Assédio, denúncias e discernimento

Conforme previsto, 2018 veio quente e encontrou o feminismo fervendo. E entre o Oprah, Danuza e Deneuve, em poucos dias já há boas lições.

 

Por Joanna Burigo.

Nos Estados Unidos de Trump, 2017 começou com manifestação de mulheres e vai ficar marcado por suas denúncias de assédio em Hollywood. Mal começou o ano novo e, como compete à terra do showbiz, o espírito dos tempos manifestou-se em um dos maiores eventos da indústria. O Globo de Ouro foi tomado por ações de poderosas que disseram time’s up para o machismo, e atingiu seu ápice quando Oprah Winfrey, no discurso de aceitação pelo prêmio mais importante da noite, estabeleceu: acabou esse tempo, é o fim de uma era, nós viramos a história.

Pensando na repercussão do evento e conhecendo dinâmicas de redes sociais, imaginei que a semana traria uma avalanche de perspectivas conflitantes acerca dos muitos ângulos destas ações, num gradiente do entusiasmo eufórico à irritação agressiva, e estava ansiosa pelos debates, afinal a soma de muitos pontos de vista expande nossa compreensão de fenômenos, e isso nunca me parece ser ruim. Prevendo isso, já na segunda-feira escrevi em meu perfil de Facebook que criticar ações feministas ou tangenciais ao feminismo é tão necessário, útil e pertinente que as próprias feministas tendem a ser as primeiras a fazer isso, inclusive brigando entre nós, seja de formas racionais e respeitosas ou na gritaria e dedo-no-olho.

(Sim, pois como disse Marie Shear, o feminismo é a noção radical de que mulheres são pessoas. Sendo assim, também sabemos ser prudente evitar violência. É assoberbado, cego e bastante injusto depositar desproporcionalmente em nós a responsabilidade primordial pela não-violência, convenientemente desconsiderando números amplamente divulgados acerca de dados concretos e análises sociais meticulosas que apontam a responsabilidade pela maior parcela da violência cometida no mundo na direção dos homens. A docilidade que esperam de nós não passa de um item da longa lista de expectativas de que mulheres se comportem.)

No Brasil de Anitta, o videoclipe Vai, Malandra nos fez terminar o ano submersas em críticas interessantes e diatribes nem tanto. Entre um glúteo e outro do bumbum sujeito-objeto (abjeto) vimos convergências e divergências sobre tudo, de talento a apropriação cultural a erotismo e o poder emancipatório de ostentar celulites. Gastamos horas, latim e bile debatendo nas redes, e o assunto se exauriu enquanto dançávamos ao beat classudo da primorosa composição. Com ou sem consenso feminista sobre o clipe, a diva deixou Lady Gaga e Beyoncé comendo poeira no ranking da Billboard, e afirmo ter percebido um aumento expressivo de mulheres abraçando seus corpos im/perfeitos com menor pudor neste verão. Tum turum, an an.

Crítica e chata

A crítica é o modus operandi do feminismo, não é por nada que levamos a pecha de chatas. Mas é equivocado crer que por priorizarmos o combate ao patriarcado, não há disputas entre nós. Desde antes de movimentos de mulheres se organizarem sob a palavra-conceito “feminismo” – que só passou a ter força da metade do século passado para cá, e que segue aberto a várias interpretações plausíveis – mulheres marginalizadas levantam bandeiras de opressões internas. Em 1827 a abolicionista estadunidense Sojourner Truth escancarou verdades sobre os pontos cegos de suas contemporâneas brancas, que batalhavam sufrágio ao mesmo tempo em que convenientemente esqueciam de articular e abordar os diferentes eixos e graus de opressões sofridas por mulheres negras, suas companheiras de lutas pelo direito ao voto. Se o feminismo visa a erradicação de opressões – e desenvolvimentos teóricos e práticos evidenciam que esse é um ponto comum aos feminismos – então críticas às opressões que cometemos entre nós são bem-vindas. O que não dá é para acreditar estar fazendo críticas necessárias, úteis e pertinentes aos feminismos reafirmando pensamentos, práticas e lógicas machistas – ou racistas, ou coloniais, ou LGBTQIfóbicas, ou qualquer outro abuso ou manutenção de relações desiguais de poder e suas consequências letais.

Mal nos recuperávamos do Globo de Ouro e a avalanche de perspectivas fez uma curva intrépida ao esbarrar no estranho manifesto pelo direito de ser importunada, assinado por 100 francesas capitaneadas por Catherine Deneuve, e na coluna de Danuza Leão sobre a premiação. Os argumentos dos dois textos, tão obsoletos que cheiram a mofo e naftalina, são um prato cheio de amostragens com recorte de raça e classe das (aparentemente abstratas e difíceis de entender) relações desiguais de poder. Por isso, embora tenham causado – justificadamente – volumes industriais de indignação e raiva, penso que le manifeste e as dúvidas da escritora podem ser bastante úteis.

Erro e equívoco

Vale analisar o discurso de Danuza Leão. A legendária cronista nos revela não ter clareza sobre o que é assédio, diz ser do tempo em que era ótimo passar por uma obra e receber um elogio, e que o Globo de Ouro pareceu um grande funeral. Ela não está errada. Mas como está equivocada…

Não é errado não saber definir assédio. Mas é um equívoco pensar que não exista quem saiba distinguir sedução de abuso, ou que o último resulte em denúncias porque isso está na moda. Elogio não é assédio e assédio não é elogio, e o que indica o que é um ou outro é abuso de poder. Uma coisa é um pretendente desajeitado ou um galanteio respeitoso, outra é tirar proveito de posições hierárquicas para manipular, chantagear, coagir e dominar.

Tampouco é errado alocar ao passado o tempo em que assédio era considerado normal. O equívoco é esperar que continue sendo aceitável. Não é. É abuso e, neste tempo, será desvelado. A hashtag-título da manifestação glamorosa, #TimesUp, literalmente significa “o tempo acabou”. É um slogan (Hollywood, afinal), mas não um que surge do nada e leva a lugar nenhum. A ação foi orquestrada, congrega campanhas anteriores (#AskHerMore, #MeToo), e lançou um fundo para despesas legais direcionado a mulheres vítimas de assédio sexual no trabalho. Além disso, os discursos foram ensaiados. Já na abertura Seth Meyers avisou que o evento estava fazendo 75 anos, só para que Jessica Chastain retrucasse: “mas a atriz que faz sua esposa tem apenas 32”. Natalie Portman, apresentando os nominados para o prêmio de melhor direção, observou friamente que todos eram homens. Selvagem – mas faltou dizer que todos também eram brancos. (Ah, a conveniência.) Laura Dern sugeriu que falar sobre opressões deve ser nosso Norte na criação de novos humanos, e Elizabeth Moss, recebendo o prêmio de melhor atriz pelo Conto da Aia (que também ganhou melhor série dramática, o que é bastante significativo), citou a autora Margaret Wood: “estamos escrevendo, nós mesmas, a história”.

Quanto ao magnífico discurso de Oprah Winfrey, é claro que é válido questionar se não foi proselitismo em preparação para uma possível campanha presidencial. Mas mesmo que isso proceda, não invalida a potência de suas palavras, o alcance de sua voz, e a magnitude desta mulher excepcionalmente inteligente e bem-sucedida e o que ela representa num mundo que tenta, sistematicamente, aniquilar mulheres negras e suas produções.

Não é acidente que a maioria das ativistas que acompanharam as atrizes envolvidas na campanha não eram brancas. Talvez tenha sido jogada de marketing, mas é incontestável que mulheres negras, indígenas e trabalhadoras urbanas ou do campo estão na vanguarda das lutas por justiça, e me parece positivo que seus nomes, imagem e projetos inspiradores constem na cobertura do evento de luxo. Marai Larasi (diretora do INKAAM, dedicada a combater violência sofrida por meninas negras), em entrevista no tapete vermelho apontou o muro de silêncio sobre violência contra mulheres complementando que falar é produzir rachaduras nele, e finalizou declarando que chamar atenção para assuntos que afetam mulheres mundo afora é bom uso do poder dessas atrizes. Esse sentimento foi ecoado nas falas de Tarana Burke (criadora do movimento #MeToo e diretora sênior da ONG Garotas pela Equidade de Gênero), Rosa Clemente (ativista política porto-riquenha), Monica Ramirez (fundadora da Aliança Nacional de Camponesas) e Ai-jen Poo (diretora da Aliança Nacional de Trabalhadoras Domésticas), para citar algumas ativistas que abrilhantaram o evento.

Voltando a Danuza Leão e sua professa confusão, ao relacionar a decisão sartorial das atrizes com velório, ela novamente não erra e se equivoca ao não perceber que o objetivo era mesmo simbolizar o funeral da era de silêncio sobre abusos de poder. Foi significativo e elegante eleger a cor tradicional do luto ao invés de, sei lá, vermelho-protesto ou rosa-estereótipo.

As 100 francesas

Já o manifesto das francesas gerou acirrados embates visto que tocou num ponto nevrálgico: sexo. Existe muita confusão acerca do que demandamos, e elas se acentuam quando a pauta é esta. Foi Oscar Wilde quem satirizou que tudo é sobre sexo, menos sexo, que é sobre poder. Sexo e dinheiro são searas em que a economia do poder circula de jeitos particularmente bestiais – e uma boa indicação disso no feminismo é a violência que perpassa os debates sobre trabalho sexual.

Pessoalmente, achei o manifesto risível. Primeiro porque me parece bastante óbvio que jogos de sedução calcados no machismo tenham caráter predatório, e embora a maioria das mulheres que conheço não queira ser caçada, o direito de desejarem isso não está em risco. Segundo, porque é evidente que puritanismo e moralismo não são vistos exclusivamente nos feminismos – pelo contrário, por aqui vejo muito mais movimento em direção à libertinagem. De novo, somos desproporcionalmente acusadas de hábitos mais frequentemente vistos em movimentos antifeministas, como os que informaram proibições recentes de exposições de arte. Terceiro, porque parte de uma prerrogativa infundada, cansada, paranoica, e que inadvertidamente revela nossos medos quando insistimos em interpretar o que não é dito. As fundamentais distinções entre estar vigilante frente a práticas opressivas e fazer vigilância do desejo dos outros, e entre expor abusos e policiar comportamentos, são nós cegos que precisam ser urgentemente desatados.

O manifesto teria mais utilidade se tensionasse o conceito de consentimento articulado aos obviamente existentes jogos ambíguos de sedução, ou servisse para vislumbrarmos um “novo normal” organizado a partir da prerrogativa de que mulheres têm pleno direito aos próprios corpos e são respeitadas ao dizerem não. O que não dá é para confundir o desejo individual de viver livremente qualquer sexualidade com a liberação de práticas não consentidas. Essa, me parece, é a maior confusão que o manifesto causa. Mas não a única: ao acusar o feminismo de fazer “caça às bruxas”, o texto inverte perversamente a lógica da expressão, que serve para denotar a perseguição de poderosos algozes por vítimas marginalizadas. A ideia de homens sendo perseguidos é uma inversão tão fantasiosa da realidade quanto o fetiche da elite por bater panelas.

Danuza, Deneuve et al são representantes da uma geração que lutou por liberdade sexual, e penso que talvez exista um elemento de, digamos, reacionarismo progressista em suas falas. “Lutamos por liberdade sexual, e agora feministas mais jovens querem cerceá-la?” Talvez seja esse o sentimento, não sei. Mas se for, não passa de outra confusão. Todo respeito e gratidão às nossas antecessoras, que batalharam pelo direito de exercermos nossa sexualidade como bem quisermos. Mas o tempo não para e, neste, a missão é alargar a noção de liberdade delimitando onde a falsa expressão dela configura abuso.

Penso ainda que talvez o conflito generacional, apesar de real, não foi o que informou essa confusão, mas sim os lugares que estas mulheres ocupam. A importância da posicionalidade (Patricia Hill Collins) e do lugar de fala (Djamila Ribeiro) são suas aplicações como engrenagens da ferramenta interseccional (Kimberlé Crenshaw). É imprescindível observar que Danuza e Deneuve são brancas, ricas, estão em posições de poder institucional legítimo, e são heterossexuais. Nada disso seria problemático caso houvesse também a consciência de que atrelados a estas características estão os benefícios do privilégio, cuja característica mais marcante é a cegueira que permite pensarmos que algo não é um problema simplesmente por não ser um problema nosso. É jogada de manutenção de poder dar atenção desproporcional a qualquer bobagem proferida por um número ínfimo de gente branca e rica que confunde desejos particulares com direitos sociais.

Não estou surpresa que esses textos existam; todas nós conhecemos mulheres que pensam assim, o feminismo sempre questionou esta postura, e a medida que o projeto avança, vamos conseguindo ver com mais rapidez e eficácia os pontos onde é distorcido. O patriarcado segue firme e forte, e cabe bastante a nós investigar o passado para orientar o futuro dessa e tantas outras discussões – que indelevelmente ocorrerão em espaços como redes sociais, que podem ser cansativas, mas há nelas muita troca e potencial pedagógico.

Eu sou filha virtual de Donna Haraway, então agourar o surgimento e desenvolvimento de subjetividades feministas ciborgues está longe de ser uma prioridade – quero mais é que as tecnologias de comunicação sigam nos auxiliando a explorar, com vigor e honestidade, todas as nuances de nossa opressão histórica e sistêmica até que a erradiquemos. Se no processo houver desconforto, que bom: é uma escola potente. “Feminismo” foi o verbete mais procurado no dicionário Merrian-Webster em 2017. Espero que em 2018 a palavra de ordem seja “discernimento”.

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