Bibi Ferreira canta a eternidade

Bibi Ferreira durante show.

A vida de Abigail Izquierdo Ferreira (01/07/1922 – 13/02/2019) sempre passou longe daquilo que considera-se popularmente como comum. Filha do ator, diretor e dramaturgo Procópio Ferreira, ícone do teatro brasileiro, e da bailarina espanhola Aída Izquierdo, Bibi, como ficou conhecida, estreou no palco antes de completar o primeiro mês de vida, substituindo uma boneca de pano no colo de sua madrinha, a atriz Abigail Maia, no espetáculo Manhã de sol, de Oduvaldo Vianna. Criada nos bastidores de espetáculos teatrais e circenses, talvez tenha sido essa “herança”, atirada em seu colo enquanto ainda era uma criança de colo, a grande responsável pelo respeito, disciplina e dedicação que a menina cultivou durante toda a vida ao palco e, principalmente, à plateia que cativou através de apresentações memoráveis.

Cantando, atuando e encantando gerações de espectadores, Bibi Ferreira transformou-se em ícone de uma geração do teatro nacional e é, indiscutivelmente, um dos mais importantes nomes dos palcos brasileiros. Na última quarta-feira, 13, a diva que dedicou sua existência a cantar e interpretar a vida saiu de cena em silêncio, dormindo um sono tranquilo em seu apartamento no Flamengo, na cidade do Rio de janeiro, aos 96 anos.

Atriz, cantora e compositora, Bibi teve sua estreia profissional aos 18 anos, em 1940, depois de passar sete anos no Corpo de Baile do Teatro Municipal do Rio. Em 1941, atua ao lado do pai, Procópio, na peça La Locandiera, de Carlo Goldon. A atriz viaja o ano de 1942 apresentando o repertório da Companhia Procópio Ferreira pelo interior de São Paulo e Sul do país. Em 1944, inaugura a sua companhia, a Companhia de Comédia Bibi Ferreira, com o espetáculo Sétimo Céu, contratando as atrizes Maria Della Costa e Cacilda Becker, além da diretora francesa Henriette Morineau. Nessa época, o próprio teatro passava por transformações marcantes, de modo que Bibi faz história pela primeira vez ao ser uma das primeiras mulheres a comandar uma companhia teatral.

Bibi Ferreira se aposentou oficialmente dos palcos em setembro de 2018
Bibi Ferreira se aposentou oficialmente dos palcos em setembro de 2018. Imagem: Reprodução.

Bibi Ferreira transformou-se em ícone de uma geração do teatro nacional e é, indiscutivelmente, um dos mais importantes nomes dos palcos brasileiros.

Em 1946, buscando um mergulho mais profundo na criação, Bibi Ferreira viaja para Londres para estudar direção na Royal Academy of Dramatic Arts. Por lá estuda e trabalha o cinema e pega gosto pela famosa sétima arte. Na década de 1950, recebe o prêmio dos críticos do Rio de Janeiro pela direção de A Herdeira, de Henry James. Na década de 1960, dedica-se aos musicais, com destaque para My Fair Lady, ao lado de Paulo Autran, em 1964.

Em 68, apresenta na TV Tupi o programa Bibi ao vivo, responsável por levar grandes nomes do teatro à televisão. Em 1970, dirige o musical Brasileiro, profissão: esperança, de Paulo Pontes, com Maria Bethânia e Ítalo Rossi, posteriormente representado por Clara Nunes e Paulo Gracindo. Em 72, atua em O homem de la Mancha, de Paulo Pontes e Flávio Rangel com músicas de Chico Buarque e Ruy Guerra e, em 1975, estreia e estrela Gota d’água, sendo premiada no papel de Joana, um dos mais marcantes e importantes de sua extensa biografia.

Nos anos 80, Bibi, gozando de unanimidade no meio teatral, dirige, atua e produz diversos espetáculos. Na década de 1990, revive grandes sucessos musicais, além de comemorar seus 50 anos de carreira com shows inesquecíveis. Em 1999, aos 77 anos, dirige sua primeira ópera, a grandiosa Carmem de Bizet. Nos anos 2000, continua na ativa, realizando shows principalmente, com destaque para suas interpretações de músicas da cantora francesa Edith Piaf, que comoveu plateias e abocanhou elogios e prêmios no Brasil e no exterior.

Bibi Ferreira faleceu na última quarta-feira
Bibi Ferreira faleceu na última quarta-feira. Imagem: Reprodução.

Diferente do que possa parecer, Bibi jamais deixou os palcos. Apesar do doloroso anuncio em que dizia compreender o tempo e decidia, a contragosto, abandonar a profissão, Bibi sabia que se tornara maior do que a impossibilidade. A impressão que se tem é de que ela sempre estará por aí, cantando de maneira elegante em meio a penumbra, com sua voz precisa e suas mãos firmes segurando o tempo no compasso de um suspiro.

Certas coisas na vida não carecem de explicações ou respostas. Essas coisas, próprias da fantasia e da beleza que encanta sem explicações, são compreendidas através dos olhos da alma, e, seja lá como for, fazem flores brotar do impossível chão. Assim foi a vida de Bibi Ferreira: uma vida infinita que ecoa mesmo depois de finda. Que a diva dos palcos brasileiros nos acompanhe pelos caminhos difíceis que se anunciam à cultura nesse desgoverno inculto e ignorante, que sua memória nos de força e que seu legado seja sempre um farol a nos iluminar pelos caminhos das ribaltas.

Obrigado, Bibi.

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