Banco Mundial: 4 milhões de latino-americanos vivem do lixo reciclado

Publicado em: 08/01/2015 às 08:07
Banco Mundial: 4 milhões de latino-americanos vivem do lixo reciclado
Sebastián Masa, em uma usina de reciclagem
Sebastián Masa, em uma usina de reciclagem

Quatro milhões de latino-americanos trabalham separando materiais recicláveis, dos quais 75% o fazem de maneira insalubre.

Talvez depois de ler este artigo, você comece a pensar duas vezes antes de jogar algo no lixo. Uma das chaves para que milhões de pessoas na América Latina tenham um trabalho mais digno pode estar ao alcance de nossas mãos: separar o lixo “reciclável” do “não-reciclável”, distinguir entre o que se joga no recipiente verde ou no azul.

Para colocar isso em perspectiva, em todo o mundo cerca de 15 milhões de pessoas ganham a vida recuperando material reciclável no lixo. Destes, 4 milhões estão na América Latina, onde pelo menos 75% trabalham de forma insalubre. Caminham todos os dias pelas montanhas de lixo em busca de papelão, papel, plástico, vidro, tecidos e outros materiais para vender.

Independentemente dos nomes pelos quais são chamados, que variam a cada país, o denominador comum são as condições desumanas em que trabalham e vivem esses recuperadores informais.

Sua tarefa é muito mais sacrificada do que se vê. “Muitas vezes tivemos que passar a noite no lixo porque nos roubavam o que tínhamos juntado durante o dia”, conta Sebastián Masa, que trabalhou no lixão a céu aberto, em Mar del Plata, na costa argentina, durante mais de cinco anos.

“As pessoas que trabalham em aterros sofrem de doenças crônicas e envelhecimento precoce”, explica Ricardo Schusterman, especialista em desenvolvimento social do Banco Mundial. “Os pobres morrem jovens; e os pobres que trabalham em aterros sanitários, morrem mais cedo ainda.”

Além das condições insalubres, há outros problemas. Na recuperação há uma longa cadeia de intermediários, “onde acontecem muitas situações de exploração e crime”, diz o especialista.

Um exército “verde”

“Há montanhas de lixo em toda a América Latina e ali há pessoas trabalhando”, diz Albina Ruiz, que se define como lixóloga e atualmente preside a Cidade Saudável, uma associação que busca uma mudança de atitude em relação ao problema do lixo sólido e que treinou e formalizou mais de 11.500 catadores no Peru.

“Já vimos até crianças que ainda estão mamando, esperando enquanto suas mães trabalham”, diz Ruiz. “Se trabalharmos na melhoria da renda dessas famílias, automaticamente estas crianças vão parar de acompanhar seus pais ao trabalho.”

A verdade é que em toda a região existem vários programas para enfrentar a exclusão social em que os catadores estão imersos.

“Precisamos promover o emprego alternativo – seja dentro ou fora do setor de resíduos sólidos – junto com programas de apoio social em geral e, em especial, para os recuperadores mais vulneráveis: viciados, pessoas sem lar ou doentes”, propõe John Morton, especialista em meio ambiente do Banco Mundial.

“Os pobres morrem jovens; e os pobres que trabalham em aterros sanitários, morrem mais cedo ainda” Ricardo Schusterman especialista em desenvolvimento social no Banco Mundial

Uma delas é conceber os recuperadores como empresários. Na região existe um grande potencial econômico para desenvolver empresas que se dediquem à reciclagem. Um latino-americano produz em média entre um e 14 quilos de lixo por dia. Se fossem separados na fonte (ou seja, nas próprias casas em que são produzidas), aproximadamente 90% poderiam ser reconvertidos em combustível, ou reciclados.

“Os recuperadores são um exército verde, porque trabalham pelo planeta sem saber”, explica Ruiz. “Criaram um negócio onde o resto viu desperdício”.

É precisamente nessas condições extremas que surgiram associações e cooperativas na busca de condições dignas de trabalho e de maior rentabilidade, seja por meio da coleta porta a porta ou em fábricas de separação.

Uma delas é a cooperativa CURA, que agrupa os recuperadores da cidade de Mar del Plata (400 km ao sul de Buenos Aires, Argentina), onde se estima que sejam produzidas mais de 1,1 mil toneladas de lixo por dia.

“Formamos a cooperativa para dar uma solução de emprego aos recicladores que trabalham no aterro sanitário da cidade”, diz Masa. Atualmente, 32 pessoas executam a recuperação em uma fábrica de separação que conta com transportadores, máquinas adequadas, vestiários, banheiros e refeitório.

Este espaço foi construído por meio do projeto de Gestão Integral de Resíduos Sólidos (GIRSU), da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Argentina, com o apoio do Banco Mundial, e consiste em tratar os resíduos de forma sustentável desde a geração nos lares até chegar a um aterro sanitário ou for reciclado. Iniciativas semelhantes existem em outras cidades argentinas de Chubut, Mendoza e Rosario.

“Houve uma grande mudança em nossas vidas. Agora trabalhamos oito horas e voltamos para casa. Temos vidas fora do trabalho”, acrescenta Masa. No entanto, ainda não foi resolvida a situação de cerca de 200 pessoas – o número muda de acordo com as variações do mercado de trabalho – que comem e trabalham em condições desumanas no lixão, a apenas 5 quilômetros dos turistas que vêm passar o verão todos os anos na cidade.

Melhorar a cadeia de valor

De acordo com especialistas, existem aspectos centrais para melhorar a vida dos recuperadores. Um deles é a separação na origem. “É importante entender onde vão nossos resíduos”, diz Morton. “Ao separar, podemos facilitar o trabalho dos recicladores informais, seja os que trabalham nas ruas ou em uma fábrica.”

Além disso, tanto o Peru quanto o Brasil têm leis explícitas que exigem a inclusão social dos trabalhadores informais, como parte da modernização dos sistemas de resíduos sólidos. Outros países da região, como a Colômbia, apresentam projetos de lei em tramitação.

Além de um marco regulatório adequado, há dezenas de outros projetos para melhorar a situação dos recicladores informais. No México, por exemplo, a Corporação Financeira Internacional (IFC na sigla em inglês) apoiou a construção de uma fábrica para a recuperação de plástico reciclável, a Petstar.

No plano também se contemplou a inclusão social para as comunidades de recicladores, o que incluiu a criação de um Centro de Desenvolvimento Infantil, onde mais de 230 crianças, todas filhos de catadores, recebem cursos e comida. Por sua vez, o projeto melhorou as condições de trabalho de 2.600 pessoas.

“Temos a responsabilidade de olhar para toda a cadeia de valor”, defende Ruiz. Ele acrescenta que o Ministério da Economia do Peru oferece incentivos aos municípios que têm uma boa gestão da separação de resíduos. Atualmente, cerca de 205 municípios peruanos desfrutam dos benefícios da separação do lixo. Um deles é um trabalho digno para os empreendedores do lixo.

 Banco Mundial

Fonte: Portal EcoDebate

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