Ataque às Madres e à memoria argentina

Por Elaine Tavares.

Quando a ditadura argentina (1976-1983) sequestrava, matava e desaparecia com qualquer um que criticasse o regime, surgiram as “madres” da Praça de Maio. Eram mulheres que buscavam seus filhos, levados pela polícia para nunca mais voltar. Elas poderiam ficar chorando seus mortos, mas não. Decidiram enfrentar os militares e de uma maneira muito singular. Juntavam-se em frente ao palácio do governo, e marchavam pela praça, todas as semanas, às quintas-feiras. Sem falhar. Fizesse chuva ou sol. Aos poucos, aquelas mulheres, com seus lenços brancos e suas caminhadas silenciosas já eram um grito latino-americano. Um clamor que foi capaz de sacudir todo o continente.

O movimento das mães da Praça de Maio cresceu e passou a confrontar sistematicamente a ditadura. Quando o regime acabou em 1983 elas seguiram marchando, porque mais de 30 mil pessoas continuavam desaparecidas. E até hoje são uma referência na luta contra o terror. Muitas encontraram os corpos de seus filhos, outras tantas encontraram os netos perdidos, arrancados pela ditadura. E outras ainda buscam.

Com o tempo, e apoiadas pela população, as “madres” foram construindo o caminho da memória, guardando os documentos, produzindo outros, garantindo o conhecimento sobre os fatos da ditadura, mantendo viva a lembrança daqueles que lutaram contra a opressão.

Em 2007, no governo de Nestor Kirchner, o governo de Buenos Aires cedeu 60 000 m² de um edifício conhecido como Elefante Blanco para que ali se instalasse a Fundação Madres de Plaza de Mayo, da qual a associação das mães também faz parte. Desde então, ali funciona a universidade popular das madres, jardim, livraria, restaurante e escola.

Agora, no governo Macri, as madres começaram a sofrer uma série de pressões para desocupar o prédio onde estão há 20 anos.  Isso porque há um juízo contra a fundação, por conta de não pagamento de salários a trabalhadores. Nessa semana, agentes da justiça tentaram entrar na fundação, sem qualquer notificação oficial, para, segundo eles “fazer um inventário dos bens”.

A sorte é que qualquer ataque contra as madres sempre é defendido pela população que, de maneira, autônoma, se posta em frente ao prédio e não permite qualquer ocupação. Segundo Hebe de Bonafini a intenção do governo Macri é destruir os arquivos que estão protegidos pelas madres. “Sua intenção é borrar a memória. Eles querem pegar os arquivos, os quadros, os presentes, não para proteger, mas para destruir”.

A medida judicial de apreensão dos bens da fundação foi assinada pelo juiz Javier Cosentino com o argumento de que servirão para indenizar trabalhadores da entidade que entraram na justiça por conta de não pagamento de salários. Mas, conforme alegam as mães, uma coisa é a fundação e outra é a associação. Essa última, responsável pela conservação da memória daquele triste período da história argentina, que ainda não teve fim.

Além da questão das indenizações, há uma ação na Justiça contra Hebe de Bonafini, que é acusada de desviar recursos de um programa de construção de casas sociais durante o governo Kirchner. Segundo ela, é mais uma tentativa de desqualificar o movimento.

A perseguição às madres tem se constituído em todos os campos. Não apenas na justiça, mas também no aspecto simbólico. Tanto que o governador de Buenos Aires, alegando uma reforma na famosa Praça de Maio, mandou retirar do chão as pinturas dos lenços brancos, símbolo da luta das madres, que ali estavam há mais de 40 anos.

As madres, que enfrentaram uma das mais selvagens ditaduras, seguem resistindo. Já estão velhinhas, mas não se intimidam. Elas sabem que esse trabalho que realizam – de manutenção da memória do crime – não se acabará com elas.

De qualquer forma, como em todas as quintas-feiras, desde 1977, elas retornam à praça, semana após semana, esteja ela em obras, esteja ela sendo re-feita, esteja ela sendo apagada, para fazer com que todos se lembrem. “Não apagarão a memória argentina”.

Os lenços brancos seguirão apontando a fonte do terror.

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