção foi o comentário na TV Brasil –, provavelmente por vergonha. O primeiro ministro de relações exteriores da ditadura Juracy Magalhães já tinha declarado que “o que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil”.

Foram os 50 anos da invasão da República Dominicana, realizada por tropas norte-americanas em 1965, com participação de tropas brasileiras. Depois de décadas de ditadura do clã Trujillo, imposto pelos EUA para manter a dominação sobre a República Dominicana, a democratização tinha levado à presidência do país Juan Bosch, democraticamente eleito pelo povo dominicano.

Acontece que Bosch tinha posição independente, identificava-se com os interesses latino-americanos e caribenhos de soberania na política internacional, propunha que a democratização não fosse apenas o estabelecimento de um regime político liberal, mas pretendia democratizar em profundidade um país açucareiro, que havia vivido há décadas da exportação de produtos primários para os EUA e da compra de todo o resto do vizinho do norte.

Juan Bosch, escritor, ensaísta, historiador, havia sido o principal mentor da oposição ao governo de Leonidas Trujillo. Teve de se exilar por ter sido preso e perseguido pela ditadura trujillista, vivendo em vários países da região – Cuba, Venezuela, Costa Rica, México, entre outros.

Quando Trujillo foi assassinado em 1961 – episódio contado de forma literária por Vargas Llosa em seu livro A festa do bode –, foram convocadas as primeiras eleições livres em décadas no país e Juan Bosch venceu, no final de 1962 e tomou posse em fevereiro de 1963. Promoveu uma nova Constituição, anunciou a garantia dos direitos dos sindicatos e de outros setores sociais, sempre postergados.

Seu governo sofreu dura oposição dos EUA e da Igreja dominicana até que, sete meses depois de iniciado, um golpe militar abertamente apoiado pelos EUA o derrubou e se instalou no poder. Houve uma grande reação popular, que desembocou numa rebelião militar liderada por um coronel, Francisco Caamaño, que exigia o fim do governo militar e a convocação de novas eleições.

Em 28 de abril de 1964 tropas dos EUA invadiram a República Dominicana. Washington pediu a participação de tropas brasileiras e foi atendido pela ditador Carlos Castelo Branco. Tropas sob mando do general Meira Mattos foram enviadas e participaram da invasão da Republica Dominicana.

Inaugurava-se, assim, o papel do Brasil como pólo subimperialista no continente, como representante dos interesses dos EUA – uma das funções essenciais da ditadura militar, instalada poucos dias antes da invasão da Republica Dominicana. O Brasil, por meio da sua ditadura – apoiada por toda a mídia da época – violou o processo democrático dominicano, em colaboração militar direta com os EUA.

Essa foi a tradução direta da afirmação de Juracy Magalhães de identidade total dos interesses dos EUA e do Brasil. Foi assim que se instaurou a política subimperialista brasileira na região, que teve suas expressões mais significativas nas ameaças de intervenção no Uruguai, na transferência de métodos de tortura – de que o pau-de-arara foi o mais famoso –, na informação para fomentar golpes em outros países da região e, finalmente, na  aliança dos países latino-americanos com a CIA por meio do Plano Condor.

Ao contrário da política externa atual, soberana, que afirma os interesses próprios do Brasil e da integração regional contra os EUA, naquele momento o país se assumiu como potência subimperialista, a serviço dos interesses imperiais norte-americanos.

Foto: Reprodução/Rede Brasil Atual

Fonte: Rede Brasil Atual

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