Bolsonaro é o “Trump dos Trópicos”?

Na Casa Branca. Foto: Alan Santos/PR

Por Débora Nunes.

Quando a eleição presidencial brasileira anunciou Jair Bolsonaro como o vencedor, a mídia dos Estados Unidos imediatamente começou a traçar similaridades entre o novo Presidente do Brasil e Donald Trump, batizando-o de “Trump dos Trópicos”. Os presidentes realmente compartilham algumas características, como grande presença em mídias sociais, discursos anti-minorias (principalmente imigrantes e a população LGBT*), são casados com mulheres 24 anos mais jovens que eles e ambos definitivamente apresentam um péssimo gosto por gravatas e terríveis cortes de cabelo. Quando tentamos expandir essas similaridades para posições político-econômicas, contudo, precisamos de um olhar mais atento para entender porque o “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” de Bolsonaro pode parecer tão nacionalista quanto o “Fazer a América grande de novo” de Trump, mas na prática se traduz para políticas diferentes – e até opostas – em cada país.

Muitos economistas argumentam que Trump está apenas recebendo crédito por bons resultados econômicos que, em realidade, são apenas a soma de um ambiente internacional de sorte com efeitos de algumas das políticas de Obama; de qualquer forma, é verdade que, desde que Trump começou a trabalhar na Casa Branca, as taxas de desemprego e o crescimento do PIB estão indo muito bem. Bolsonaro, no entanto, acredita que esse cenário é inteiramente devido às políticas de Trump. O presidente brasileiro enfatizou repetidamente que não tem nenhum conhecimento econômico e tudo deve ser decidido por seu Ministro da Economia, mas também declarou que ficou muito impressionado com o que Trump estava fazendo nos Estados Unidos e prometeu fazer algo similar no Brasil. Em sua campanha, vários de seus partidários usaram camisetas de Trump-Bolsonaro e enfatizaram essa visão de que, de alguma forma, tomar decisões econômicas para um país é como uma receita de bolo que pode ser preparada em qualquer cozinha; o que funciona na maior e mais poderosa economia do planeta deve definitivamente funcionar para um país em desenvolvimento, com um dos mais altos níveis de desigualdade do mundo, onde mais de 20% do PIB provém da agricultura – e a participação agrícola está aumentando, indicando um profundo processo de desindustrialização.

Se “fazer no Brasil exatamente o que o Trump faz nos EUA” já não é uma boa ideia para começo de conversa, todos os sinais indicam que, em realidade, o presidente quis dizer “eu vou fazer o que eu acho que Trump gostaria que eu fizesse”, o que é ainda mais prejudicial para a economia brasileira. Bolsonaro está impulsionando a ideia de que ser amigo do Trump é ótimo, promovendo um “novo nacionalismo” no qual os recursos naturais e culturais do nosso país – provavelmente a maior riqueza do Brasil – realmente não importam, desde que os investidores norte-americanos gostem muito de nós.

A nomeação de Paulo Guedes como Ministro da Economia foi um movimento importante para atingir esse objetivo. Guedes obteve seu doutorado em economia na Universidade de Chicago e defende abertamente as ideias de Milton Friedman – ganhador do Prêmio Nobel de Economia, responsável pelos planos econômicos impopulares do Chile durante a ditadura de Pinochet. Friedman foi a única referência explícita no plano de governo de Bolsonaro, que consistiu em uma apresentação de slides com poucas informações sobre medidas econômicas concretas. De acordo com seus discursos, o plano é privatizar todas as empresas estatais, incluindo parques estaduais estabelecidos para preservar a floresta nativa, o sistema de seguridade social, os correios e empresas nacionais de grande porte como a Petrobrás (que atualmente ocupa a posição nº 58 no Ranking Global 500). Cortar impostos também está na agenda e, ao contrário do que Trump está fazendo (especialmente em relação a produtos chineses), os impostos de importação são um dos principais alvos.

Se vender as empresas mais lucrativas do país e reduzir os impostos federais durante uma crise econômica profunda com déficits públicos primários consecutivos não soa muito nacionalista, contribuir para o rápido processo de desmatamento que se acelerou profundamente desde 2017 provavelmente é ainda menos patriótico. Quando Bolsonaro ainda era um congressista, ele tentou aprovar uma lei proibindo agentes ambientais de portar armas depois de receber uma multa por pescar em área protegida – o que é no mínimo estranho, vindo de um homem tão notadamente apaixonado por armas que as tornou símbolo de suas ideias durante a campanha presidencial. Desde sua eleição, ele já afirmou que precisamos parar a “indústria de multas ambientais”, tentou fundir o Ministério do Meio Ambiente com o Ministério da Agricultura e declarou em entrevistas, discursos e palestras que a população indígena brasileira precisa de um “trabalho adequado” (concidentemente, 12,5% do território do país é ocupado por populações nativas, a maioria delas vive em áreas preservadas onde a agricultura intensiva é proibida).

Mas provavelmente a posição anti-ambiental mais aterrorizante veio de Onyx Lorenzoni, o ministro da Casa Civil. No dia 25 de janeiro, apenas 25 dias após a posse de Bolsonaro, uma represa em Brumadinho (Minas Gerais) desmoronou, espalhando uma lama tóxica responsável por 165 mortes confirmadas e 160 pessoas desaparecidas, além de efeitos para a saúde dos sobreviventes, intoxicação de terras e devastação de inúmeras plantações e fazendas. A barragem pertence à Vale, fundada em 1942 como uma empresa estatal que foi vendida através de leilões no mercado de ações em 1997, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, por R$3,3 bilhões (na época, as reservas minerais da Vale tinham um valor estimado de R$100 bilhões, o que levantou grandes controvérsias e altas suspeitas de corrupção durante o processo). Essa mesma empresa esteve envolvida no desastre da barragem de Mariana, ocorrido em 2015, que é considerado o pior desastre ambiental da história brasileira – segundo o relatório da ONU, o transbordamento de lama matou mais de 11 toneladas de peixes, devastou quase 2.000 hectares de floresta nativa e matou 19 pessoas como consequências iniciais. Relatórios oficiais das autoridades ambientais brasileiras antes dos acidentes apontaram que ambas as represas apresentavam riscos de colapso, e a diretoria decidiu ignorá-las; surpreendentemente, nenhum incidente foi julgado até o momento, e as famílias afetadas ainda não receberam nenhuma compensação da Vale. Mesmo diante desses terríveis desastres e sob o alerta de que, das 24.092 represas que atualmente operam no Brasil, apenas 3% delas foram inspecionadas em 2017 (não há dados para 2018), Onyx declarou que “não há condições de promover qualquer tipo de intervenção estatal [no conselho diretor da Vale], porque isso seria um mau sinal para o mercado”.

Por outro lado, “bons sinais para o mercado” não foram um grande problema quando Bolsonaro anunciou que seguiria Trump e mudaria a embaixada do país em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Especialistas em relações internacionais argumentam que, como resposta a essa ameaça, o Egito cancelou o 2º Fórum Brasil-Egito de Oportunidades de Investimento e a Arábia Saudita anunciou redução nas importações brasileiras de frango (o país é o maior comprador do produto, responsável por mais de 12% exportação de frango brasileiro). O Oriente Médio em geral respondeu por um saldo comercial positivo de quase R$10 bilhões em 2018, e um possível boicote da região poderia ter efeitos devastadores para as contas externas. O comércio internacional com Israel gerou aproximadamente um saldo positivo de R$1 bilhão no mesmo período – um número que dificilmente aumentará, considerando a capacidade de importação de Israel. Após a decisão de Trump de revisar o acordo do NAFTA, Bolsonaro também anunciou que o MERCOSUL precisa ser reavaliado; o grupo foi responsável pela compra de mais de 15% do total das exportações brasileiras em 2018.

Se o novo presidente “nacionalista” do Brasil não está particularmente preocupado em proteger os recursos naturais do país, nem em dar declarações públicas que afetam negativamente os índices macroeconômicos e as relações internacionais pelo menos a curto prazo, talvez seu dito nacionalismo venha da promoção da cultura brasileira, nossa culinária e nosso folclore – como na controversa atitude de Trump de pedir tele entrega de hambúrguer do McDonald’s na Casa Branca porque “é comida tradicional americana”, independentemente de quão barata e prejudicial à saúde ela seja. Mas esse não é o caso. Bolsonaro fechou definitivamente o Ministério da Cultura e o empurrou para o Ministério do Esporte; ele também quer cancelar todos os investimentos federais no Carnaval – uma das festas mais populares do mundo, que gera lucros enormes para o setor de serviços – e mostrou grande desrespeito por manifestações afro-brasileiras. Não é coincidência que nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Fernanda Montenegro, Wagner Moura e uma longa lista de artistas internacionalmente célebres declararam discordância com sua plataforma. Seu desconhecimento em relação ao capital culturais brasileiro é tanto que, quando perguntado sobre qual era seu livro favorito, o presidente não citou nenhuma peça de literatura; em vez disso, respondeu A Verdade Sufocada, um livro de Carlos Alberto Brilhante Ustra – o primeiro oficial militar a ser reconhecido por um tribunal civil como torturador durante a ditadura militar; seu centro de tortura foi responsável por mais de 500 mortes.

Essa é a primeira vez na história do Brasil que um presidente avesso à preservação dos recursos naturais da nação e à riqueza cultura brasileira é tido como nacionalista. Na prática de Bolsonaro, colocar o “Brasil acima de tudo” parece ser sinônimo de se tornar um grande amigo da Casa Branca, convencê-los de que somos pessoas legais e, por isso, eles devem nos dar algum dinheiro por meio de acordos internacionais, compra das nossas empresas estatais e importação de nossos produtos. Esqueçamos o desemprego, a distribuição de renda e o padrão de vida da população brasileira; a nova cara do nacionalismo se preocupa mais em ter uma Disneylândia em Brasília, com uma bandeira do Brasil ao lado da bandeira dos EUA, como prometido pelo Distrito Federal (e já desmentido pela Disney).

Texto de Débora Nunes originalmente publicado em inglês pela editora Dollars & Sense (http://dollarsandsense.org/blog/2019/03/is-bolsonaro-the-trump-of-the-tropics.html)

Débora Nunes é graduada e mestra em Economia pela UFRGS e desenvolve sua pesquisa em economia política, economia feminista e gênero e macroeconomia. Também trabalha como bailarina e produtora cultural e é sócia-proprietária da Bichano Produções Culturais. Atualmente é aluna do programa de PhD em Economia na Colorado State University – CSU, nos Estados Unidos.

 

A opinião do autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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